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Veja como a Terra será em 250 milhões de anos – e a França ficará numa posição privilegiada.

Pessoa a montar peças de puzzle transparentes junto a um globo e um mapa sobre uma mesa de madeira.

Os continentes derivam, os oceanos abrem e fecham, e os mapas familiares acabam por se desfazer.

Em escalas de tempo muito além da humana, a superfície da Terra está em permanente remodelação: as placas deslocam-se, bacias oceânicas nascem e outras acabam por ser consumidas. Em certos cenários, daqui a ~250 milhões de anos as massas continentais voltariam a reunir-se num supercontinente - e a Europa (incluindo a área da atual França) estaria noutra latitude, rodeada por outros “vizinhos”.

A lenta marcha rumo a um novo supercontinente

À nossa escala, os continentes parecem imóveis. À escala geológica, deslizam sobre placas tectónicas, tipicamente alguns centímetros por ano (muitas vezes ~2–10 cm/ano). Numa regra prática: 5 cm/ano ≈ 50 km por milhão de anos; em 250 milhões de anos, isso soma milhares de quilómetros.

Há cerca de 200 milhões de anos, a Pangeia começou a partir-se, abrindo o Atlântico e conduzindo ao mapa atual. Muitos geólogos consideram plausível um ciclo de supercontinentes (junção e separação ao longo de centenas de milhões de anos), mas o “como” e o “onde” do próximo rearranjo permanecem incertos.

Modelos como os do projeto PALEOMAP (Christopher Scotese) sugerem um desfecho possível: a Pangea Ultima, em que grande parte das terras atuais voltaria a colidir, formando uma única grande massa.

A Pangea Ultima é um cenário possível em que quase todos os continentes se fundem num grande supercontinente (muitas vezes descrito como uma forma de ferradura).

O que acontece aos oceanos?

Se os continentes convergirem, os oceanos não evoluem todos do mesmo modo. O elemento decisivo tende a ser onde se formam zonas de subducção (quando a crosta oceânica começa a “mergulhar” para o manto). Sem subducção, um oceano pode continuar a expandir; com subducção ativa, tende a contrair.

  • O Atlântico, que hoje está em expansão, poderia começar a fechar caso surjam (ou se intensifiquem) zonas de subducção nas suas margens.
  • As Américas aproximar-se-iam da Europa e de África, comprimindo a bacia atlântica ao longo de dezenas a centenas de milhões de anos.
  • O Índico poderia encolher e tornar-se mais semelhante a um grande mar interior, conforme se reorganizem as margens ativas.

Algumas combinações pouco intuitivas que surgem em certos modelos:

  • Cuba colada ao sudeste dos Estados Unidos
  • Gronelândia encaixada no norte do Canadá
  • Coreia apertada entre a China e o Japão
  • Partes do atual Mediterrâneo totalmente eliminadas pela colisão

À escala humana, nada disto é “rápido”: de ano para ano quase não se percebe; em centenas de milhões de anos, o resultado pode ser impossível de reconhecer.

A França desloca-se para norte - e ganha vizinhos africanos

Um traço marcante em vários cenários é o deslocamento da Europa para latitudes mais altas. A “França” do futuro (posição geográfica, não o país) ficaria mais próxima do atual Círculo Polar Ártico do que do Mediterrâneo - e isso não implica automaticamente um clima gélido, porque o contexto global pode ser muito mais quente.

Em paralelo, o Mediterrâneo - já hoje tectonicamente ativo - tende a fechar à medida que prossegue a colisão África–Europa (em muitas zonas, a milímetros até poucos centímetros por ano). Este fecho é o tipo de processo que ergue cadeias montanhosas e “espreme” mares até restarem apenas bacias residuais. Para quem lê em Portugal, o essencial é: a Península Ibérica está no tabuleiro dessa convergência, pelo que o encaixe final (montanhas, estreitos, mares remanescentes) dependeria bastante de falhas ativas e da geometria das margens.

Nesse cenário, a França poderia vir a partilhar fronteiras terrestres não só com Espanha e Itália, mas também com regiões que hoje correspondem a Marrocos, Argélia e Tunísia.

Do ponto de vista climático, deslocar-se para norte pode ser uma “vantagem relativa”: num supercontinente, o interior tende a extremos mais fortes, e a proximidade de água (mesmo que em mares menores) ajuda a moderar temperaturas e a manter algum aporte de humidade.

De Europa temperada a refúgio climático

A posição no globo condiciona o clima, e um supercontinente altera a circulação atmosférica e oceânica. Um padrão frequente em simulações é o reforço de contrastes:

  • Interior muito seco: longe do mar, a humidade tem dificuldade em chegar; menos precipitação e maiores amplitudes térmicas. (Uma distância de ~1000 km à costa já costuma “continentalizar” bastante o clima.)
  • Costas menos severas: a água suaviza picos de temperatura, mas pode aumentar tempestades e oscilações bruscas.
  • Latitude importa: latitudes médias/altas têm maior probabilidade de escapar ao pior calor persistente do interior.

