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Damocles, OWE, VSR700…: drones estão a entrar em força nas Forças Armadas francesas – e não só.

Helicóptero em porta-aviões com técnico verificando. Tablet com mapa mostra localização. Mar ao fundo.

From munições errantes na linha da frente a aeronaves de asas rotativas lançadas a partir de navios, Paris está a acelerar uma aposta há muito adiada em sistemas não tripulados, ao mesmo tempo que observa conflitos estrangeiros transformarem pequenos drones em ferramentas capazes de decidir guerras.

A chegada tardia de França aos drones de combate

Durante anos, as Forças Armadas francesas ficaram para trás no que toca a drones de ataque de baixo custo e munições operadas remotamente. Os orçamentos foram canalizados para caças de alto desempenho, veículos blindados e forças nucleares. Em paralelo, países da Turquia ao Irão produziram em massa drones simples e descartáveis, capazes de saturar defesas pelo mero efeito do volume.

As guerras em Nagorno‑Karabakh e na Ucrânia expuseram esta lacuna de forma dura. Vídeos de quadricópteros baratos a largarem granadas em escotilhas de carros de combate, ou de munições errantes a embaterem em peças de artilharia, circularam entre oficiais franceses e deputados. A mensagem foi direta: sem enxames de drones, os exércitos profissionais ao estilo ocidental arriscam ficar em inferioridade numérica e sob vigilância constante.

Os planeadores franceses encaram agora os drones menos como gadgets e mais como munições básicas, a comprar aos milhares, não às dezenas.

Esta mudança desencadeou uma vaga de programas em torno de três famílias centrais: munições operadas remotamente como o Damocles, drones suicidas como o OWE encomendado ao gigante dos mísseis MBDA, e plataformas aéreas e navais maiores, incluindo o helicóptero‑drone VSR700 para a Marinha francesa.

Damocles e OWE: armas errantes para campos de batalha saturados

Damocles, um projétil guiado que pensa como um drone

O programa Damocles, liderado por intervenientes da indústria francesa incluindo a Delair e a KNDS, centra‑se em “munições teleoperadas” - projéteis guiados que podem ser pilotados ou supervisionados em voo. Estas munições esbatem a fronteira entre um pequeno drone e uma granada inteligente.

Os sistemas Damocles foram concebidos para permanecerem em espera sobre uma área‑alvo, enviarem vídeo e, depois, atacarem sob comando. Os operadores podem cancelar um ataque se surgirem civis, redirecionar a munição ou coordenar com equipas de artilharia e de guerra eletrónica.

  • Lançamento: disparo a partir de lançadores terrestres ou de veículos adaptados
  • Guiamento: sensores eletro‑ópticos, ligação de dados a um operador humano
  • Emprego: supressão de defesas antiaéreas inimigas, contra‑bateria de artilharia, ataque a alvos em movimento

Para França, o Damocles pretende oferecer às unidades de infantaria e artilharia uma opção de ataque de precisão muito mais barata do que um míssil de cruzeiro e mais rápida do que solicitar apoio de caças.

Drones suicidas OWE da MBDA

A par do Damocles, o Ministério da Defesa encomendou o OWE, uma família de drones “suicidas” ou “kamikaze”. A MBDA, mais conhecida por mísseis como o Meteor e o Exocet, encara agora estas pequenas aeronaves descartáveis como uma nova categoria de míssil: barata, autónoma e em rede.

Os drones OWE foram concebidos para serem lançados em número. Voam rotas pré‑programadas, procuram emissões ou silhuetas e, depois, mergulham sobre o alvo designado. Os operadores humanos mantêm poder de veto, mas o sistema está otimizado para velocidade e saturação.

Num combate de alta intensidade, uma dúzia de drones OWE a atacar de ângulos diferentes pode afogar uma única bateria de defesa antiaérea em alvos e forçá‑la a revelar a sua posição.

Este tipo de “efeito pela massa” é precisamente o que as forças francesas antes não tinham, quando comparadas com operações turcas com Bayraktar na Líbia ou com o uso russo e ucraniano de drones do tipo Lancet e Shahed.

VSR700 e drones navais: a Marinha francesa recupera terreno

Um helicóptero‑drone para fragatas e futuros porta‑aviões

No domínio marítimo, o maior símbolo desta mudança é o VSR700, um helicóptero‑drone compacto desenvolvido pela Airbus e pela Naval Group. Baseado num helicóptero civil ligeiro, foi adaptado para descolar e aterrar em fragatas, transportando radar, câmaras e, potencialmente, armamento.

O VSR700 pretende estender os olhos e os ouvidos dos navios de superfície muito para lá do horizonte. Pode patrulhar à procura de submarinos, vigiar embarcações pequenas em águas congestionadas ou retransmitir dados para outros meios. Para uma marinha com tripulações limitadas e elevado ritmo operacional, veículos aéreos não tripulados oferecem cobertura adicional sem acrescentar marinheiros.

Tipo de drone Função principal Programa francês
Munição errante Ataque de precisão, descartável Damocles, OWE
UAV helicóptero embarcado Reconhecimento, apoio à guerra antissubmarina VSR700
UAV tático de asa fixa Vigilância de maior alcance Patroller e sucessores

Integração nos conveses e na doutrina

Encomendar um drone naval é uma coisa; transformá‑lo numa ferramenta diária a bordo é outra. Contratos franceses recentes não compram apenas células; financiam também modificações de hangar, equipamento de manuseamento no convés, ligações de dados e simuladores de treino.

