O breve vídeo, aparentemente filmado por um agricultor local de batatas que fez uma pausa durante a colheita, parece mostrar o caça furtivo mais avançado da Rússia a circular pelos céus do Norte de África - e sinaliza uma mudança séria no equilíbrio militar da região.
Um vídeo de um agricultor que pôs analistas de defesa em alvoroço
As imagens, publicadas pela primeira vez por um utilizador do TikTok em língua árabe conhecido como “doz.kbran”, mostram o contorno inconfundível de um Su-57 russo a cortar um céu azul limpo sobre colinas onduladas.
A paisagem ao fundo, com cristas baixas e dispersas e campos agrícolas em mosaico, coincide de perto com o terreno em redor da Base Aérea de Oum El Bouaghi, perto de Ain Beida, no norte da Argélia.
Analistas dizem que o clip é, até agora, a indicação visual mais forte de que caças furtivos Su-57 russos chegaram discretamente à Argélia.
A conta de TikTok que publicou o vídeo apresenta sobretudo conteúdos de futebol argelino e cenas de cidades locais. Esse rasto online, combinado com a geografia visível no clip, reforçou a ideia de que não se trata de imagens de arquivo nem de uma falsificação.
Especialistas em inteligência de fontes abertas compararam imagens de satélite de Oum El Bouaghi com o vídeo e consideram a correspondência “altamente plausível”. Embora o governo argelino não tenha confirmado a chegada dos Su-57, as imagens encaixam bem em anos de rumores, fugas de informação e insinuações russas.
De salão aeronáutico em Moscovo a pista no Norte de África
O percurso alegado da Argélia até ao Su-57 começou no salão aeronáutico MAKS, nos arredores de Moscovo, em 2019, quando a variante de exportação, o Su-57E, foi exibida perante delegações estrangeiras.
Oficiais e responsáveis argelinos foram vistos a passar bastante tempo no stand da Sukhoi. Na altura, a imprensa russa especulou que Argel se preparava para ser o primeiro cliente estrangeiro.
Documentos divulgados, e-mails pirateados e um acordo de 2 mil milhões de dólares
A especulação ganhou força em outubro de 2025, quando um coletivo de hackers autodenominado Black Mirror alegou ter infiltrado sistemas pertencentes ao gigante estatal russo da defesa Rostec.
Entre os ficheiros divulgados estava uma folha de cálculo com o logótipo da AO Kret, uma grande empresa russa de aviónica que fornece sistemas eletrónicos para aeronaves Sukhoi.
O documento listava pacotes de aviónica para doze Su-57 destinados à Argélia por cerca de 200 milhões de dólares, com um acordo mais amplo alegadamente avaliado em cerca de 2 mil milhões de dólares.
Segundo esses ficheiros e reportagens subsequentes, em russo, sobre aviação, a Argélia teria feito uma encomenda de 12 caças Su-57 e 14 caças-bombardeiros Su-34.
Os números exatos continuam pouco claros: algumas fontes referem 14 Su-57, outras 12, e nenhuma das partes oficiais parece querer esclarecer. Ainda assim, no final de 2020, o órgão estatal russo Sputnik citou fontes argelinas a confirmar que existia um contrato para os caças furtivos.
Em novembro de 2025, responsáveis russos foram mais longe, afirmando que dois Su-57 já tinham sido entregues a um cliente estrangeiro não identificado. Poucos duvidaram de que o comprador misterioso fosse a Argélia.
Porque é que o Su-57 na Argélia é tão importante
Para a Rússia, colocar o seu caça de quinta geração emblemático ao serviço de um país estrangeiro é mais do que um projeto de prestígio. As exportações de armamento são uma fonte crucial de receitas numa altura em que as sanções ocidentais e a invasão em curso da Ucrânia apertaram grande parte da indústria de defesa do país.
Moscovo tem-se voltado cada vez mais para governos em África e no Médio Oriente menos sensíveis à pressão ocidental e mais abertos a equipamento russo, formação e parcerias de segurança.
A Argélia é agora o primeiro país fora da Rússia que se acredita operar o Su-57, assinalando um marco no percurso difícil de exportação do avião.
Para a Argélia, a aquisição integra-se diretamente num programa mais amplo de modernização da sua força aérea, que já opera Su-30 e MiG-29 russos, além de importantes defesas antiaéreas terrestres.
Mudança no flanco sul da NATO
A chegada de caças furtivos à Argélia complica o planeamento de países da NATO próximos, como Espanha, França e Itália, todos com interesses significativos no Mediterrâneo ocidental.
Aeronaves furtivas são mais difíceis de detetar e atingir, sobretudo a longa distância, o que pode alterar cálculos sobre controlo do espaço aéreo, cobertura de alerta antecipado e escalada em crises.
- A Argélia ganha uma capacidade moderna de ataque de longo alcance e superioridade aérea.
- O vizinho Marrocos enfrenta pressão crescente para modernizar o seu próprio arsenal.
- Os planeadores da NATO têm de considerar caças furtivos avançados de conceção russa em cenários ao longo do limite sul da Aliança.
Argélia, Marrocos e um diferendo fronteiriço latente
A relação tensa da Argélia com Marrocos constitui o pano de fundo regional imediato da história do Su-57. Os vizinhos não estão em guerra aberta, mas a rivalidade em torno do Saara Ocidental, da influência no Sahel e de diferenças ideológicas está enraizada há décadas.
