O Reino Unido assumiu formalmente o controlo do seu primeiro submarino não tripulado extra‑grande, o XV Excalibur, assinalando um passo importante rumo a operações robóticas sob as ondas e indicando como missões futuras poderão ser realizadas sem um único marinheiro a bordo.
Excalibur: o primeiro submarino não tripulado extra‑grande do Reino Unido
O XV Excalibur é um submarino autónomo experimental desenvolvido no âmbito do Project Cetus, do Ministério da Defesa do Reino Unido. Com 12 metros de comprimento e 19 toneladas de deslocamento, é a maior embarcação subaquática não tripulada alguma vez testada pela Marinha Real.
O Excalibur é um veículo subaquático não tripulado extra‑grande, concebido para operar sem tripulação, transportar cargas militares e levar ao limite a autonomia subaquática.
A embarcação foi construída em menos de três anos pela MSubs Ltd, um fabricante especializado de submarinos sediado em Plymouth, em colaboração com a Submarine Delivery Agency (SDA). A Marinha Real patrocinou o projeto como uma plataforma de testes para futuras missões de combate e vigilância.
Em vez de entrar de imediato ao serviço na linha da frente, o Excalibur será utilizado para ensaiar novos sensores, comunicações, sistemas de navegação e cargas úteis que, mais tarde, poderão ser instalados noutras plataformas não tripuladas ou até integrados com submarinos de propulsão nuclear.
Factos principais sobre o XV Excalibur
- Comprimento: 12 metros
- Deslocamento: 19 toneladas
- Tipo: Veículo Subaquático Não Tripulado Extra‑Grande (XLUUV)
- Função: Plataforma experimental de testes para operações subaquáticas autónomas
- Programa: Project Cetus, liderado pela Submarine Delivery Agency do Reino Unido
- Principal parceiro industrial: MSubs Ltd
Da cerimónia em Devonport à entrega à Marinha Real
A história pública do Excalibur começou em maio de 2025, quando a embarcação foi oficialmente batizada e apresentada durante uma cerimónia na Base Naval de Sua Majestade em Devonport. O evento sinalizou que o projeto passou da fase de conceção e construção para testes no mundo real.
Após a cerimónia, o submarino completou uma série de ensaios de aceitação, verificando desde a propulsão e autonomia até à forma como os seus sistemas de controlo autónomo lidavam com condições reais de mar. Segundo a SDA, a embarcação já ultrapassou várias metas iniciais de projeto.
Em dezembro de 2025, a SDA confirmou que o Excalibur tinha sido formalmente entregue à Marinha Real. A transferência marca a passagem do desenvolvimento para uma fase focada de testes e avaliação liderada por operadores navais, com apoio de engenharia contínuo da Unidade de Autonomia da SDA.
A entrega transfere o Excalibur de um projeto de desenvolvimento para um ativo operacional de testes, controlado por equipas da Marinha Real a operar a partir de terra.
Nos dois anos seguintes, o submarino será sujeito a extensos ensaios no mar, destinados a compreender como uma grande plataforma não tripulada pode ser integrada, de forma segura, fiável e útil, na atividade naval do dia a dia.
Controlar um submarino britânico a partir da Austrália
Um dos feitos iniciais mais marcantes do Excalibur ocorreu durante o Exercício Talisman Sabre, em agosto de 2025. A Marinha Real controlou remotamente a embarcação em águas do Reino Unido a partir de um centro de comando localizado na Austrália, a mais de 10 000 milhas do seu porto‑base em Plymouth.
O exercício integrou o AUKUS Pillar 2, o ramo de “capacidades avançadas” da parceria de defesa entre o Reino Unido, a Austrália e os Estados Unidos. Na prática, o teste demonstrou que submarinos não tripulados extra‑grandes de diferentes aliados podem ser tratados como uma força integrada única, mesmo quando dirigidos a partir de outro continente.
Porque o controlo a longa distância é importante
- Risco reduzido: os operadores podem gerir missões a partir de instalações seguras em terra, em vez de estarem no mar.
- Controlo partilhado: marinhas aliadas podem transferir entre si responsabilidades de missão e monitorização, através de fusos horários.
- Basing flexível: os submarinos podem operar longe dos seus portos‑base sem necessidade de navios tripulados a acompanhar.
Este tipo de controlo distribuído deverá tornar‑se uma característica central da guerra subaquática futura, na qual uma combinação de sistemas tripulados e não tripulados terá de ser coordenada a grandes distâncias e em ambientes contestados.
Ensaio de relógio quântico: manter o tempo debaixo do mar
O Excalibur também acolheu um teste pioneiro mundial em tecnologia de navegação. O submarino saiu para o mar transportando um relógio atómico ótico quântico “Tiqker”, construído pela empresa britânica Infleqtion, especializada em tecnologias quânticas.
