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Poderá esta nova fragata sul-coreana de alta tecnologia competir realmente com a aclamada FDI francesa?

Dois navios de guerra cinzentos a navegar em mar aberto, com céu claro ao fundo.

Uma nova fragata coreana entra em cena num quadro regional tenso

No fim de 2025, a Marinha sul-coreana colocou à água a ROKS Jeonnam (FFG‑831), o terceiro navio do programa FFX Batch‑III. O objetivo desta série é substituir escoltas mais antigas (classes Ulsan e Pohang), já limitadas em sensores, defesa aérea e guerra antissubmarina.

A Jeonnam insere-se numa aposta de Seul em navios relativamente compactos, mas densos em tecnologia, para:

  • proteger rotas marítimas e infraestruturas no mar,
  • vigiar áreas disputadas,
  • manter dissuasão credível (com foco na Coreia do Norte e, indiretamente, na pressão naval chinesa).

Mais do que “mais um navio”, a Jeonnam mostra uma Coreia do Sul a querer controlar a cadeia completa: do casco aos sensores e às munições.

Em dimensões, é uma fragata de médio porte: cerca de 129 m de comprimento e 14,8 m de boca, com deslocamento na ordem das 4.300 t (carga máxima). A tripulação indicada (c. 120–125) aponta para elevada automação - o que reduz custos de pessoal, mas exige manutenção e formação muito bem afinadas para manter disponibilidade real em mar.

Propulsão de alta tecnologia para um caçador silencioso

A Jeonnam usa um esquema CODLOG (combined diesel-electric or gas): turbinas a gás para sprint e propulsão elétrica (alimentada por geradores a gasóleo) para cruzeiro e operação silenciosa. Em termos práticos:

  • alta velocidade quando é preciso reposicionar (c. 30 nós, ~55 km/h),
  • baixo ruído quando a prioridade é detetar submarinos antes de ser detetado.

Isto é particularmente relevante num teatro com muitos submarinos e águas complexas (costeiras e arquipelágicas). Regra prática: em guerra antissubmarina (ASW), “silêncio” e qualidade de sonar costumam valer tanto como a quantidade de armas - porque determinam quem ganha a primeira deteção.

A autonomia anunciada ronda as 4.500 milhas náuticas (mais de 8.000 km). Na vida real, esta autonomia depende muito da velocidade, do estado do mar e do perfil de missão; em escolta e ASW, é comum privilegiar ritmos mais baixos para maximizar alcance e reduzir assinatura acústica.

Nota de compromisso: CODLOG tende a ser mais caro e complexo do que soluções só a diesel (CODAD). Em troca, oferece vantagens claras em ruído e flexibilidade, mas pode penalizar logística e ciclos de manutenção se a marinha não tiver uma base industrial sólida.

Armamento e sensores: um sistema de combate feito na Coreia

Um pacote de mísseis compacto, mas sério

O núcleo do armamento é um VLS coreano (KVLS) de 16 células. O valor de “16” é importante: para defesa aérea, ASW e ataque, o número de células define quanta munição se consegue levar pronta a disparar - e quão rápido se esgota numa crise.

Em configurações típicas, o KVLS pode empregar:

  • K‑SAAM (curto/médio alcance) para defesa aérea da própria unidade e de navios próximos,
  • mísseis de cruzeiro/antinavio conforme a integração e a doutrina,
  • Red Shark (Haeryong), um sistema ASW que projeta um torpedo ligeiro a maior distância.

O canhão principal é um Mk 45 Mod 4 de 127 mm, útil para alvos de superfície e apoio de fogo (quando as regras de empenhamento o permitem). Para defesa de ponto contra ameaças rápidas (mísseis/aeronaves a curta distância), surge o CIWS‑II.

Na camada subaquática, a Jeonnam combina tubos lança-torpedos, sonar de casco e sonar rebocado. Erro comum em comparações: olhar só para “tem sonar” e ignorar o conjunto. Em ASW, o sonar rebocado pode ser decisivo para detetar contactos a maior distância, mas exige boa gestão de velocidade, ruído próprio e condições do mar.

Um mastro integrado carregado de eletrónica

O mastro integrado concentra vários sensores e antenas numa estrutura com intenção de reduzir assinaturas e melhorar integração. Inclui um radar AESA de quatro faces, radares de navegação, sensores eletro‑ópticos/infravermelhos e capacidades de guerra eletrónica.

Integrar sensores num mastro não é só estética: pode reduzir interferências e acelerar a passagem de “deteção → identificação → reação”.

Na prática, o ganho depende tanto do hardware como do “software”: fusão de dados, qualidade do sistema de combate e ligações táticas. Para operações com aliados (tema sensível para muitos potenciais compradores, incluindo na NATO), a interoperabilidade via data links e padrões de identificação é tão relevante quanto o radar em si.

A estratégia da Coreia do Sul: navios modernos, indústria local

A Jeonnam é parte de um Batch‑III de seis navios dentro do programa FFX, pensado para uniformizar a frota em torno de escoltas multiuso modernas. A lógica é direta: mais disponibilidade, mais sensores por navio e uma rotação sustentável para patrulhas e escoltas.

Há também uma mensagem industrial: reduzir dependências externas em sensores, munições e integração. Isto costuma trazer três efeitos práticos:

  1. melhor controlo de modernizações (menos bloqueios de exportação/licenças),
  2. custos mais previsíveis a médio prazo (se a produção for contínua),
  3. maior atratividade para exportação, sobretudo para países que querem autonomia de suporte.

