O que começou como uma operação simples de remoção de gatos nas Ilhas Ogasawara transformou-se numa das histórias de vida selvagem mais surpreendentes da década, com um pombo criticamente ameaçado a multiplicar-se em quase dez vezes em apenas alguns anos.
Em ilhas minúsculas, uma experiência silenciosa de vida selvagem
Bem a sul de Tóquio, o arquipélago de Ogasawara parece um postal subtropical. Falésias íngremes, florestas densas, baías ladeadas por recifes de coral. Mas, durante décadas, este ecossistema frágil escondeu uma realidade brutal: gatos assilvestrados a caçarem a fauna nativa dia e noite.
Entre as suas presas favoritas estava o pombo-da-madeira de cabeça vermelha de Ogasawara, uma ave robusta, habitante de florestas, que não existe em mais nenhum lugar do planeta. No início dos anos 2000, este pombo estava à beira do colapso. Os observadores de aves conseguiam praticamente contar os indivíduos restantes um a um.
As autoridades locais e os conservacionistas decidiram avançar com uma medida drástica. Ao longo de vários anos, seguiram, capturaram e removeram 131 gatos vadios e assilvestrados de ilhas-chave do arquipélago. O objetivo era modesto: estancar a hemorragia e evitar a extinção imediata do pombo e de outras espécies nativas.
Em vez de uma recuperação lenta e frágil, a população de pombos respondeu como uma mola comprimida que, de repente, foi libertada.
Uma nova investigação liderada pela Universidade de Quioto, publicada na revista Communications Biology, mostra quão dramática foi essa “libertação”.
Um pombo quase extinto multiplica os seus números
Antes da remoção em grande escala dos gatos, o pombo-da-madeira de cabeça vermelha existia no que os cientistas chamam uma “população remanescente”. Os levantamentos contabilizavam apenas 111 aves adultas e só 9 juvenis. Uma época de tempestades, um surto de doença ou um ano mau de reprodução podia tê-los eliminado por completo.
Três anos depois de os últimos gatos terem sido retirados das ilhas, as equipas de conservação voltaram para contar novamente. Os números chocaram-nas:
- Pombos adultos: de 111 para 966 indivíduos
- Pombos juvenis: de 9 para 189 indivíduos
- Aumento total: perto de uma subida de dez vezes na população reprodutora
Para uma ave que põe relativamente poucos ovos e vive num habitat pequeno e isolado, este ritmo de crescimento é extremamente raro. Normalmente, os investigadores esperam uma subida lenta e frágil em situações deste tipo, e não uma curva quase exponencial.
O pombo-da-madeira de cabeça vermelha passa agora a figurar entre as recuperações mais rápidas documentadas para uma ave que esteve a um passo da extinção.
O enigma genético: porque é que a consanguinidade não os eliminou?
A surpresa não é apenas numérica. Do ponto de vista genético, o pombo de Ogasawara deveria estar em sérias dificuldades.
Quando uma população encolhe para algumas dezenas de casais reprodutores, a consanguinidade tende a aumentar. Os indivíduos partilham cada vez mais os mesmos genes, incluindo os prejudiciais. Com o tempo, a fertilidade diminui, surgem deformações e a resistência a doenças enfraquece. Muitas aves e mamíferos insulares desapareceram precisamente por esta razão.
A equipa da Universidade de Quioto analisou amostras de ADN dos pombos antes e depois da remoção dos gatos. Procuraram sinais de baixa diversidade genética, consanguinidade e acumulação de mutações nocivas.
Esperavam encontrar uma espécie geneticamente frágil, mantida viva apenas graças a gestão intensiva. O que encontraram foi quase o oposto.
Força escondida num reservatório genético reduzido
Os pombos mostraram, sim, diversidade reduzida - como acontece com qualquer espécie pequena e isolada. Ainda assim, o nível de depressão por consanguinidade - o impacto negativo do parentesco próximo - manteve-se surpreendentemente baixo.
Vários fatores podem explicar esta resiliência:
- Purga histórica de mutações nocivas: ao longo de gerações, indivíduos com os piores defeitos genéticos podem não ter conseguido reproduzir-se, “limpando” lentamente o reservatório genético.
- Seleção natural forte: a predação intensa por parte dos gatos pode ter deixado apenas as aves mais aptas, concentrando características robustas.
- Padrões comportamentais de acasalamento: os pombos podem evitar instintivamente emparelhar-se com parentes próximos, mesmo numa população pequena.
Contra as expectativas, a espécie não colapsou sob o peso da sua própria carga genética assim que os predadores desapareceram.
Este resultado desafia uma ideia antiga na biologia da conservação: a de que populações minúsculas estão quase sempre condenadas pelos seus genes, mesmo quando as ameaças são removidas.