Os submarinos dependem tradicionalmente de relógios altamente estáveis e de sistemas de navegação inercial para acompanhar a posição depois de submergirem. Não podem depender totalmente de sinais GPS, que são fracos ou indisponíveis debaixo de água. Os relógios atómicos convencionais de micro‑ondas são precisos, mas ainda assim derivam com o tempo.
O relógio quântico Tiqker pretende reduzir a deriva temporal, melhorando a precisão da navegação e permitindo que os submarinos permaneçam discretos durante mais tempo sem sinais externos.
Ao usar efeitos quânticos para medir o tempo com maior precisão, o dispositivo Tiqker foi concebido para afinar os cálculos de navegação e reduzir a necessidade de emergir ou elevar mastros para atualizações. Para uma plataforma furtiva, menos passagens à profundidade de periscópio traduzem‑se diretamente em menores probabilidades de deteção.
O ensaio foi concluído cerca de seis meses antes do previsto, um sinal de quão rapidamente a Unidade de Autonomia e os seus parceiros procuram levar novos conceitos do laboratório para o mar.
O que o Excalibur significa para a futura frota da Marinha Real
O Excalibur não substituirá os submarinos de ataque de propulsão nuclear nem os submarinos de mísseis balísticos da Marinha Real. Em vez disso, os responsáveis vêem‑no como um “desbravador” para um futuro em que plataformas tripuladas e não tripuladas trabalham lado a lado.
| Tripulação a bordo? | Funções típicas | Principais vantagens |
|---|---|---|
| Submarinos tripulados | Dissuasão, operações complexas, decisões com juízo humano | Flexibilidade, experiência, capacidade de reagir à incerteza |
| Veículos não tripulados como o Excalibur | Patrulhas de longa duração, recolha de dados, missões de maior risco | Menor risco para o pessoal, potencialmente menor custo, presença persistente |
Em cenários futuros, um submarino não tripulado poderá ser enviado à frente de um submarino tripulado para reconhecer áreas perigosas, instalar sensores ou testar defesas inimigas. Poderá também atuar como retransmissor de comunicações, ampliando o alcance de submarinos tripulados a operar em ambientes profundos ou congestionados.
A SDA defende que o sucesso com o Excalibur ajudará a consolidar a posição do Reino Unido como líder em autonomia subaquática, numa altura em que várias nações competem para implementar sistemas semelhantes em mares contestados.
Dentro da Unidade de Autonomia da SDA
A Unidade de Autonomia da Submarine Delivery Agency está no centro deste esforço. A equipa reúne engenheiros e especialistas focados em plataformas capazes de operar com intervenção humana limitada ou inexistente.
No caso do Excalibur, a unidade supervisionou a integração do software de controlo, sensores e sistemas de energia e, agora, trabalhará em estreita colaboração com operadores da Marinha Real durante a fase de ensaios. O objetivo é transformar autonomia experimental em algo em que os comandantes possam confiar em missões reais.
Autonomia aqui não significa um submarino a agir completamente sozinho; significa que a embarcação pode executar tarefas com supervisão mínima, enquanto os humanos mantêm a autoridade sobre decisões‑chave.
Esse equilíbrio entre iniciativa da máquina e controlo humano deverá moldar debates sobre política de defesa, direito dos conflitos armados e treino naval nos próximos anos.
Riscos, benefícios e o que a autonomia realmente significa no mar
Os submarinos autónomos trazem benefícios claros, mas também levantam novas questões. A fiabilidade torna‑se crítica quando não há tripulação a bordo para reparar avarias ou improvisar soluções. A cibersegurança passa para o centro do palco, já que ligações de controlo e sistemas de bordo têm de resistir a tentativas de intrusão e interferência eletrónica.
Por outro lado, a capacidade de enviar uma grande embarcação não tripulada para campos de minas, águas hostis ou estreitos apertados sem arriscar vidas de marinheiros é uma forte vantagem. Os ensaios do Excalibur ajudarão a perceber onde esse compromisso faz sentido e onde as tripulações continuam a ser vitais.
Para leitores menos familiarizados com o jargão, um “veículo subaquático não tripulado extra‑grande” situa‑se no extremo superior da escala de drones. Robôs menores, frequentemente chamados AUVs (veículos subaquáticos autónomos), podem ser usados em tarefas como mapeamento do fundo do mar ou inspeção de oleodutos. Os XLUUVs aproximam‑se, em tamanho e autonomia, de mini‑submarinos, com espaço para cargas úteis mais sofisticadas e missões mais longas.
Cenários já discutidos dentro das marinhas incluem submarinos não tripulados a acompanhar grupos de porta‑aviões, a instalar discretamente redes de sensores ao longo de rotas marítimas-chave, ou a atuar como engodos para confundir forças hostis. Exercícios com aliados como a Austrália dão ao Reino Unido a oportunidade de testar estas ideias em condições realistas, muito antes de serem necessárias no mundo real.
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