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Sentir-se emocionalmente fechado, mesmo com pessoas próximas, tem origem psicológica.

Duas pessoas sentadas à mesa, uma segurando caneca e outra com prato de laranjas. Um caderno aberto e caneta na mesa.

A mesa do jantar está cheia, as piadas são boas, e os teus amigos falam de feridas de infância como se estivessem a partilhar receitas. Alguém se vira para ti e faz uma pergunta simples: “E tu, como te sentes em relação a isso?” Sorris, talvez encolhas os ombros, dás uma resposta leve. Uma frase que soa suficientemente honesta para passar. Por dentro, no entanto, sentes a porta a bater com força.

Por fora, pareces calmo(a). Por dentro, estás a verificar fechaduras em portas invisíveis.

Mais tarde, a caminho de casa, repetes a cena na cabeça e perguntas-te porque é que ainda te sentes estranhamente sozinho(a) à volta de pessoas em quem confias.

A distância entre quem és e o que mostras pode tornar-se exaustiva.

Onde é que essa parede invisível começa, afinal?

Porque é que te sentes “fechado(a)” mesmo com as tuas pessoas favoritas

Há um desconforto específico que aparece quando as conversas ficam mesmo a tocar no osso. O teu corpo sabe-o antes do teu cérebro. Os ombros tensam um pouco. Mudas de assunto, fazes uma piada, ou fazes uma pergunta à outra pessoa para desviares o foco de ti.

À superfície, parece apenas ser reservado(a) ou privado(a). Por dentro, é mais parecido com um sistema de alarme silencioso a disparar.

Podes até admirar amigos que falam com facilidade sobre os seus medos, a sua terapia, os seus dias maus. Não os julgas. Só não sabes bem como é que eles conseguem fazê-lo sem se sentirem expostos, como andar na rua sem pele.

Imagina a Leila, 32 anos, sentada numa varanda com a sua melhor amiga há dez anos. Estão a falar de relações. A amiga partilha um término confuso, com lágrimas e tudo, sem hesitar. Depois pergunta à Leila: “E tu? O que é que te assusta mais no amor?”

A Leila sente a garganta a apertar. Diz algo engraçado sobre ser “péssima a responder a mensagens” e ri-se. A amiga ri-se também e o momento passa. Nada de dramático acontece, ninguém discute, nenhuma porta bate.

Mas quando a Leila volta para dentro, sente-se estranhamente vazia. Ela queria dizer: “Tenho pavor de que vocês todos se vão embora se virem o quanto eu posso ser carente.” A frase nunca saiu do peito.

Essa distância entre o monólogo interior e o comportamento exterior tem muitas vezes uma origem psicológica. O nosso sistema nervoso tende a guardar o que, em tempos, nos manteve seguros. Se, em criança, mostrar sentimentos era recebido com gozo, silêncio ou caos, o teu cérebro aprendeu uma regra simples: emoção = perigo.

Então o teu corpo constrói uma estratégia de proteção: manter-se vago(a), manter-se leve, manter-se “bem”.

O resguardo emocional raramente tem a ver com não te importares; tem a ver com te importares tanto que o risco parece insuportável.

Não estás estragado(a) nem és frio(a). Estás a correr um programa antigo de sobrevivência que, em tempos, fez todo o sentido.

O que está realmente a acontecer no teu cérebro e como o destrancar com suavidade

Um método simples para começares a afrouxar a armadura é acompanhar os teus “micro-congelamentos”. Não os grandes bloqueios óbvios, mas os pequenos momentos em que desligas. Podes fazer isto com uma nota no telemóvel.

Cada vez que deres por ti a mudar de assunto, a dizer um “estou bem” falso, ou a rir-te para despachar uma pergunta séria, escreve:

1) Com quem estavas
2) Sobre o que se estava a falar
3) O que sentiste por uma fração de segundo antes de fechares

Isto não é para te julgares. É para mapear onde é que a parede está, de facto.

Um erro comum é tentar “abrir-se” de uma vez, como arrancar um penso rápido. Isso costuma correr mal. Partilhas demais, sentes-te exposto(a) e, da próxima vez, o teu sistema reforça as fechaduras.

Uma abordagem mais suave é praticares 10% mais honestidade do que o habitual. Se costumas dizer “estou bem”, experimenta: “Estou ok, um bocado cansado(a) mentalmente, mas ok.” Se normalmente não dizes nada, tenta uma frase.

Sê gentil com a parte de ti que aprendeu a proteger-se. Essa parte não apareceu do nada. Provavelmente ajudou-te a atravessar anos bem difíceis. Não és fraco(a) por precisares de armadura. Estás apenas a ultrapassar o modelo antigo.

