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Todos os gatos amassam mantas e a ciência explica porquê.

Gato a ser acariciado no sofá, com escova e tesoura ao lado, aproveitando a luz suave da sala.

A manta mexe-se antes de sequer veres as patas. Um empurrão suave e ritmado, depois outro, como se o teu gato estivesse a amassar uma massa invisível em cima da tua cama. O quarto está silencioso, a Netflix murmura ao fundo, e há esta criaturinha a olhar para o vazio, com as patas da frente a bombear e o motor do ronronar a trabalhar no máximo. Ficas com a mão imóvel para não interromperes o ritual, meio comovido, meio curioso. Porque esta manta, porque este momento, porque este ar estranhamente sério numa cara cheia de bigodes?

Dizes a ti próprio que é “só uma coisa fofa de gato”, como as corridas malucas às 3 da manhã ou o fascínio por caixas de cartão. Mas a ciência tem espreitado por detrás da cortina desta pequena dança estranha.

E a história que conta é surpreendentemente profunda.

Esse estranho ritual da manta é mais antigo do que a tua sala de estar

Observa com atenção da próxima vez que o teu gato amassar uma manta. O movimento não é aleatório. As patas pressionam, abrem, recolhem, alternam, voltam a pressionar. É metódico, quase hipnótico, como se o teu gato tivesse saído do sofá e ido para outro lugar na cabeça dele. A cara amolece, os olhos ficam semicerrados, as orelhas relaxam.

Alguns gatos babam-se, outros dão pequenas dentadas, alguns “cantam” com um ronronar grave que se sente mais do que se ouve. Parece que nem se apercebem de ti. A manta transforma-se numa coisa com história. Um gatilho. Uma chave.

Se alguma vez viste uma ninhada de gatinhos a mamar, a semelhança é impressionante. Patinhas pequenas pressionam a barriga da mãe exactamente com esse movimento, estimulando o fluxo de leite. Os etólogos chamam ao amassar um “comportamento neoténico”: um comportamento de bebé que simplesmente nunca se desligou por completo.

Por isso, quando o teu gato adulto amassa a tua manta preferida, não está a ser esquisito - está a aceder à memória mais antiga dele: calor, batimento cardíaco, leite, segurança. É como um atalho sensorial para os primeiros dias de vida.

É por isso que tantos gatos reservam o amassar para os humanos ou objectos em que mais confiam.

Investigadores do comportamento felino sugerem que o amassar está na encruzilhada entre instinto e emoção. Por um lado, é profundamente programado: pressionar, libertar, alternar patas, repetir. Por outro, aparece mais frequentemente em contextos de conforto, vínculo ou antecipação.

Alguns cientistas acham que o amassar ajuda os gatos a autorregularem-se, reduzindo o stress ao activar padrões motores familiares da infância. Outros sublinham a territorialidade: as patas têm glândulas odoríferas, e este “pisar” suave pode ser uma marcação discreta de um sítio querido.

A verdade mais provável é uma mistura das duas coisas: um gesto prático e antigo que os gatos domésticos modernos transformaram num pequeno ritual privado de bem-estar.

O que o teu gato está “a dizer” quando amassa a tua manta

Da próxima vez que o teu gato saltar para a cama e começar a amassar, tenta ver a cena toda como um documentário em câmara lenta. Repara onde escolhe amassar. Repara se dá voltas primeiro, ou se testa a textura com um cheiro rápido.

Muitos gatos parecem preferir tecidos grossos e ligeiramente fofos: polar, mantas de lã, hoodies velhas com o teu cheiro. Amassam, acomodam-se, depois voltam a amassar alguns minutos mais tarde, como se estivessem a ajustar um ninho invisível. Podes deslizar discretamente uma manta macia para debaixo das patas deles para “convidar” o ritual e ver o que fazem.

Há também um lado prático. Na natureza, os antepassados dos nossos gatos domésticos pressionavam erva alta ou folhas para construir um local confortável para descansar. Esse mesmo gesto vê-se quando um gato amassa uma almofada antes de se deitar. A manta torna-se uma mini-savana, a tua cama um acampamento seguro para a noite.

Uma leitora contou-me a história da sua gata, Noodle, que só amassa uma manta azul específica. Lava-a, esconde-a, muda-a de divisão - a Noodle vai atrás dela e recomeça. Mantas novas? Reacção zero. Manta azul antiga, ligeiramente gasta? Massagem instantânea com as patas. Para aquela gata, o objecto tornou-se claramente uma relíquia pessoal de conforto.

Os especialistas em comportamento lembram que a linguagem corporal durante o amassar diz muito. Bigodes relaxados, pestanejar lento, cauda solta? O teu gato está no auge do aconchego, quase meditativo. Cauda rígida, orelhas tensas, respiração superficial? Então o amassar pode estar mais ligado ao alívio da ansiedade do que à pura felicidade.

Alguns gatos de abrigo amassam em excesso quando estão sobrecarregados, tal como alguns humanos roem as unhas. O contexto importa mais do que o gesto por si só. Observa quando e onde o amassar acontece e vais começar a lê-lo menos como uma mania aleatória e mais como uma mensagem sobre como o teu gato se está a sentir naquele momento.

Como responder quando o teu gato amassa (sem sacrificares a tua pele)

O primeiro reflexo, quando garras afiadas como lâminas se enterram na tua coxa, é gritar e afastar o gato. Totalmente humano. Totalmente compreensível. Mas, para o animal, isso é como ser enxotado a meio de um abraço.

Uma estratégia mais suave é “redireccionar as patas”. Desliza com cuidado uma manta dobrada, uma sweatshirt, ou até uma pequena almofada entre o teu colo e as garras. Muitos gatos mudam instantaneamente para a nova superfície, mantendo-se colados a ti. Tu ficas inteiro, o ritual continua, toda a gente ganha.

Outro gesto simples: cortar as unhas regularmente. Não é para ficar supercurto, só o suficiente para embotar as pontas. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas mesmo um corte ligeiro de duas em duas semanas pode transformar um amassar doloroso numa pressão suave que mal se sente.

O grande erro é castigar ou gritar com um gato que amassa. Do ponto de vista dele, está a fazer algo profundamente natural num momento de confiança. Repreendê-lo nesse momento pode baralhar o vínculo e fazer com que ele fique reticente em voltar a relaxar em cima de ti. Orientação vence castigo, sempre.

Podes até criar uma “zona de amassar” em casa: uma almofada ou manta específica que fica sempre no mesmo sítio, com o teu cheiro e o dele. Alguns gatos adoptam-na rapidamente como o seu palco de conforto preferido.

“Os gatos não amassam para nos irritar”, explica um veterinário felino com quem falei. “Amassam porque o cérebro lhes diz: agora estás seguro. Podes largar. Quando respeitamos isso, não estamos só a evitar arranhões - estamos a honrar um código emocional muito antigo.”

  • Escolhe uma ou duas mantas macias e grossas como locais “oficiais” de amassar.
  • Coloca-as onde o teu gato já gosta de descansar: canto da cama, braço do sofá, cadeira preferida.
  • Vai rodando de vez em quando, mas mantém o cheiro: evita detergentes muito perfumados.
  • Oferece o teu colo com uma manta dobrada por cima em noites calmas.
  • Se as garras magoarem, redirecciona as patas com calma, nunca com puxões bruscos ou gritos.

Quando um hábito fofo se torna uma janela para o vosso vínculo

Quando conheces o contexto, é difícil ver o amassar como “apenas” uma coisa de gato digna de meme. De repente, tens consciência de que esta pequena criatura está a repetir um gesto de bebé na tua manta, na tua hoodie, nas tuas pernas. Está a transformar objectos do dia-a-dia numa mistura de ninho, berçário e território.

Algumas pessoas acham essa ideia quase íntima demais. Outras sentem-se discretamente honradas. E há quem só repare no dia em que o comportamento muda: um gato que sempre amassou e de repente pára, ou o contrário, um gato calmo que começa a amassar a noite toda depois de uma mudança de casa ou de uma ruptura no ambiente familiar.

A ciência ainda não tem todas as respostas, mas um padrão é claro: o amassar aparece exactamente onde emoção, memória e instinto se sobrepõem. Isso torna-o um sinal valioso para nós - não um código para decifrar de forma perfeita, mas um marco recorrente na vida quotidiana partilhada com gatos.

Da próxima vez que a tua manta começar a pulsar sob aquelas patas, talvez sintas um lampejo de curiosidade em vez de uma leve irritação. Talvez te mexas um pouco para dar mais espaço ao teu gato. Talvez te perguntes, em silêncio, que memória antiga está a acordar naquele corpo pequeno e quente.

E talvez percebas que este movimento simples e repetitivo é uma das poucas pontes visíveis entre o mundo deles e o nosso.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reflexo antigo de gatinho O amassar repete o movimento que os gatinhos usam para estimular o fluxo de leite Ajuda-te a ver o comportamento como emocional, não “irritante” nem sem sentido
Conforto e território As patas têm glândulas odoríferas e o ritmo acalma o sistema nervoso do gato Dá pistas sobre quando o teu gato se sente seguro, stressado ou ligado a ti
Gestão suave Usa camadas macias, corte de unhas e redireccionamento em vez de castigo Protege a tua pele enquanto reforça a confiança e a ligação diária

FAQ:

  • Porque é que o meu gato amassa apenas uma manta em particular? Essa manta provavelmente tem a combinação perfeita de textura, espessura e cheiro familiar. Com o tempo, o teu gato associou-a a segurança e relaxamento, transformando-a num “objecto de conforto” pessoal.
  • Amassar é sempre sinal de felicidade? Muitas vezes, sim - sobretudo com ronronar e postura relaxada. Mas alguns gatos stressados ou de abrigo amassam para se autorregularem. Observa o corpo todo: orelhas ou cauda tensas podem indicar ansiedade, em vez de pura satisfação.
  • Devo impedir o meu gato de amassar em cima de mim? Não é preciso parar o comportamento em si. Protege-te com uma manta no colo, redirecciona as patas com calma e corta as unhas. O objectivo é manter o ritual sem dor.
  • Porque é que o meu gato amassa e depois, de repente, morde a manta? Esta mistura de amassar, lamber e morder reflecte muitas vezes um nível alto de excitação - uma espécie de “transbordo” emocional ligado a memórias de gatinho. Desde que o teu gato esteja relaxado e não esteja a destruir o tecido, costuma ser inofensivo.
  • Quando devo preocupar-me com o amassar? Se o comportamento se tornar obsessivo, interferir com o sono, ou mudar subitamente (parar ou aumentar de forma acentuada), vale a pena fazer um check-up veterinário. Dor, stress ou questões neurológicas podem por vezes revelar-se através de hábitos alterados.

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