A fronteira terrestre está fechada desde 1994, e ambas as capitais têm investido de forma constante em armamento moderno.
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos, Nasser Bourita, avisou no final de 2024 que Argel procurava “escalada” e se preparava para um potencial confronto militar.
A Argélia rejeitou esses comentários como “projeção” e acusou Rabat de fabricar tensão. Ainda assim, as novas aeronaves enviam uma mensagem clara. Um punhado de caças furtivos não decide automaticamente uma guerra, mas pode desestabilizar o planeamento do adversário e levá-lo a responder na mesma moeda.
Diplomatas regionais receiam que a perceção de uma mudança no equilíbrio aéreo possa desencadear uma nova corrida ao armamento, com Marrocos a recorrer a fornecedores ocidentais para obter caças mais avançados, drones e defesas antiaéreas. Isso aumenta os custos para ambos os lados e eleva o risco de erro de cálculo ao longo de uma fronteira fechada e fortemente vigiada.
Washington atento a gatilhos de sanções
A crescente dependência da Argélia de equipamento russo também está a causar atritos com os Estados Unidos. A lei norte-americana Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act (CAATSA) prevê penalizações para grandes compras de equipamento de defesa russo.
Ao falar na semana passada perante uma comissão do Senado dos EUA, Robert Palladino, que dirige o Bureau of Near Eastern Affairs do Departamento de Estado, apontou a relação de armamento com a Rússia como um fator de irritação central nas ligações com Argel.
Palladino advertiu que compras de grande dimensão como o Su-57 “podem desencadear” sanções dos EUA ao abrigo da CAATSA, colocando a Argélia numa posição difícil entre Moscovo e Washington.
Para os dirigentes argelinos, a Rússia continua a ser um fornecedor antigo e de confiança, disposto a transferir tecnologia avançada com menos condicionantes políticas. Para os EUA, cada novo jato russo numa pista estrangeira é simultaneamente uma perda comercial e um revés estratégico.
O que torna o Su-57 diferente de jatos mais antigos?
O Su-57 é a resposta de Moscovo a aeronaves como o F-22 e o F-35 dos EUA, embora o seu desenvolvimento tenha sido mais lento e problemático.
| Característica | Su-57 (Rússia) | Caça típico de 4.ª geração |
|---|---|---|
| Visibilidade ao radar | Reduzida com geometria furtiva e revestimentos | Secção radar muito maior |
| Aviónica | Fusão avançada de sensores e radar AESA | Atualizada, mas muitas vezes menos integrada |
| Armamento | Porões internos mais pontos externos | Principalmente suportes externos |
| Função | Superioridade aérea e ataque profundo | Varia: sobretudo defesa aérea ou multirfunção |
Para a Argélia, integrar uma aeronave deste tipo nas operações não é apenas uma questão de estacionar novos jatos numa pista. Exige mudanças na formação, nas táticas e nas estruturas de comando. Os pilotos têm de aprender a voar de forma diferente, usando a furtividade para evitar deteção em vez de depender apenas da velocidade e da manobrabilidade.
Cenários potenciais: da dissuasão discreta ao confronto aberto
Vários caminhos se colocam agora para o panorama de segurança do Norte de África.
Uma possibilidade é uma espécie de equilíbrio frio: a Argélia opera uma pequena frota de Su-57, exibe-a em exercícios e usa a sua presença sobretudo como dissuasão. Marrocos responde com modernizações graduais, mas evita movimentos dramáticos, enquanto ambos mantêm o diferendo abaixo do limiar de conflito aberto.
Um cenário mais volátil veria ambos os governos a apostar na retórica pública, usando novas entregas de aeronaves e exercícios para ganhos políticos internos. Numa fronteira fechada e tensa, um voo de treino mal interpretado ou um contacto radar pode rapidamente transformar-se numa crise.
Governos ocidentais com meios navais no Mediterrâneo também têm de ponderar como os Su-57 argelinos poderão comportar-se em torno dos seus navios. Mesmo sem hostilidade, passagens próximas ou sondagens eletrónicas podem aumentar a probabilidade de incidentes.
Termos-chave e riscos que vale a pena compreender
Vários conceitos estão por detrás do drama de um agricultor a filmar um jato furtivo com o telemóvel:
- Furtividade (stealth): escolhas de conceção que reduzem a visibilidade de uma aeronave ao radar, muitas vezes através de geometria, revestimentos especiais e armamento oculto.
- Caça de quinta geração: rótulo de marketing para jatos que combinam furtividade, sensores avançados, elevada capacidade de ligação em rede e flexibilidade multirfunção.
- Corrida ao armamento: ciclo em que novas armas de um Estado levam vizinhos a comprar ou desenvolver mais, aumentando custos e tensões para todos.
- Risco de sanções: leis como a CAATSA que visam punir países que compram certas armas, complicando a sua diplomacia e comércio.
Os benefícios para a Argélia são evidentes: maior dissuasão, prestígio no palco global e mais influência em disputas regionais. Os riscos vão desde pressão económica via sanções até escalada não intencional com vizinhos e membros da NATO.
Se o clip do TikTok for genuíno, capta mais do que uma aeronave rara. Mostra uma nova camada de tecnologia furtiva integrada num canto já frágil do Mediterrâneo, onde cada modernização, cada exercício e cada vídeo tremido passa agora a ter um peso estratégico muito para lá desse campo tranquilo de batatas.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário