Derrière os fly-pasts cintilantes e os espectáculos de luzes, Moscovo confirmou que o seu caça furtivo Su‑57 saiu, pela primeira vez, das mãos russas. A identidade do cliente estrangeiro inaugural foi mantida deliberadamente vaga. No entanto, tudo aponta para um Estado africano que, há anos, se vem aproximando deste momento.
O “Felon” da Rússia entra em cena no mercado de exportação
O Su‑57, conhecido pelo nome de código da NATO “Felon”, voou pela primeira vez em 2010 e tem sido promovido como a resposta da Rússia ao F‑22 Raptor dos EUA e ao J‑20 da China. No papel, trata-se de um verdadeiro caça de quinta geração: desenho furtivo, porões internos de armamento, radar e sensores infravermelhos avançados, além de manobrabilidade extrema.
No Dubai Airshow, em Novembro de 2025, o director da United Aircraft Corporation (UAC), Vadim Badekha, confirmou que dois Su‑57E configurados para exportação já tinham sido entregues ao estrangeiro. Para a indústria de defesa russa, sob sanções e esticada pela guerra na Ucrânia, o anúncio foi mais do que uma manobra comercial. Foi uma tábua de salvação.
Para Moscovo, colocar o Su‑57 no mercado de exportação é tanto uma questão de manter fábricas a funcionar como de projectar prestígio militar.
As fábricas aeronáuticas russas estão ocupadas a alimentar a frente ucraniana, mas fazem-no com preços domésticos fixos, cadeias de abastecimento instáveis e liquidez limitada. A moeda forte proveniente de exportações pode manter as linhas de produção a rolar e financiar o desenvolvimento adicional de sistemas de topo, como novos motores e radares.
O comprador africano para o qual todos apontam
Embora as autoridades russas se tenham recusado a identificar o cliente, os meios de defesa reduziram as hipóteses a um Estado: a Argélia. O país norte-africano tem sido, há muito, um dos clientes de armamento mais leais de Moscovo e tem procurado um caça de quinta geração há vários anos.
Argel já opera material russo avançado, desde caças Su‑30 a sistemas de defesa aérea S‑300 e S‑400. O alegado negócio do Su‑57E seria o passo lógico seguinte para um país que quer consolidar-se como potência militar de referência na margem sul do Mediterrâneo.
Segundo fontes familiarizadas com as conversas, o plano da Argélia é introduzir o avião de forma gradual. As duas aeronaves alegadamente entregues em 2025 dariam início a um reforço faseado até 2028, altura em que uma esquadra de combate completa deverá estar pronta.
A confirmar-se, a Argélia tornar-se-ia o primeiro operador do principal caça furtivo russo fora das suas fronteiras - e o primeiro Estado africano a operar um caça de quinta geração.
Um calendário de entregas com sinalização política
Fontes da indústria russa sugeriram um padrão de entregas pensado para mostrar progresso rapidamente, ao mesmo tempo que distribui a carga financeira e técnica:
- 2025: 2 aeronaves (já entregues, segundo a UAC)
- Final de 2025: mais 4 jactos
- 2026: 6 aeronaves
- 2027: 2 aeronaves finais do lote inicial
Isto daria à Argélia 14 Su‑57E, suficientes para uma esquadra de primeira linha, mais alguns aparelhos para treino e reserva. Para Moscovo, o calendário também tem um objectivo político: manter o Su‑57 visível em salões internacionais e em imagens de satélite, provando que o programa continua vivo apesar do ritmo lento de produção doméstica.
Porque é que a Argélia está a apostar no Su‑57
A força aérea argelina está num bairro concorrido. A leste, o Egipto comprou Rafale a França. A norte, jactos da NATO patrulham o Mediterrâneo a partir de bases em Espanha, França e Itália. A oeste, Marrocos tem vindo a modernizar a sua frota de F‑16.