Os comandantes têm de decidir quem “detém” o drone num navio: o oficial de armas, o departamento de aviação ou uma nova célula dedicada. Regras sobre quando um drone pode aproximar‑se de outras embarcações, ou voar sobre rotas marítimas muito movimentadas, têm de ser escritas e testadas.

Para a Marinha francesa, o VSR700 é tanto uma experiência humana e de procedimentos como tecnológica.

Aceleração industrial e contexto europeu

De demonstradores a linhas de produção

A indústria francesa passou a década de 2010 a exibir protótipos impressionantes em salões de defesa, mas teve dificuldade em passar para além de pequenas séries. A nova vaga de contratos procura mudar isso, garantindo volumes e financiamento plurianual.

Parcerias entre grandes contratantes e empresas mais pequenas visam encurtar ciclos de desenvolvimento. Alguns subsistemas - baterias, óticas, estruturas - são partilhados entre famílias de drones para reduzir custos. O objetivo é repor stocks rapidamente durante uma crise, em vez de esperar anos por sistemas feitos à medida.

Em paralelo, o Ministério da Defesa está a incentivar tecnologias de duplo uso. Componentes de drones civis, de controladores de voo a câmaras, estão a ser adaptados a necessidades militares. Isto mantém preços relativamente baixos e aproveita uma base industrial já existente.

Uma mudança europeia mais ampla

A França não está sozinha. A Alemanha, a Itália, a Polónia e o Reino Unido estão todos a comprar munições errantes e pequenos drones de reconhecimento em escala. Fundos da União Europeia apoiam projetos conjuntos, embora as especificidades nacionais continuem fortes.

Responsáveis franceses veem um risco: se a indústria nacional não conseguir entregar com rapidez, os exércitos recorrerão a fornecedores israelitas, turcos ou norte‑americanos. Os programas Damocles e OWE são, por isso, também sinais políticos de que Paris pretende capacidade soberana neste domínio.

Como estes drones podem mudar as operações francesas

Em terra: de patrulhas no Sahel a combate de alta intensidade

Em operações no estrangeiro, como as realizadas no Sahel, as tropas francesas necessitavam frequentemente de apoio aéreo em áreas remotas. Drones MALE maiores, como o MQ‑9 Reaper, ajudaram, mas os tempos de resposta continuavam a depender do tempo, da distância e da escassez de meios.

Com munições do tipo Damocles, um pelotão poderia transportar o seu próprio poder de fogo aéreo em veículos ou mochilas. Um comboio emboscado poderia lançar rapidamente uma munição errante para atingir um morteiro inimigo, em vez de esperar por caças.

Num hipotético conflito da NATO na Europa de Leste, a mesma tecnologia serviria objetivos diferentes: caçar artilharia, radares e logística inimigos. As unidades francesas teriam de proteger as suas próprias assinaturas, sabendo que o adversário também dispõe de sistemas errantes.

No mar e no ar: deteção mais densa, mais dados

Comandantes navais falam cada vez mais em “deteção distribuída” - espalhar drones baratos em torno de uma força‑tarefa para detetar ameaças mais cedo. O VSR700 e drones menores lançados a partir de navios alimentam este conceito. Os seus dados fluem para sistemas de gestão de combate já sobrecarregados com radar, sonar e feeds de satélite.

O desafio passa da falta de informação para o excesso. Os oficiais têm de confiar em filtros de inteligência artificial e em ferramentas de fusão de dados para destacar o que importa e suprimir falsos alarmes.

O verdadeiro gargalo poderá não ser o número de drones que a França mobiliza, mas o número de operadores e analistas treinados por trás deles.

Termos‑chave e riscos por trás do jargão

O que “munição errante” significa realmente

O termo “munição errante” descreve um híbrido entre míssil e drone. Ao contrário de um míssil que segue um trajeto fixo para um alvo fixo, uma munição errante pode orbitar sobre uma área, procurar e depois atacar. Depois do impacto, é destruída.

Isto difere de um drone reutilizável que lança bombas e regressa à base. Os modelos errantes são otimizados para custo, simplicidade e missão unidirecional. Os operadores acompanham um feed de vídeo em direto, escolhem um alvo e aprovam o ataque.

Questões éticas e riscos no campo de batalha

À medida que as forças francesas adotam sistemas mais autónomos e semi‑autónomos, intensificam‑se as questões éticas e legais. Decisores políticos insistem em “controlo humano significativo” sobre decisões letais, mas a pressão para reagir em segundos irá aumentar.

A Ucrânia mostrou como pequenos drones podem chegar rapidamente a cidades, centrais elétricas e veículos civis. Mesmo com regras no papel, quando a tecnologia se difunde, grupos não estatais, empresas mercenárias e forças por procuração podem usar dispositivos semelhantes.

Há também um risco tático simples: dependência excessiva. Um exército que assume que os drones fornecerão sempre inteligência perfeita pode negligenciar camuflagem, engano e técnicas básicas de terreno. Se ligações por satélite forem bloqueadas por interferência ou se linhas de abastecimento secarem, as unidades têm de continuar a combater com tecnologia mínima.

Para os planeadores franceses, a chegada de Damocles, OWE e VSR700 é menos um ponto de chegada do que um tiro de partida. Programas de treino, enquadramentos legais, políticas de exportação e alianças terão todos de se adaptar a um campo de batalha onde pequenas máquinas zumbidoras já não são uma novidade, mas uma presença constante.

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