Já todos passámos por isso: aquele momento em que alguém finalmente pergunta como nós estamos a sério, e a resposta mais honesta que conseguimos dar é: “Ainda não sei como dizer, mas não é nada.”

  • Muda de “tudo ou nada” para “só um bocadinho mais”
    Tenta acrescentar um único detalhe honesto às tuas respostas habituais, em vez de contares a tua história de vida inteira.
  • Deixa o teu corpo falar primeiro
    Repara na mandíbula apertada, na respiração curta, na vontade de pegar no telemóvel e fazer scroll. Estes são alarmes iniciais, não sinais de que tens de ficar em silêncio para sempre.
  • Escolhe uma “pessoa segura” para experimentares
    Não o grupo inteiro no chat. Uma pessoa, um momento, uma frase um pouco mais vulnerável.
  • Lembra-te da verdade simples
    Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias. A abertura emocional vem em ondas, e isso está bem.
  • Normaliza o ritmo lento
    Tens direito a passar do confinamento emocional para uma abertura suave ao teu ritmo - não ao ritmo das redes sociais.

Viver com um coração que se abre devagar

Quando começas a notar os teus padrões, pode acontecer algo inesperado: sentes menos culpa por eles. A parede não desaparece de um dia para o outro, mas deixa de parecer prova de que há algo de errado contigo. Torna-se aquilo que sempre foi: uma estratégia.

Podes perceber que não és “mau(a) na intimidade” - és, isso sim, extremamente experiente em auto-proteção. Isso muda o teu tom interior. Deixas de te chamar frio(a) e começas a perguntar: “O que é que te assustou naquela altura?”

A partir daí, as conversas mudam. Podes dizer a um amigo: “Quero ser mais honesto(a), mas bloqueio muitas vezes.” Só essa frase já é uma forma de intimidade. Nomeia a guarda sem te obrigar a largá-la.

Viver com resguardo emocional não significa que estás condenado(a) a uma distância permanente. Significa que o teu sistema nervoso precisa de provas - repetidas e gentis - de que algumas pessoas conseguem acolher a tua verdade sem te punirem por ela.

Ainda vais desviar perguntas em alguns dias. Ainda vais sair de encontros a sentir que não apareceste por inteiro. Isso faz parte do processo. A parede esteve lá durante anos; não vai cair só porque leste alguns textos ou escreveste num diário uma vez.

O verdadeiro ponto de viragem muitas vezes acontece quando respeitas os dois lados dentro de ti: o que anseia por proximidade e o que ainda verifica as fechaduras duas vezes antes de deixar alguém entrar.

Há uma coragem silenciosa em ser alguém que se abre devagar. Pode nunca parecer dramático por fora. Sem grandes discursos, sem confissões virais. Apenas frases um pouco mais verdadeiras, uma conversa de cada vez.

Podes notar que as tuas melhores ligações não vêm de uma vulnerabilidade perfeita, mas de hesitações partilhadas. Duas pessoas, ambas um pouco desajeitadas com os sentimentos, a tentar na mesma.

Algumas histórias vão ficar atrás das tuas costelas - e isso é teu direito. Algumas vão atravessar o limiar e cair nas mãos de outra pessoa - e isso vai saber a expirar depois de anos a prender a respiração. O trabalho não é rasgar o coração, mas deixar de confundir auto-apagamento com segurança.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O resguardo emocional tem raízes Muitas vezes ligado a experiências passadas em que mostrar sentimentos parecia perigoso ou inútil Reduz a auto-culpa e reformula a “frieza” como uma proteção aprendida
Pequenas doses de honestidade vencem grandes revelações Praticar 10% mais verdade nas respostas do dia a dia em vez de partilhas dramáticas em excesso Torna a mudança mais possível e menos avassaladora para sistemas sensíveis
Consciência antes da ação Acompanhar micro-congelamentos e sinais do corpo durante conversas Dá uma perceção prática de quando e porquê a parede se levanta

FAQ:

  • Pergunta 1 Ser emocionalmente resguardado(a) significa que tenho uma perturbação de vinculação?
  • Pergunta 2 Porque é que me abro mais com desconhecidos do que com pessoas que amo?
  • Pergunta 3 A terapia pode mesmo mudar este padrão, ou isto é simplesmente quem eu sou?
  • Pergunta 4 Como explico as minhas paredes emocionais a um(a) parceiro(a) sem o(a) assustar?
  • Pergunta 5 E se eu tentar abrir-me e as pessoas continuarem sem perceber?

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