Argel quer algo que sinalize paridade tecnológica com rivais regionais e ofereça um grau de dissuasão face ao poder aéreo da NATO. O Su‑57E, pelo menos no folheto de marketing, cumpre vários requisitos:
- desenho de baixa observabilidade e porões internos de armamento
- alta velocidade e cruzeiro supersónico sem pós-combustão
- grande capacidade de carga para mísseis stand‑off e bombas guiadas
- radar AESA moderno e sensores multiespectrais
Usado de forma inteligente, um avião deste tipo poderia dar à Argélia maior confiança para policiar o seu vasto espaço aéreo, projectar poder em profundidade no Sahel e demonstrar que qualquer incursão sobre céus norte-africanos acarreta risco real.
Alegações de desempenho: fortes no papel
Os detalhes técnicos da variante de exportação são escassos, mas os números publicamente citados traçam o retrato de um aparelho capaz, ainda que não revolucionário:
- Velocidade máxima: cerca de Mach 2
- Cruzeiro supersónico: perto de Mach 1,6 sem pós-combustão
- Raio de combate: aproximadamente 1.500–1.800 km, consoante a carga
- Carga útil: até cerca de 10 toneladas de armamento
- Opções de armamento: mísseis ar‑ar modernos, mísseis de cruzeiro e bombas guiadas de precisão
- Radar: N036 “Byelka” AESA, concebido para detecção simultânea de alvos aéreos e terrestres
Em gráficos e slides, o Su‑57E posiciona-se algures entre o F‑35 e jactos avançados não furtivos como o Rafale em termos de alcance, velocidade e capacidade de transporte de armamento.
Dúvidas sobre o principal caça furtivo russo
Por baixo da fanfarra no Dubai, persiste o cepticismo. Analistas ocidentais e até alguns comentadores russos questionaram até que ponto o Su‑57 é realmente “de quinta geração” na prática.
A produção tem sido dolorosamente lenta. A frota planeada de dezenas para a força aérea russa tem saído a conta-gotas, um ou dois de cada vez. Um motor de nova geração, conhecido como “Izdeliye 30”, continua em ensaios, pelo que muitas células voam com uma motorização interina. Há também relatos de que o nível de furtividade ao radar é menos aprofundado do que o do F‑35.
O historial de combate do aparelho é igualmente limitado. Moscovo diz que Su‑57 atacaram alvos na Síria e na Ucrânia, mas sobretudo a longa distância e longe de defesas aéreas fortes. Oficiais da inteligência ucraniana, citados em meios ocidentais, argumentam que a Rússia mantém os jactos afastados de áreas de alto risco para evitar o dano reputacional de uma perda mediática.
Desafios de exportação e riscos ocultos
Convencer compradores estrangeiros tem sido difícil. Parceiros asiáticos chegaram a considerar o programa, mas recuaram, preocupados com o risco de sanções, atrasos e desempenho incerto. Mesmo países próximos da Rússia têm, até agora, preferido esperar por uma produção mais estável antes de se comprometerem.
Para a Argélia, isso torna o Su‑57E uma escolha de alto risco. Se a furtividade do jacto for mais fraca do que o anunciado, ou se a sua pegada de manutenção for mais pesada do que o esperado, a força aérea poderá ficar presa a uma curva de aprendizagem dispendiosa com apoio limitado.
O Su‑57 oferece prestígio e potencial, mas também prende a Argélia mais firmemente a um único fornecedor que lida com sanções e pressões de guerra.