Alguns trabalhos relacionam fases de montagem de supercontinentes com maior vulcanismo em certas regiões, libertando CO₂ ao longo de muito tempo. Somando um Sol gradualmente mais luminoso (alguns por cento em centenas de milhões de anos), a tendência é empurrar o planeta para um estado globalmente mais quente.

Um detalhe prático sobre “habitabilidade”: não conta apenas a temperatura do ar. Para mamíferos, calor + humidade podem ser decisivos; valores de temperatura de bulbo húmido perto de ~35 °C são muitas vezes apontados como limite fisiológico para exposição prolongada.

Região da Pangea Ultima Condições previstas
Interior do supercontinente Longos períodos acima de 40 °C, aridez severa, pouca água superficial
Faixas costeiras Quente, mais moderado por mares próximos; maior potencial de meteorologia extrema
Zonas de altas latitudes (perto da futura França) Mais ameno em termos relativos, água mais estável, maior potencial de habitabilidade

Em muitas áreas interiores, calor e secura favoreceriam desertos extensos e reduziriam a viabilidade de ecossistemas complexos. Em contraste, margens costeiras e latitudes mais altas aparecem com frequência como “refúgios” - embora o detalhe (e se inclui faixas que hoje são Portugal, Reino Unido ou Norte de África) dependa do desenho final das costas e dos mares residuais.

Vida num futuro refúgio “francês”

Se a vida complexa ainda existir e se o futuro se aproximar destes modelos, a faixa onde estaria a futura “França” poderia ser exigente, mas menos letal do que o interior do supercontinente.

A presença de mares interiores, lagos e rios (quando existem) ajuda a reduzir extremos e a manter alguma humidade. Em vez de um “clima europeu” como o atual, seria mais realista imaginar:

  • verões longos e muito quentes;
  • invernos mais curtos e, relativamente, menos severos do que nas mesmas latitudes hoje (dependendo da circulação global);
  • grande variação local, muito moldada por altitude (novas montanhas) e distância à água.

Numa Pangea Ultima maioritariamente hostil, esta zona poderia estar entre as poucas onde grandes animais e ecossistemas complexos teriam mais hipótese de persistir.

Há ainda um efeito direto do “mapa colado”: quando massas terrestres ficam ligadas por terra, abrem-se corredores de migração e mistura biológica. Isso tende a acelerar invasões de espécies, competição e mudanças rápidas de ecossistemas - um padrão repetido em várias reorganizações antigas do planeta.

Termos-chave por detrás da ciência

Alguns conceitos ajudam a interpretar estes cenários:

  • Placas tectónicas: blocos rígidos da litosfera que se movem sobre o manto; interagem por colisão, afastamento ou subducção.
  • Ciclo dos supercontinentes: alternância (com detalhes ainda debatidos) entre fases de união e fragmentação ao longo de centenas de milhões de anos.
  • Refúgio climático: zona que se mantém relativamente habitável enquanto áreas próximas se tornam demasiado quentes, secas ou instáveis.

Modelos como o PALEOMAP combinam pistas do passado (registos geológicos, paleomagnetismo) com simulações físicas. Não são “profecias”: são mapas plausíveis, condicionados pela tectónica e por suposições sobre como as margens das placas podem evoluir.

Quão sólidas são estas previsões tão distantes?

A 250 milhões de anos, a incerteza é inevitável. Pequenas diferenças hoje podem amplificar-se, por exemplo se:

  • se iniciarem novas zonas de subducção (capazes de transformar um oceano em abertura num oceano em fecho);
  • dorsais oceânicas migrarem ou se reorganizarem;
  • a dinâmica do manto redistribuir forças entre placas, alterando direções e velocidades.

Por isso, existem cenários alternativos à Pangea Ultima (supercontinentes com geometrias e “centros” distintos, ou até mais do que uma grande massa terrestre). Ainda assim, algumas ideias repetem-se: tendência para reagrupamento continental, interiores mais extremos (calor + aridez) e maior probabilidade de condições menos severas em latitudes mais altas e/ou perto de água.

Porque é que esta Terra do futuro longínquo importa hoje

Isto não é apenas curiosidade: estes exercícios ajudam a testar modelos climáticos e geodinâmicos em condições limite (circulação com supercontinentes, resposta a CO₂ de origem geológica, limites de habitabilidade).

E deixam um lembrete simples: na história longa da Terra, o “normal” é mudar. Costas deslocam-se, mares desaparecem, climas reorganizam-se. Visto assim, a rapidez da mudança climática induzida pelo ser humano - em décadas e séculos, não em milhões de anos - torna-se ainda mais evidente.

Mesmo que nenhum humano veja esse mundo, imaginar uma “França” mais a norte, ligada a terras hoje norte-africanas e relativamente menos castigada num supercontinente quente ajuda a colocar a nossa geografia na escala certa: um instante num planeta que reescreve o próprio mapa vezes sem conta.

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