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Segundo o Pentágono, a China pretende ter nove porta-aviões até 2035.

Homem de capacete aponta para um porta-aviões em construção num estaleiro ao pôr do sol.

A Marinha chinesa está a crescer a um ritmo acelerado, com efeitos que se fazem sentir do Estreito de Taiwan ao Oceano Índico.

As leituras mais recentes do Departamento de Defesa dos EUA indicam que Pequim já não pretende apenas “aproximar-se” de marinhas mais avançadas. O centro da ambição passa por uma métrica simultaneamente simbólica e operacional: quantos porta-aviões consegue manter disponíveis e em rotação, assegurando uma presença no mar sustentada.

De um “navio-casino” a uma frota de porta-aviões

A chegada da China ao clube dos porta-aviões começou de forma improvável: um casco adquirido à Ucrânia no final dos anos 1990, supostamente para ser convertido num casino flutuante em Macau.

O antigo soviético Varyag acabou rebocado para a China, reconstruído e comissionado em 2012 como Liaoning, o primeiro porta-aviões operacional do país. Opera em STOBAR (rampa “salto de esqui” + cabos de paragem): é funcional, mas tende a limitar o peso à descolagem - menos combustível e/ou menos armamento. Na prática, isto costuma reduzir o alcance efectivo, o tempo em patrulha e a flexibilidade em missões mais afastadas da costa.

Depois, a China construiu o Shandong, muito parecido, já em estaleiros nacionais. As operações combinadas dos dois (incluindo perto do Japão) mostram maturidade: deixou de ser “prova de conceito” e passou a ser rotina operacional.

Um terceiro porta-aviões eleva o patamar

O terceiro navio, o Fujian, representa um salto tecnológico. Com cerca de 80 000 toneladas e mais de 300 m, coloca a China no grupo das marinhas com CATOBAR (lançamento por catapulta, em vez de rampa).

O Fujian recorre a catapultas electromagnéticas, semelhantes ao EMALS norte-americano. O benefício prático é evidente: facilita lançar caças com mais combustível/carga e operar aeronaves de apoio mais pesadas (por exemplo, alerta aéreo antecipado), frequentemente decisivas para “ver mais longe”, gerir o espaço aéreo e sustentar patrulhas por períodos maiores.

Catapultas electromagnéticas tendem a sinalizar ambição de operações mais duradouras e longe da costa - mas trazem também mais complexidade: maior exigência energética, mais manutenção e mais treino para manter um ritmo elevado no convés.

Com três porta-aviões em serviço ou na recta final, a China já é a segunda em número de grandes navios de convés corrido, atrás dos EUA. O essencial, contudo, é a trajectória: tudo sugere que não ficará pelos três.

Pentágono: Pequim aponta para nove porta-aviões

Durante anos, muitas projecções apontavam para um objectivo de seis porta-aviões. O relatório mais recente do Pentágono indica uma meta mais ambiciosa: produzir seis até 2035, perfazendo nove.

Isso aproximaria a frota chinesa, em dimensão, da Marinha dos EUA, que opera 11 porta-aviões de propulsão nuclear (um patamar definido na legislação norte-americana como referência mínima). Ainda assim, “ter X navios” não equivale a “ter X prontos”: a disponibilidade real depende de ciclos de manutenção, tripulações e treino.

Nove porta-aviões chineses até 2035, se acompanhados por escoltas, logística e treino adequados, podem reduzir a margem de superioridade aeronaval que muitos assumiam como garantida para os EUA no Indo-Pacífico.

O relatório não detalha quantos seriam convencionais ou nucleares. Mesmo assim, imagens de fonte aberta e declarações públicas ajudam a antecipar os próximos passos.

Novos cascos nos estaleiros

Indícios de um quarto e até de um quinto porta-aviões

Imagens recentes de satélite em Dalian e Jiangnan têm sido lidas como sinais de trabalho num quarto porta-aviões e de preparação para um quinto. Em Jiangnan (perto de Xangai), parte da actividade é associada ao que alguns designam “Tipo 003A”, uma possível evolução do Fujian.

  • Estaleiro de Dalian: associado a modernizações anteriores e, possivelmente, a novos cascos
  • Estaleiro de Jiangnan: construiu o Fujian e pode avançar para uma variante melhorada
  • Propulsão nuclear: frequentemente mencionada como hipótese futura (mais autonomia e energia disponível, mas maiores exigências industriais, de segurança e de apoio em porto)

Em Março de 2024, o almirante Yuan Huazhi afirmou que a China “em breve construirá” o quarto porta-aviões e que estava a decidir sobre propulsão nuclear. A mensagem implícita é clara: estes navios não se destinam apenas à “defesa costeira”; fazem sobretudo sentido para operar a longa distância.

Porque quatro porta-aviões são um limiar crucial

No planeamento naval, quatro porta-aviões é muitas vezes o mínimo para manter um grupo de ataque com prontidão quase contínua longe de casa. Regra prática: um destacado, um a preparar, um a regressar/recuperar e um em manutenção profunda (docagens longas são inevitáveis).

Chegar aos quatro daria à China uma presença aérea de “águas azuis” mais persistente - no Pacífico ocidental, no Mar do Sul da China e, potencialmente, no Índico (rotas energéticas e estrangulamentos como Malaca).