O reverso: ecossistemas “domésticos” podem ter mais dificuldade em integrar certos mísseis/standards estrangeiros sem custos e prazos adicionais - e isso pesa em concursos internacionais.

Como é que a Jeonnam se compara realmente com a FDI francesa?

A FDI (Frégate de Défense et d’Intervention), já encomendada por França e Grécia, foi desenhada com ênfase em defesa aérea de área em ambientes de elevada ameaça. O conjunto radar Sea Fire (AESA, quatro faces) + mísseis Aster 15/30 dá-lhe capacidade para proteger uma formação a maior distância.

A Jeonnam, por contraste, está mais alinhada com defesa aérea local/regional e com um perfil muito forte em ASW e escolta. Não é “pior” - é uma escolha de missão. Regra rápida para ler isto:

  • FDI: mais vocacionada para criar um “guarda‑chuva” de defesa aérea a um grupo.
  • Jeonnam: mais orientada para escolta multiuso e caça a submarinos, com defesa aérea mais próxima.

A comparação faz sentido, mas não é um duelo direto: são fragatas de tamanho semelhante com prioridades diferentes (e ecossistemas de armas diferentes).

No mercado, a FDI parte com vantagem por já ter contratos firmes e por estar fortemente posicionada onde a defesa aérea de longo alcance é requisito central. A Jeonnam pode ser mais apelativa onde se valoriza autonomia industrial, custo/complexidade controlados e um pacote ASW sólido - desde que a integração de armas e ligações táticas cumpra o que o cliente exige.

Onde a Jeonnam se encaixa entre os seus pares

Em capacidade e filosofia, a Jeonnam encaixa num “meio-termo” moderno: navios multi-missão, com boa automação e forte participação industrial nacional. Exemplos frequentemente colocados no mesmo patamar:

Fragata País Deslocamento (carga máxima) Radar principal Foco de defesa aérea
ROKS Jeonnam (FFX Batch‑III) Coreia do Sul ≈ 4.300 t AESA de quatro faces em mastro integrado K‑SAAM de curto/médio alcance + CIWS
FDI / FDI HN França / Grécia ≈ 4.500 t Sea Fire AESA de quatro faces Aster 15/30 de longo alcance
Classe Mogami Japão ≈ 5.500 t OPY‑2 AESA ESSM Block 2
PPA Light+ Itália ≈ 5.800 t Kronos Grand Naval AESA Aster 30
Classe Istanbul Turquia ≈ 3.000 t CAF AESA Hisar‑D RF (planeado) + RAM

Este escalão é atrativo para marinhas que precisam de capacidade real (ASW, defesa aérea, guerra eletrónica), mas não querem - ou não conseguem - entrar em volumes e custos de “navios de topo” tipo contratorpedeiro. Para um país como Portugal, a leitura prática desta categoria passa por perguntas simples: quantas escoltas são necessárias para cobrir ZEE/rotas, quantas horas de mar por ano se pretende, e que nível de defesa aérea se considera indispensável em operações aliadas.

O que isto significa num cenário real de crise

Num impasse no Mar da China Oriental, um grupo sul-coreano com um navio maior e fragatas tipo Jeonnam pode usar a Jeonnam como “especialista ASW”: operar mais silenciosa, estender a bolha de deteção com sonar rebocado e reagir com armas ASW. A defesa aérea com K‑SAAM cobre ameaças próximas, mas não substitui uma plataforma dedicada a defesa aérea de área.

Num cenário no Mediterrâneo, com ameaça aérea e de mísseis mais densa e a maior distância, a FDI tende a trazer uma vantagem clara: o par Sea Fire + Aster permite engajar mais longe e contribuir para a defesa do grupo como um todo. A Jeonnam, mesmo competente, está desenhada para brilhar mais “perto do grupo” do que a centenas de quilómetros.

A conclusão operacional é simples: a eficácia depende menos do “navio isolado” e mais de como ele encaixa numa força (aviões de patrulha, helicópteros, submarinos, reabastecimento, ligações táticas e regras de empenhamento).

Alguns termos e conceitos-chave, explicados

Para quem não vive o jargão naval, aqui vai um guia curto:

  • Radar AESA: radar com múltiplos módulos de transmissão/receção. Em geral, segue muitos alvos ao mesmo tempo, reage mais depressa e é mais resistente a interferências do que radares rotativos mais antigos.
  • Sistema de Lançamento Vertical (VLS): “silos” no convés que lançam mísseis na vertical. É flexível, rápido e permite misturar tipos de munição - mas o número de células limita a persistência em combate.
  • CODLOG / CODAD: arquiteturas de propulsão. CODLOG combina turbina a gás com cruzeiro diesel‑elétrico (mais silencioso, mais complexo); CODAD usa só diesel (mais simples, muitas vezes mais barato, mas tipicamente mais ruidoso em ASW).

Estas escolhas moldam o papel de cada navio. A Jeonnam aposta em discrição acústica e num pacote ASW forte para um contexto saturado de submarinos. A FDI aposta em radar e mísseis de longo alcance para ambientes onde a defesa aérea de área é determinante.

Para um comprador, a decisão raramente é “qual é melhor”. É: que missões contam mais, que ameaças são mais prováveis, que munições e alianças se querem, e quanta independência industrial/logística se consegue sustentar ao longo de décadas.

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