O incidente, envolvendo o que as autoridades afirmam ter sido um drone de fabrico russo equipado com um dispositivo explosivo, abalou a liderança da Lituânia e levou a um apelo urgente à NATO para reforçar as defesas aéreas ao longo do flanco oriental da aliança.
A Lituânia dá o alerta à NATO
A Lituânia pediu formalmente à NATO “medidas imediatas” para reforçar a sua defesa aérea, depois de confirmar que um drone russo a transportar explosivos foi encontrado no seu território.
O conselheiro de segurança nacional, Kestutis Budrys, disse que ele e a ministra da Defesa, Dovile Sakaliene, escreveram ao secretário-geral da NATO, Mark Rutte. A exigência: um reforço rápido das capacidades de defesa aérea da Lituânia e uma resposta mais firme ao que Vilnius considera ser um padrão crescente de violações do espaço aéreo.
O governo lituano argumenta que o incidente evidencia uma ameaça real e em crescimento ao longo da fronteira oriental da NATO.
O drone entrou no espaço aéreo lituano a 28 de julho e foi posteriormente recuperado a 1 de agosto num campo de treino militar. As autoridades afirmam que sobrevoou partes da capital, Vilnius, onde residentes relataram a passagem de uma aeronave invulgar.
Carga explosiva e uma descoberta inquietante
Os investigadores dizem que a aeronave não era apenas uma peça de equipamento perdida. Transportava um dispositivo explosivo.
A procuradora-geral da Lituânia, Nida Grunskiene, confirmou que foi encontrado um dispositivo semelhante a uma bomba preso ao drone quando este foi recuperado na área de treino. Uma equipa do exército neutralizou o explosivo no local.
Para residentes e militares, saber que um drone armado cruzou os céus da capital acrescenta uma nova camada de ansiedade.
O Ministério Público abriu uma investigação criminal. Para já, está a tratar o drone como uma potencial violação das regras de segurança nacional e das normas internacionais de aviação, analisando a sua rota de voo, a carga e a origem.
Foi um acidente ou uma mensagem?
Os investigadores ainda não chegaram a uma conclusão definitiva sobre o objetivo do drone.
Uma hipótese de trabalho é que a aeronave não tripulada entrou no espaço aéreo lituano por engano, talvez devido a erros de navegação ou a uma avaria. Grunskiene disse que esta incursão acidental continua a ser uma das principais linhas de investigação.
Ao mesmo tempo, sublinhou que outros cenários estão a ser analisados em paralelo. Entre eles está a possibilidade de o drone ter sido deliberadamente deixado à deriva em direção ao território da NATO para testar defesas aéreas, enviar um sinal político ou avaliar as reações da aliança.
Um drone ligado à guerra da Rússia na Ucrânia
As autoridades lituanas acreditam que o dispositivo é um drone Gerbera de fabrico russo. Este tipo de sistema é geralmente usado como isco (decoy) em ataques russos contra a Ucrânia.
Estes drones surgem frequentemente ao lado de armas mais letais. O seu papel pode ser saturar os ecrãs de radar, acionar mísseis de defesa aérea e ajudar a identificar pontos fracos no escudo protetor de um país.
- Modelo: Provavelmente um drone Gerbera
- Origem: Acredita-se que seja russo
- Utilização típica: Isco ou sistema auxiliar em ataques na Ucrânia
- Carga na Lituânia: Dispositivo explosivo neutralizado por especialistas
A presença de um drone associado ao campo de batalha ucraniano tão perto de Vilnius aumenta ainda mais o alarme entre responsáveis lituanos, que há muito alertam para o risco de a guerra transbordar de formas inesperadas.
Segundo incidente em menos de um mês
A Lituânia afirma que este não é um caso isolado. Budrys observou que este é o segundo episódio semelhante em menos de um mês envolvendo drones ou aeronaves estrangeiras perto do território lituano.
As autoridades dizem que, em conjunto, estes episódios sugerem um padrão mais amplo. Acrescentam ainda que outros aliados da NATO ao longo do flanco oriental relataram incidentes comparáveis.
