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Ulstein apresenta novos designs de navios padronizados para a Marinha Real Norueguesa.

Homem a trabalhar em modelos de navios numa oficina com vista para um lago e montanhas ao fundo.

Por detrás das novas fragatas e submarinos que captam atenções, está a ganhar forma um projeto distinto que poderá transformar a forma como a Noruega patrulha, vigia e defende a sua extensa linha costeira e as geladas águas do norte. O projetista naval Ulstein avançou agora com a sua visão: dois tipos de navios normalizados destinados a substituir um mosaico de pequenas unidades de guerra e navios auxiliares por uma frota modular, preparada para o futuro.

A revolução naval discreta da Noruega

A Marinha Real Norueguesa e a sua componente de Guarda Costeira estão a meio de um dos maiores esforços de modernização das últimas décadas. A maioria das manchetes tem-se concentrado nas novas fragatas e nos submarinos Type 212CD, desenvolvidos em conjunto pela Alemanha e pela Noruega. Menos visível, mas possivelmente tão transformador, é o plano de adquirir até 28 novos navios “normalizados” em dois tamanhos.

Estes navios destinam-se a substituir um inventário heterogéneo que atualmente abrange doze classes diferentes. A força de hoje inclui grandes navios patrulha oceânicos (OPV), como a classe Jan Mayen e o KV Svalbard, capaz de operar no Ártico, a par de numerosas unidades menores de patrulha, caça-minas, corvetas leves e navios auxiliares.

O novo conceito pretende reunir as funções de uma dúzia de classes de navios em apenas dois modelos flexíveis e normalizados.

O objetivo do governo norueguês é ambicioso: iniciar a construção do primeiro navio em 2027 e entregar a unidade líder por volta de 2030. As autoridades esperam também que o conceito possa interessar parceiros da NATO à procura de plataformas adaptáveis e com custos controlados.

Dois navios normalizados, muitas missões

A nova família divide-se em duas categorias:

  • Navio normalizado costeiro (médio): 18 navios planeados, focados em operações junto à costa e em fiordes.
  • Navio normalizado de alto-mar (grande): 10 navios planeados, otimizados para mar aberto e operações no Ártico.

Ambas as variantes foram concebidas para apoiar um vasto leque de tarefas, em vez de um papel estreitamente definido. Em vez de caça-minas, lanchas de patrulha ou navios de instrução dedicados, a Marinha pretende um casco comum que possa mudar de função através de cargas úteis modulares.

Num dia, um navio pode executar patrulha e vigilância costeiras; no dia seguinte, pode operar drones de contramedidas de minas ou apoiar missões antissubmarino.

As principais áreas de missão descritas por responsáveis noruegueses incluem:

  • Patrulha rotineira e presença em águas nacionais
  • Informações, vigilância e reconhecimento (ISR)
  • Operações de colocação de minas
  • Contramedidas de minas, incluindo sistemas não tripulados
  • Apoio limitado à guerra antissubmarino
  • Missões de Guarda Costeira para alguns cascos selecionados

Os navios dedicados a trabalho de Guarda Costeira receberão modificações específicas, mas continuarão a poder embarcar os mesmos sistemas modulares usados pelas unidades de primeira linha da Marinha, ajudando a manter a família de projeto tão unificada quanto possível.

Ulstein e Larsnes propõem uma marinha de inspiração offshore

O interesse da indústria norueguesa no programa é amplo, com intervenientes como a Kongsberg Maritime já a tornarem pública a sua participação. A Ulstein, um peso pesado do setor offshore, anunciou em dezembro de 2025 que se associara ao estaleiro Larsnes Mek Verkstad para oferecer uma solução completa: conceção, engenharia e construção.

A Ulstein é conhecida internacionalmente pela proa invertida X-BOW, uma forma distinta que melhora o comportamento no mar e a eficiência de combustível, sobretudo em condições meteorológicas adversas. A empresa e a Larsnes entregaram 65 navios nos últimos 15 anos, com comprimentos entre 36 e 160 metros, principalmente para energia offshore e operações especializadas.

Embora nenhum dos estaleiros seja um gigante naval tradicional, ambos trazem décadas de experiência na construção de navios civis complexos e de alto desempenho para ambientes exigentes.

A parceria também aumenta a capacidade industrial da Noruega para o projeto. A Larsnes investiu nos últimos anos na ampliação e modernização do seu estaleiro, dando ao consórcio maior flexibilidade quanto a como e onde os cascos poderão ser construídos.

Os dois projetos da Ulstein: 96 m e 57 m

A proposta da Ulstein reflete o conceito de dois tamanhos da Marinha:

Variante Comprimento aproximado Principal área de operação
Navio normalizado de alto-mar (grande) 96 metros Mar aberto, Ártico e patrulhas de longo alcance
Navio normalizado costeiro (médio) 57 metros Águas costeiras, fiordes e operações junto à costa

Ambos partilham uma linguagem de projeto comum inspirada em navios offshore modernos: pontes elevadas colocadas bem à vante, grandes conveses de missão abertos à ré e amplo espaço para contentores modulares, gruas, sistemas de lançamento e recuperação e veículos não tripulados.