Porque é que a remoção de predadores funcionou tão depressa
Os gatos foram introduzidos nas Ilhas Ogasawara por humanos, sobretudo para lidar com ratos e como companhia em navios. Uma vez em terra, tornaram-se caçadores eficientes e incessantes. Aves que nidificam no chão, sem experiência com predadores mamíferos, tinham poucas hipóteses.
Com os gatos fora do sistema, três coisas mudaram quase de um dia para o outro:
| Fator | Antes da remoção dos gatos | Depois da remoção dos gatos |
|---|---|---|
| Sobrevivência dos ninhos | Muitos ninhos saqueados, poucos juvenis a voar | Muito mais juvenis sobrevivem até abandonar o ninho |
| Mortalidade de adultos | Alta, especialmente à noite | Reduzida; mais aves chegam à idade reprodutora |
| Esforço reprodutor | Perturbado, com tentativas falhadas | Mais posturas bem-sucedidas por estação |
Em termos simples: de repente, cada ovo passou a ter uma probabilidade muito maior de se transformar num adulto reprodutor. Como as aves podem fazer várias posturas ao longo da vida, essas percentagens acumulam-se rapidamente.
O estudo sugere que, quando uma pressão-chave como a predação é removida, algumas espécies podem recuperar muito mais depressa do que os planos de gestão normalmente assumem - desde que ainda existam indivíduos suficientes para reproduzir.
O que isto significa para outras espécies ameaçadas
A história do pombo de Ogasawara oferece mais do que um momento reconfortante. Levanta questões que vão muito além das águas territoriais do Japão.
Projetos de conservação enfrentam frequentemente escolhas orçamentais difíceis. Deve o financiamento ir para reprodução em cativeiro, resgate genético, restauro de habitat ou controlo de predadores? O rápido retorno deste pombo sugere que, em certos sistemas insulares, remover predadores invasores pode gerar ganhos enormes em menos de uma década.
Este caso sugere que algumas espécies são mais robustas geneticamente do que os seus números reduzidos fazem parecer, se as ameaças-chave forem tratadas rapidamente.
Isto não significa que todas as aves ameaçadas responderão da mesma forma. Algumas já perderam demasiada diversidade genética. Outras enfrentam múltiplas ameaças simultâneas: perda de habitat, poluição, doença e stress climático, além da predação.
Ainda assim, os dados de Ogasawara dão aos conservacionistas algo raro: números concretos que mostram que uma ação decisiva pode puxar uma espécie de volta do precipício, e não apenas abrandar o seu declínio.
Esclarecer alguns conceitos-chave
O que os cientistas querem dizer com “diversidade genética”
Diversidade genética refere-se ao leque de diferentes versões de genes dentro de uma população. Uma mistura mais ampla dá a uma espécie mais formas de lidar com mudanças - novas doenças, alterações climáticas, habitats transformados.
Baixa diversidade não condena automaticamente uma espécie, mas reduz as suas opções. No caso do pombo de Ogasawara, o reservatório genético continua limitado, mas aparentemente não tão degradado que as aves não consigam recuperar quando as pressões externas diminuem.
“Depressão por consanguinidade” na prática
A depressão por consanguinidade acontece quando indivíduos aparentados acasalam e mutações raras e prejudiciais se tornam mais comuns na descendência. Os sintomas podem incluir:
- Menor fertilidade
- Maior mortalidade das crias
- Sistemas imunitários mais fracos
- Deformações físicas
A nova investigação sugere que o pombo-da-madeira de cabeça vermelha evitou, por agora, os piores destes efeitos. A monitorização futura mostrará se essa resiliência se mantém à medida que a população continua a expandir-se.
Lições de um futuro insular sem gatos
O projeto de Ogasawara deverá alimentar debates globais sobre o controlo de gatos assilvestrados, um tema sensível em muitos países. Os gatos ocupam um lugar querido como animais de companhia, mas também são reconhecidos como uma das principais causas do declínio de aves e pequenos mamíferos, sobretudo em ilhas.
Os cientistas envolvidos no projeto sublinham que o resultado não é um argumento de hostilidade contra gatos domésticos. Em vez disso, veem-no como um estudo de caso para gestão direcionada em locais onde a fauna nativa não tem defesas naturais contra predadores introduzidos.
Os cenários futuros agora modelados analisam como a população de pombos poderá comportar-se nos próximos 20 a 50 anos. Irá estabilizar num nível sustentável, ultrapassar os recursos alimentares disponíveis ou enfrentar novas ameaças, como ondas de calor e tufões mais fortes ligados às alterações climáticas?
Aconteça o que acontecer a seguir nessas remotas ilhas japonesas, uma mensagem sobressai: assim que os 131 gatos desapareceram, todo um ecossistema respondeu com uma rapidez e uma intensidade que até investigadores experientes não antecipavam.
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