A sala de aula estava meio vazia, as luzes fluorescentes zumbiam suavemente sobre filas de estudantes curvados sobre os seus portáteis. À frente, um professor de Economia de cabelo grisalho interrompeu a apresentação a meio, olhando para um gráfico onde salários e preços da habitação subiam em direcções opostas. Suspirou, desligou o projector e encostou-se à secretária. “Preciso de ser honesto convosco”, disse, quase a pedir desculpa. “Do ponto em que estou, não há uma boa razão para acreditar que a vossa geração vai ter verdadeira segurança económica.” A sala ficou completamente imóvel - aquele tipo de silêncio que parece pressionar os ouvidos. Um estudante soltou uma gargalhada nervosa. Outra olhou para o telemóvel, a percorrer anúncios de emprego para os quais ainda não estava qualificada. Ninguém discutiu com ele. Ninguém podia. Os gráficos atrás dele já tinham falado.
“Estão a fazer tudo bem, e mesmo assim não chega”
Nos campus de Nova Iorque a Berlim, estudantes fazem fila para as horas de atendimento com o mesmo pânico silencioso. Conciliam estudos, trabalhos a tempo parcial, estágios não remunerados e um side hustle a vender roupa online, e ainda assim a pergunta é quase idêntica: “Isto alguma vez vai dar numa vida estável?” O professor com quem falei, economista numa grande universidade pública, diz que ouve isto cada vez mais todos os anos. Antes respondia com um optimismo cuidadoso. Agora tenta apenas ser honesto sem esmagar ninguém. Há um novo tipo de cansaço nos rostos, a sensação de que as promessas antigas caducaram. O contrato entre “trabalha muito” e “vai correr bem” parece quebrado.
Contou-me o caso de uma estudante que trabalhava 30 horas por semana numa cafetaria enquanto fazia um semestre completo. Melhor da turma, incisiva, educada até ao excesso. Uma vez levou-lhe uma folha de Excel com o seu futuro projectado: salários iniciais, estimativas de renda, pagamentos do empréstimo, até orçamentos de alimentação para os 10 anos seguintes. Os números não fechavam a menos que ela assumisse: sem doença, sem desemprego, sem filhos, sem despesas inesperadas. “Eu optimizei tudo”, disse ela, “e mesmo assim não consigo ver como é que algum dia me sinto segura.” Já lá estivemos todos - aquele momento em que percebemos que a vida adulta pode ser só um exercício longo de correr à frente da próxima conta.
O veredicto do professor soa brutal, mas não é emocional. É aritmética. Os salários dos trabalhadores jovens mal mexeram, enquanto os custos da habitação, da saúde e da educação explodiram. Empregos estáveis e de longo prazo são substituídos por contratos de curta duração e trabalho gig. As pensões encolhem, as redes de protecção social são cortadas, e a ideia de “segurança no emprego” transformou-se em “tens um login para o Slack da empresa”. Ele chama-lhe “um desfasamento estrutural”: um sistema que continua a vender o sonho da estabilidade, mas assente na volatilidade e no risco constante. Não se constrói uma vida tranquila sobre um chão a tremer. E a Geração Z está a tentar fazê-lo com dívida estudantil às costas.
Como a Geração Z está a reescrever silenciosamente o manual de sobrevivência
Perante isto, muitos jovens estão a reagir menos com rebelião e mais com uma defiança silenciosa e estratégica. Não estão à espera do emprego de sonho; estão a tentar montar um mosaico de fontes de rendimento que não colapse se uma peça falhar. Uma assistente de marketing tem uma conta de TikTok que lhe rende parcerias com marcas. Uma enfermeira gere uma pequena loja na Etsy. Um programador faz correcções de bugs em freelance ao fim-de-semana. Não é tanto uma fantasia glamorosa de “cultura do hustle”, mas um plano de emergência - como andar sempre com um pneu sobresselente e uma power bank. O professor diz: “Estão a diversificar, não porque queiram ser ricos, mas porque têm medo de estar a um salário de distância do desastre.”
Esse medo leva a muitos pequenos sacrifícios invisíveis. Uma licenciada de 24 anos que conheci em Paris explicou como partilha um estúdio com uma amiga e mantém os seus pertences em caixas etiquetadas para poder mudar-se numa semana se a renda disparar. Outra, em Londres, tem uma “lista de amigos do saco-cama” - três pessoas com quem sabe que pode ficar se deixar de conseguir pagar o quarto depois de uma subida de renda. Alguns adiam consultas médicas, evitam jantares fora, ou mantêm relações casuais porque simplesmente não vêem como conseguiriam pagar uma separação e uma mudança. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com um sorriso.
O professor insiste numa coisa: isto não é uma história de falha pessoal. É uma história de sistema. A Geração Z é muitas vezes acusada de ser “frágil” ou “demasiado online”, mas o que ele vê na sala de aula é uma dureza encostada à exaustão. Estão a absorver choques que gerações mais velhas raramente enfrentaram nesta escala: ansiedade climática, instabilidade política, habitação instável, mercados de trabalho imprevisíveis. O percurso clássico - curso, emprego estável, hipoteca, reforma - transformou-se em algo mais parecido com um labirinto. Cada curva vem com taxas, letras pequenas e o risco de perder progresso. Quando ele lhes diz que não há razão para acreditar na segurança económica, não está a dizer que estão condenados. Está a dizer que as regras actuais não levam para onde o mapa diz que levam.
Como é hoje uma postura financeira realista
Nos seus seminários, o professor começou discretamente a fazer algo que nunca esperou: ensinar realismo emocional sobre dinheiro. Nem optimismo, nem desespero - apenas estratégia com lucidez. Incentiva os estudantes a pensar menos em termos de “emprego de sonho” e mais em “estrutura de vida resiliente”. Isso significa aprender negociação básica, perceber como funcionam impostos e contratos, conhecer a diferença entre dívida boa e dívida má, e manter os custos de vida o mais flexíveis possível. Sugere construir um “fundo amortecedor de choques” - não um grande plano de poupança para a reforma, mas um pequeno montante de dinheiro que te permita dizer não a um emprego tóxico ou fugir a um senhorio abusivo. Não é um conselho sedutor. É sobrevivência.
Também os alerta para duas armadilhas clássicas. A primeira é o pensamento mágico: acreditar que um dia um salto súbito de salário, uma herança ou um projecto paralelo viral vai resolver tudo. A segunda é a resignação total - a mentalidade de “nada importa, por isso mais vale ignorar as contas”. Ambas levam ao mesmo sítio: perda de controlo. Ele fala baixo quando diz isto, consciente de que muitos estudantes já se sentem esmagados. “Tens direito a estar cansado”, diz-lhes. “Tens direito a estar zangado. Mas não entregues os teus números. Os números são o teu mapa, mesmo quando a estrada é difícil.” A sua empatia não lhes paga a renda, mas impede-os de se culparem por um jogo que já estava viciado antes mesmo de fazerem login.
No dia em que ele disse a uma sala cheia que a segurança económica já não era um ponto de partida realista, uma estudante levantou a mão e perguntou: “Então, para quê é que devemos apontar?” Ele fez uma pausa e respondeu: “Apontem para margem. Margem no tempo, margem no dinheiro, margem na energia. Nem sempre a terão, mas é um alvo melhor do que a fantasia de uma segurança perfeita.”
- Acompanha o teu custo mensal real de existir - não um orçamento teórico, mas aquilo que de facto gastas quando estás cansado, stressado e humano.
- Cria uma pequena “opção de saída” - uma competência extra, um perfil de freelance, uma segunda cidade para onde poderias mudar se fosse preciso.
- Limita compromissos fixos - rendas longas, créditos rígidos, pagamentos grandes - para a tua vida conseguir dobrar em vez de partir.
- Fala abertamente sobre dinheiro com amigos, parceiros e colegas para quebrar a vergonha e comparar realidades, não sonhos.
- Lembra-te de que a insegurança económica é uma condição partilhada, não uma falha privada, e que políticas públicas e acção colectiva importam tanto como a disciplina pessoal.
Viver sem garantias e, ainda assim, construir uma vida
O professor não gosta de ser portador de más notícias. Quando diz aos seus estudantes que não há razão para acreditarem na sua segurança económica, não está a tentar assustá-los para trabalharem mais. Está a tentar libertá-los de um guião que já não encaixa no palco. Para alguns, isso significa largar a culpa de não terem casa própria aos 30. Para outros, significa aceitar que arrendar com amigos bem dentro da idade adulta não é “falha”; é simplesmente o novo normal. Alguns canalizam a frustração para a política, sindicatos ou movimentos climáticos, percebendo que o orçamento pessoal, por si só, não repara sistemas avariados.
O que surge, em silêncio, é um tipo diferente de ambição. Menos sobre estatuto, mais sobre estabilidade. Menos sobre ficar rico, mais sobre não ser esmagado pelo próximo choque. A segurança económica pode estar fora de alcance enquanto garantia, mas a dignidade económica continua a ser uma luta que vale a pena: salários justos, horários previsíveis, habitação acessível, tempo para descansar e ser pessoa - não apenas trabalhador. Essa luta começa por nomear a realidade em voz alta, mesmo quando arruína uma apresentação em PowerPoint. Continua em apartamentos partilhados, conversas nocturnas, reuniões sindicais, projectos paralelos e pequenos actos de recusa. Algures entre o medo e a negação, a Geração Z está a abrir um terceiro espaço: lúcido, precário e ainda teimosamente esperançoso.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Sistema, não falha pessoal | Salários, rendas e precariedade laboral criam insegurança estrutural | Reduz vergonha e auto-culpa, clarifica o que podes e não podes controlar |
| Resiliência acima da fantasia | Foco em margem, custos flexíveis e múltiplas opções de rendimento | Dá uma forma realista e accionável de navegar um futuro instável |
| Falar e organizar | Conversas abertas sobre dinheiro e acção colectiva a par do orçamento pessoal | Transforma isolamento em resolução partilhada de problemas e potencial mudança política |
FAQ:
- O professor está a exagerar ao dizer que a Geração Z não terá segurança económica? O ponto dele não é que todos os jovens vão ficar sem dinheiro, mas que a antiga suposição de “trabalha muito e estarás seguro” já não se verifica como regra geral.
- Um bom orçamento pode mesmo mudar alguma coisa neste contexto? O orçamento não corrige mercados de habitação nem leis laborais quebradas, mas pode dar-te margem suficiente para evitares as piores armadilhas e reagires mais depressa quando tudo muda.
- Ainda devo ir para a universidade se o resultado é tão incerto? A universidade ainda pode abrir portas, mas já não é uma chave mágica; o valor depende muito da área, dos custos e do que fazes em paralelo com o curso.
- Comprar casa é hoje um sonho irrealista para a Geração Z? Para muitos nas grandes cidades, sim - pelo menos na próxima década; em regiões mais pequenas ou com compra em conjunto, às vezes ainda é possível, mas longe de garantido.
- Qual é uma coisa prática que posso fazer este mês? Passa 30 minutos a mapear os teus custos mensais reais e dívidas e identifica uma área onde possas criar mais flexibilidade ou uma pequena fonte extra de rendimento.
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