A Ulstein afirma que os navios estão a ser desenhados desde o início para operar um “grande número” de sistemas tripulados e não tripulados:

  • Meios de superfície, como embarcações rápidas semirrígidas e USV (veículos de superfície não tripulados)
  • Meios subaquáticos, incluindo veículos subaquáticos autónomos para guerra de minas
  • Plataformas aéreas, desde pequenos drones a aeronaves de asa rotativa maiores, onde o espaço o permitir

Modularidade e normalização como armas de controlo de custos

Operar uma frota composta por doze classes diferentes de navios é dispendioso. Cada tipo necessita da sua própria cadeia de sobressalentes, manuais, programas de formação e planos de modernização. Os comandantes noruegueses têm sido claros quanto à pressão que isto exerce sobre orçamentos e pessoal.

Ao passar para um número limitado de cascos normalizados com equipamento modular, a Marinha pretende simplificar manutenção, logística e apoio ao ciclo de vida.

O conceito reflete também uma tendência mais ampla na defesa: construir navios “plug-and-play” que possam alterar o perfil de missão através da troca de módulos, em vez de mobilizar uma classe de navio completamente diferente. Esta abordagem deverá dar à Noruega maior flexibilidade para responder a situações de segurança imprevisíveis no Alto Norte ou no Mar do Norte.

Normas civis num navio militar

Uma característica marcante da proposta da Ulstein é a forte dependência de sistemas e normas de operação civis. A Marinha pediu explicitamente esta abordagem. Utilizar tecnologias comerciais sempre que possível tende a reduzir custos de manutenção, encurtar prazos de entrega e diminuir o risco de estrangulamentos na cadeia de abastecimento.

Para a Noruega, há outra vantagem. Numa crise, marítimos civis poderiam ser mobilizados para guarnecer ou apoiar estes navios com menos reconversão do que seria necessário numa plataforma naval altamente especializada.

Estes navios estão a ser concebidos como uma ponte entre navios de guerra de alto desempenho e embarcações de trabalho offshore modernas, combinando funções militares com sistemas de estilo comercial.

As condições de vida e trabalho são também um ponto central do projeto. As guarnições deverão passar longos períodos no mar, em águas frias e exigentes. O historial da Ulstein no setor offshore, onde as regras de conforto e segurança são rigorosas, dá-lhe vantagem no desenho de alojamentos, redução de ruído e áreas de trabalho capazes de sustentar as equipas a longo prazo.

Preparar a vida após os combustíveis fósseis

A Noruega quer que estes navios permaneçam relevantes durante décadas, o que implica concebê-los para acomodar uma transição para além dos combustíveis marítimos tradicionais ao longo da sua vida útil. Este requisito entra diretamente no trabalho de integração de sistemas da Ulstein, onde energia híbrida, pacotes de baterias e combustíveis alternativos já são temas ativos no mercado comercial.

Na prática, “preparado para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis” pode significar espaço adicional e margens estruturais para futuros tanques de combustível, percursos de cablagem para baterias e arranjos flexíveis da casa das máquinas que possam receber novas tecnologias de propulsão à medida que amadurecem.

O que navios navais modulares podem realmente fazer

Para leitores habituados a navios de guerra clássicos, com armas e sensores fixos, a modularidade pode parecer abstrata. Num navio como o proposto pela Ulstein, pode traduzir-se em aspetos muito concretos.

Imagine um navio normalizado costeiro a passar a primavera e o verão a executar contramedidas de minas ao longo de uma rota de navegação movimentada. O seu convés de missão poderá estar carregado com módulos de comando em contentores, veículos subaquáticos autónomos e rampas de lançamento e recuperação para meios não tripulados. Com a chegada do inverno, o mesmo casco poderia ver grande parte desse equipamento removido e substituído por tanques de combustível adicionais, uma instalação para equipa de abordagem e um hangar de drones para patrulhas prolongadas junto de infraestruturas de petróleo e gás.

Do ponto de vista orçamental, a Marinha compra um casco e uma “caixa de ferramentas” de módulos, em vez de vários navios especializados distintos. Isso dá aos comandantes mais liberdade para reafetar capacidades à medida que as ameaças evoluem, sem se comprometerem com plataformas totalmente novas.

Riscos, compromissos e impacto regional

A normalização traz compromissos. Um navio multimissão raramente é tão otimizado como uma plataforma dedicada. Um casco de inspiração offshore convertido pode não igualar um caça-minas concebido de raiz em assinatura acústica, ou uma patrulha pura em agilidade. Os planeadores noruegueses apostam que a flexibilidade e os menores custos de operação compensam essas concessões.

Há também risco de programa. Coordenar parceiros industriais, integrar sistemas modulares de múltiplos fornecedores e alinhar normas navais e civis pode ser complexo. Atrasos ou aumentos de custos poderão reduzir o número de cascos eventualmente encomendados, o que atenuaria os benefícios da normalização.

Ao mesmo tempo, se o conceito da Ulstein resultar, poderá influenciar a forma como outras marinhas pequenas e médias pensam as suas frotas futuras. Países com longas linhas costeiras, mas orçamentos limitados, observam atentamente projetos modulares derivados do offshore como forma de manter uma presença credível no mar sem investir em grandes navios de guerra tradicionais.

Para a Noruega, cuja segurança depende do Atlântico Norte, do Mar de Barents e dos acessos ao Ártico, estes navios normalizados têm menos a ver com prestígio e mais com uma presença persistente no dia a dia. A entrada da Ulstein imprime a essa missão uma marca offshore distintamente norueguesa, combinando conhecimento de mar grosso com um estilo de conceção naval mais flexível e modular.

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