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A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam milhões de toneladas de areia por ano, apesar de estarem localizados em enormes desertos.

Trabalhador em capacete examina grãos num monte de areia, com navio ao fundo durante o pôr do sol.

O vento bate como um secador de cabelo quando a porta do camião se abre nos arredores do Dubai. O calor treme no asfalto, as gruas enchem o céu, e o deserto parece interminável. À primeira vista, areia é precisamente o recurso que aqui nunca poderia faltar.

Depois olha-se para o cais: navios a descarregar areia clara, quase sedosa - importada, pesada, comprada à tonelada. No meio de um deserto. É aqui que o “paradoxo” começa.

Porque é que os reinos do deserto têm fome de areia estrangeira

A ideia parece absurda, mas é sobretudo técnica. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam milhões de toneladas de areia porque nem toda a areia serve para construir.

Para betão e fundações, a areia tem de cumprir requisitos que, na Europa, também são controlados por normas (granulometria, teor de finos/argilas, sais, consistência). Em termos simples:

  • A areia “boa” para betão tende a ter grãos mais angulares e rugosos, que se “agarram” melhor à pasta de cimento.
  • A areia de duna é muito arredondada e uniforme (polida pelo vento) e pode reduzir a aderência e a resistência, além de dificultar a compactação em alguns usos.

Um exemplo famoso é a Palm Jumeirah, no Dubai. Para criar ilhas e aterros, os engenheiros precisam de material que compacte bem e não “fuja” com as correntes. Por isso recorrem a dragagens e, em alguns casos, a importações. A mesma lógica aparece em aeroportos, frentes marítimas no Mar Vermelho e projetos gigantes como a NEOM: o deserto está ali, mas o tipo certo de areia (ou de “inertes”) nem sempre.

Há ainda uma nuance pouco dita: areia marítima não é automaticamente solução, porque pode trazer sal. Para betão armado, cloretos são um risco de corrosão das armaduras, o que implica lavagem/controlo - e isso aumenta custo, tempo e consumo de água. Ou seja: a “areia certa” é uma combinação de geologia, especificações e logística, não apenas de abundância.

No fim, o paradoxo resume-se a física e dinheiro: o betão é, em grande parte, agregados (areia e brita). Quando a construção acelera, a procura explode - e a cadeia de fornecimento segue o material que passa nos ensaios e chega a tempo.

A indústria escondida por trás da areia “vulgar”

Uma tonelada de areia parece banal, mas a indústria por trás é tudo menos simples. Antes de chegar a uma obra, há amostragens, ensaios (granulometria, finos, matéria orgânica, sais), contratos e planeamento portuário. E há escala: um arranha-céus, um porto ou uma expansão aeroportuária consomem volumes que rapidamente deixam qualquer pedreira “normal” sob pressão.

A extração costuma seguir dois caminhos:

  • Dragagem (rios, estuários, fundos marinhos): rápida e de grande volume, mas com impacto direto em leitos, turbidez, habitats e dinâmica costeira.
  • Pedreiras e britagem: produzem areias “fabricadas” (de rocha britada) com boa angularidade, mas exigem energia, controlo de pó e ajuste de granulometria para trabalhar bem no betão.

Este comércio global tem um lado invisível: comunidades longe do Golfo podem ficar com a erosão, a perda de praias, a instabilidade de margens de rios e a degradação de ecossistemas. Quem compra vê “areia”; quem vive perto do local de extração muitas vezes vê o território a mudar.

E quando a procura é alta, cresce a margem para abuso. Em algumas regiões, a mineração ilegal prospera: dragagens noturnas, extração em áreas protegidas, areia “misturada” sem controlo. A areia deixa de ser apenas um material: vira um mercado com conflitos e pontos cegos.

O que este paradoxo do deserto nos diz sobre o nosso futuro

Esta história é um lembrete desconfortável: as cidades dependem de materiais discretos. Betão, vidro, asfalto e aterros têm uma base comum - agregados. Depois de reparar nisto, começa a ver a ligação entre uma praia, uma pedreira e uma torre de vidro.

Há também um risco de dependência. Se países literalmente assentes em areia precisam de importar para cumprir especificações e prazos, isso diz algo sobre o resto do mundo: há reconstruções, crescimento urbano, obras costeiras e adaptação a cheias e subida do nível do mar. A pressão não é só do Golfo - é global.