Para os Estados na linha da frente da NATO, estas violações repetidas parecem menos falhas pontuais e mais testes de esforço à determinação da aliança.
O governo lituano apresenta agora a situação como um desafio de segurança “real e crescente”. Esta formulação é importante: pretende reforçar, dentro da NATO, o argumento a favor de defesas mais robustas e mais permanentes na região do Báltico.
Pressão sobre a Bielorrússia e a Rússia
Embora se acredite que o drone seja de fabrico russo, Vilnius está também a pressionar publicamente a vizinha Bielorrússia.
As autoridades lituanas argumentam que Minsk tem a responsabilidade de impedir incidentes transfronteiriços com origem ou passagem pelo seu território. Sugerem que operações aéreas perto da fronteira podem estar a lançar ou a orientar drones que depois entram no espaço aéreo da NATO.
Budrys avisou que, se a Bielorrússia não atuar para reduzir o risco de novos incidentes, a Lituânia responderá com medidas políticas e “outras”. Não especificou quais, mas as opções poderão incluir novas sanções, restrições fronteiriças ou um controlo mais apertado de rotas de trânsito.
O escudo aéreo da NATO no flanco oriental
Os Estados bálticos - Lituânia, Letónia e Estónia - dependem fortemente da defesa aérea coletiva da NATO. Não mantêm grandes forças aéreas próprias e, em vez disso, contam com uma missão rotativa de aviões aliados para policiar os seus céus.
Na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a NATO já reforçou as patrulhas e colocou mais sistemas de defesa aérea na região. O mais recente pedido da Lituânia visa avançar ainda mais nesse processo, tornando destacamentos adicionais mais permanentes e, possivelmente, alargando a cobertura de radar e sensores.
Como incidentes deste tipo podem escalar
Episódios como este levantam questões delicadas sobre as regras de empenhamento da NATO. Se um drone armado entra em território da aliança, os governos têm de decidir como responder rapidamente, muitas vezes com informação incompleta.
Vários cenários preocupam os planeadores de defesa:
- Um drone com avaria, lançado para operações na Ucrânia, desvia-se muito da rota e despenha-se em território da NATO.
- Um drone de reconhecimento ou de engano é deliberadamente conduzido perto da fronteira para testar o tempo de reação e a cobertura de radar.
- Um drone armado é usado de forma provocatória, procurando causar danos mantendo a responsabilidade ambígua.
Cada cenário envolve riscos políticos e militares diferentes. Um acidente pode justificar protestos diplomáticos e contactos técnicos. Um teste deliberado pode levar a novas sanções, a destacamentos avançados ou ao reforço de regras para intercetar aeronaves não tripuladas.
Termos-chave e implicações mais amplas
Dois conceitos estão no centro desta história: violação do espaço aéreo e defesa coletiva.
Uma violação do espaço aéreo ocorre quando uma aeronave entra no espaço aéreo soberano de um país sem autorização. Normalmente, os Estados tentam descolar caças, identificar a aeronave e escoltá-la para fora ou forçá-la a aterrar. Quando a aeronave é não tripulada e transporta explosivos, o risco aumenta drasticamente.
Cada drone não autorizado obriga os Estados da NATO a decidir, em tempo real, onde se situa a linha do risco inaceitável.
A defesa coletiva está prevista no Artigo 5.º da NATO, que considera um ataque armado a um membro como um ataque a todos. A maioria dos incidentes envolvendo drones ou mísseis desviados não chegou ao ponto de acionar essa cláusula, mas alimentou um debate sobre que tipo de dano ou intenção ultrapassaria esse limiar.
Por agora, os líderes lituanos parecem menos interessados em invocar mecanismos dramáticos do tratado e mais focados em apertar o escudo prático sobre as suas cabeças. O drone encontrado perto de Vilnius tornou-se um exemplo concreto que podem apresentar em reuniões da aliança, ao defenderem que o tampão entre a guerra da Rússia e o território da NATO é mais fino do que muitas pessoas pensam.
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