Nove porta-aviões não significam “nove sempre no mar”. Significam mais rotação, mais redundância e a capacidade de manter vários grupos activos em simultâneo - relevante quando os EUA têm de dividir meios por vários teatros (Indo-Pacífico, Europa, Médio Oriente).

Mais do que cascos: uma ala aérea a amadurecer rapidamente

O casco, por si só, não é poder. O que define a utilidade de um porta-aviões é a ala aérea (aeronaves, sensores, armamento), o ritmo de operações no convés e a integração com escoltas e reabastecimento no mar.

Segundo o Pentágono, a PLAN está a acelerar a modernização das aeronaves embarcadas, incluindo:

  • J-15T: caça adaptado a catapulta (relevante para CATOBAR)
  • J-15DT: guerra electrónica (interferência e supressão de defesas)
  • J-35: projecto furtivo embarcado
  • Z-20: helicóptero anti-submarino (protege o grupo contra submarinos)
  • KJ-600: alerta aéreo antecipado (multiplica o alcance de detecção e coordenação)

Além disso, no fim de 2025 surgiram imagens do que parece ser uma maqueta de drone de combate com capacidade de operar a partir de navios, por vezes descrito como UCAV “Tipo C”, no convés do navio de assalto anfíbio Sichuan.

A diferença entre “ter porta-aviões” e “projectar poder” costuma residir nos factores menos visíveis: qualificação de pilotos, equipas de convés, manutenção, logística e integração com defesa aérea em camadas, submarinos e satélites.

Navios anfíbios que esbatem as fronteiras

Tipo 076: um navio de assalto com catapulta

O Sichuan é apontado como o primeiro navio de assalto anfíbio Tipo 076 e aparenta ir além de um porta-helicópteros tradicional. Há indícios de que integra uma catapulta electromagnética concebida para lançar drones.

Na prática, isto pode criar um “porta-aviões ligeiro” centrado em não tripulados, sem abdicar da função anfíbia (fuzileiros, meios de desembarque e helicópteros). Ao operar ao lado de um porta-aviões de tamanho completo, um navio deste tipo pode acrescentar vigilância, reconhecimento e ataques de oportunidade - sem consumir tanto tempo de convés do navio principal.

A tendência, dito de forma simples: porta-aviões “grandes” para caças e alerta antecipado; navios de apoio para aumentar a persistência com drones (e, possivelmente, guerra electrónica).

Ondas de choque estratégicas no Indo-Pacífico

Uma frota chinesa de nove porta-aviões alteraria a aritmética do Indo-Pacífico: mais navios significam mais presença e maior capacidade de gerir crises em paralelo. Os EUA continuariam a operar porta-aviões nucleares experientes, mas a disponibilidade real (manutenção, rotação, distâncias) pesa muito.

Outra diferença é a geografia. Washington distribui porta-aviões por compromissos globais; Pequim, pelo menos por agora, consegue concentrar mais meios no Pacífico ocidental e no Índico - regiões críticas para o comércio marítimo e para cadeias de abastecimento que também afectam economias europeias, incluindo Portugal.

Potências regionais ajustam-se. Índia, Japão e Austrália avaliam como operar sob patrulhas mais regulares de porta-aviões chineses, sobretudo perto de estrangulamentos (como Malaca) e em áreas disputadas do Mar do Sul da China.

Termos-chave que moldam o debate

Alguns acrónimos surgem com frequência e ajudam a perceber diferenças práticas:

  • STOBAR: descolagem com rampa; aterragem com cabos. Mais simples, mas limita peso/alcance e dificulta certas aeronaves de apoio.
  • CATOBAR: lançamento por catapulta; aterragem com cabos. Mais complexo, mas permite aviões mais pesados e maior flexibilidade.
  • EMALS: catapulta electromagnética; tende a oferecer mais controlo no lançamento e menos esforço estrutural, mas aumenta exigências eléctricas, de manutenção e de fiabilidade.

A transição de STOBAR para CATOBAR (especialmente com EMALS) costuma indicar ambição de operações mais completas: mais tipos de aeronaves, maior alcance efectivo e melhor controlo do espaço aéreo em torno do grupo naval.

Cenários: o que nove porta-aviões chineses poderiam realmente fazer

Modelos comuns sugerem dois ou três porta-aviões focados em contingências ligadas a Taiwan e ao Mar da China Oriental, apoiados por aviação baseada em terra. Outros poderiam manter presença no Mar do Sul da China para vigiar ilhas artificiais e rotas comerciais.

No Índico, porta-aviões adicionais poderiam apoiar interesses chineses perto do Paquistão, no Golfo de Áden e ao longo de rotas energéticas do Médio Oriente e de África. Em tempo de paz, também podem ser usados para evacuações e resposta humanitária - usos comuns de grandes plataformas.

O travão é menos “construir cascos” e mais sustentar a força. Um porta-aviões quase nunca opera sozinho: precisa de escoltas (tipicamente vários contratorpedeiros/fragatas, muitas vezes um submarino) e de pelo menos um navio logístico para reabastecimento no mar. E o factor mais lento é humano: formar pilotos para operações embarcadas e equipas de convés leva anos; a proficiência chega com muitas saídas, qualificações e ciclos completos de manutenção e regresso ao mar.

Para os vizinhos, a questão decisiva não é apenas quantos porta-aviões a China terá, mas com que consistência consegue operá-los como grupos de ataque completos - e quão bem outras marinhas conseguem detectá-los, segui-los e dissuadi-los em mares cada vez mais disputados.

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