“A areia é para as cidades o que a farinha é para o pão. Só se dá conta de que está a acabar quando já é quase tarde demais.”

Algumas tendências que ajudam a ler o que vem a seguir (com realismo, sem magia):

  • Mega-projetos reorientam rotas e preços: quem tem portos e logística ganha vantagem.
  • O custo ambiental aparece longe do consumidor final e é fácil de ignorar.
  • Reduzir procura passa por escolhas chatas mas eficazes: mais reciclagem de betão, mais rocha britada, e projetos que usem menos volume (p. ex., otimização estrutural).
  • Regulamentar é possível, fiscalizar é o difícil - sobretudo quando o mercado recompensa a velocidade.

Uma história do deserto que não cabe no postal

Num estaleiro em Riade ou no Dubai, o ar cheira a cimento, gasóleo e sal. No meio dessa mistura pode haver areia que saiu de um delta, de uma costa distante ou do fundo do mar. A ideia do “deserto infinito” é verdadeira como paisagem - mas enganadora como cadeia de abastecimento.

Isto não significa que as cidades tenham de parar. Significa que o desafio é construir sem deslocar o impacto, grão a grão, para outros sítios. Na prática, as alternativas existem, mas têm trade-offs:

  • Areia de rocha britada: boa aderência e controlo industrial, mas pode exigir ajuste para manter trabalhabilidade do betão.
  • Agregados reciclados (betão demolido): reduzem extração, mas pedem triagem, controlo de contaminantes e nem sempre servem para usos estruturais exigentes.
  • Menos aterro, mais desenho eficiente: por vezes a maior poupança vem do projeto (espessuras, fundações, soluções modulares), não do “material milagroso”.

Alguns projetos no Golfo já falam em construção circular e agregados alternativos. O teste real é a escala: quando a obra é gigantesca, pequenas melhorias percentuais valem milhões de toneladas - mas exigem logística, normas claras e controlo de qualidade.

No fim, a história de importarem areia não é só sobre a Arábia Saudita e os EAU. É sobre como as nossas infraestruturas dependem de recursos “baratos” que afinal têm limites, impactos e geopolítica. Da próxima vez que passar por uma obra (em Portugal incluído), vale a pena lembrar: o betão e o vidro começam muito antes do estaleiro - começam na origem dos inertes.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A areia do deserto não é “suficientemente boa” Grãos polidos pelo vento tendem a ser demasiado redondos e uniformes para cumprir desempenho e controlo de qualidade no betão Explica porque países ricos em areia continuam a depender de outras origens
O comércio global de areia tem consequências reais Dragagem e extração podem acelerar erosão, degradar habitats e criar conflitos locais quando mal geridas Mostra o custo escondido por trás de projetos icónicos
Estão a surgir alternativas Rocha britada, betão reciclado e projeto mais eficiente reduzem parte da procura - mas exigem controlo e escala Dá caminhos práticos, com limites e compromissos

FAQ:

  • Porque é que a Arábia Saudita e os EAU importam areia se têm desertos? Porque a areia de duna, muitas vezes, é demasiado arredondada e uniforme para cumprir requisitos de desempenho no betão e em certos aterros; procura-se areia/“inertes” com granulometria e forma de grão adequadas, e com controlo de finos e sais.
  • Que tipo de areia importam? Areias para construção e aterro vindas de dragagens, leitos de rios e pedreiras (incluindo areia de rocha britada), escolhidas por granulometria, limpeza e comportamento em obra.
  • Quanta areia é que estes países usam? Os valores variam, mas em anos de forte construção o consumo pode chegar a dezenas de milhões de toneladas, somando betão, infraestruturas e aterros/reconquista de terrenos.
  • A extração de areia está a prejudicar o ambiente? Em muitos casos, sim: pode agravar erosão, alterar rios e afetar ecossistemas, sobretudo quando a extração é mal planeada ou fiscalizada.
  • Há alternativas sustentáveis à areia natural? Há opções viáveis - rocha britada, betão reciclado e soluções de projeto que usem menos volume - mas exigem controlo de qualidade, logística e, muitas vezes, mais processamento.

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