Su‑57 versus os restantes: onde ele realmente se posiciona
Comparado com outros caças de topo, o Su‑57 ocupa um terreno intermédio desconfortável. Uma comparação simplificada ajuda a ilustrar:
| Aeronave | Construtor | Abordagem de furtividade | Supercruise | Velocidade máxima | Raio de combate | Estado de exportação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Su‑57E Felon | Rússia | Parcial, baseada na forma; menos foco em revestimentos | Cerca de Mach 1,6 | Aprox. Mach 2 | Até ~1.800 km | Primeiro exportação noticiada: Argélia |
| F‑35A Lightning II | Estados Unidos | Furtividade altamente optimizada, uso intenso de revestimentos | Cerca de Mach 1,2 | Aprox. Mach 1,6 | ~1.100 km | Amplamente exportado na NATO e na Ásia |
| Rafale F4 | França | Geometria de baixa observabilidade, não classificado como furtivo | Cerca de Mach 1,4 | Aprox. Mach 1,8+ | ~1.850 km | Forte registo de exportações, incluindo no Norte de África |
| Chengdu J‑20 | China | Conceito furtivo completo, dados de combate limitados | Acredita-se que cerca de Mach 1,4 | Aprox. Mach 2 | 1.200–1.500 km (estimado) | Não exportado |
Enquanto o F‑35 aposta numa integração apertada com redes da NATO e numa forte dependência de software, o Su‑57 enfatiza cinemática e carga de armamento, com menos transparência sobre sensores e ligações de dados. Essa diferença moldará a forma como a Argélia constrói a sua doutrina futura.
O que os radares da NATO poderão revelar
Um ângulo pouco discutido é o da geografia. Ao basear Su‑57E no Norte de África, a Rússia está, na prática, a estacionar o seu activo de prestígio ao alcance de sensores ocidentais. Radares franceses, espanhóis e de outros países da NATO, com vista para o Mediterrâneo ocidental, poderão seguir os jactos durante voos de rotina e exercícios.
Com o tempo, isso poderá expor a verdadeira assinatura radar da aeronave sob diferentes ângulos e frequências. Pode ajudar a NATO a refinar tácticas contra desenhos furtivos russos, tal como a inteligência da Guerra Fria se focou em bombardeiros e interceptores soviéticos estacionados perto das fronteiras da Aliança.
Para Moscovo, é uma troca calculada: dinheiro de exportação e influência política em troca de revelar alguns segredos.
Conceitos-chave: furtividade, supercruise e dores de cabeça na exportação
Três ideias técnicas estão no centro da história do Su‑57 e moldam os riscos para a Argélia.
- Furtividade: Normalmente significa moldar a célula para desviar ondas de radar, esconder armas em porões internos e revestir a superfície com materiais absorventes de radar. A furtividade raramente torna um avião “invisível”, mas pode reduzir distâncias de detecção e complicar o seguimento.
- Supercruise: É voo supersónico sustentado sem recorrer a pós-combustores que consomem muito combustível. Permite aos caças cobrir distância rapidamente mantendo reservas para combate e reduz as plumas infravermelhas que os tornam mais fáceis de detectar.
- Logística de exportação: Comprar o jacto é apenas o início. Manter uma pequena frota de caças complexos operacional exige peças sobresselentes, suporte de software, revisões de motor e formação especializada. Sanções ou atrito político podem estrangular rapidamente esses fluxos.
Se a economia russa sofrer maior pressão, ou se o acesso a componentes importados se restringir, o apoio a clientes do Su‑57 poderá abrandar. A Argélia precisará de planos de contingência: acumular sobresselentes críticos, criar capacidade local de manutenção e diversificar ferramentas de treino e simulação.
Há ainda a questão de como o Su‑57E se encaixa nos sistemas argelinos existentes. Integrar as suas ligações de dados com aeronaves russas mais antigas, radares terrestres e baterias de defesa aérea exigirá tempo e dinheiro. No curto prazo, os novos jactos poderão voar como pontas de lança de elite, algo isoladas, em vez de elementos perfeitamente integrados numa rede de combate aéreo.
Por outro lado, o acordo dá à Argélia margem de manobra. Poucos Estados africanos - e não muitos a nível global - conseguem operar um caça rotulado como de quinta geração. Esse estatuto pode traduzir-se em influência em crises regionais, coligações de policiamento aéreo e mesas de negociação de armamento, sobretudo à medida que outros países ponderam opções entre projectos ocidentais, russos e emergentes asiáticos.
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