A velha central a carvão na periferia da cidade tinha um zumbido constante, quase doméstico. Até que, num dia banal, os portões se fecharam e apareceu um aviso a falar de “requalificação na economia verde”. Para quem ali trabalhava, aquilo não soou a amanhã - soou a fim.
Uma parte do debate climático deixou de dizer “transição” e começou a dizer “corte”. Na leitura mais dura: a solar teria de tomar conta de quase tudo, depressa, e quem vive dos fósseis fica para trás.
Em Portugal, isto está longe de ser teoria. O encerramento das centrais a carvão de Sines e do Pego mostrou como a mudança pode ser veloz no setor elétrico - e, ao mesmo tempo, lenta e desigual no emprego e na economia local.
Quando o sol se torna uma linha de batalha
A paciência encurtou porque os impactos ficaram impossíveis de ignorar: mais ondas de calor, incêndios maiores, anos seguidos de recordes. Isso empurra a conversa para os extremos.
Um grupo em crescimento troca “transição energética” por “triagem energética”: tirar os fósseis do sistema como opção “normal”, não apenas diminuir. O argumento do “só solar” (ou “quase só solar”) é direto: a fotovoltaica está entre as tecnologias mais rápidas de fabricar e instalar à escala - sobretudo em telhados, parques de estacionamento e grandes parques.
Mas há um embate com o mundo real:
- A solar acelera (telhados, autoconsumo, parques).
- O consumo de petróleo, gás e carvão mantém-se elevado em muitos países - e, em Portugal, os fósseis ainda pesam muito nos transportes e em parte da indústria.
Daí a metáfora da guerra: duas trajetórias ao mesmo tempo. E, no meio, trabalhadores e regiões que passam de “coluna vertebral” a “problema”.
Um detalhe que os slogans deixam de fora: “só solar” não é apenas montar painéis. Pede rede e flexibilidade. Na prática, cenários ambiciosos dependem de:
- armazenamento (baterias para horas; noutras soluções, para períodos mais longos),
- gestão da procura (deslocar consumos para horas com sol, quando possível),
- reforço e digitalização da rede (inclui ligações e capacidade de escoamento),
- e, muitas vezes, outras renováveis e alguma capacidade de apoio enquanto o sistema ganha robustez.
Regra prática útil: em Portugal, 1 kWp bem instalado produz muitas vezes na ordem de 1 500–1 800 kWh/ano (varia muito por zona, sombreamento e orientação). Ou seja, a energia pode crescer depressa - mas a potência instalada, por si só, não resolve as horas sem sol nem os estrangulamentos da rede.
A linguagem de “danos colaterais” pode funcionar em conferências. Em cidades monoindustriais, costuma gerar resistência imediata.
Como uma guerra necessária se sente quando o teu trabalho é o campo de batalha
O plano “solar primeiro” costuma fazer sentido no papel: telhados adequados, parques de estacionamento, terrenos degradados (brownfields), zonas industriais desativadas e só depois grandes extensões de solo.
Na rua, o que conta é estabilidade:
- Empregos fósseis tendem a ser contínuos (turnos, manutenção, operação).
- Muitos empregos na solar são por obra: picos na construção e menos postos permanentes na operação (O&M).
E há um choque de vida real: requalificação não é um cartaz. Para muita gente, “voltar a estudar” aos 45–55, com contas e família, é impraticável sem apoio a sério: rendimento durante a formação, transporte, horários compatíveis e reconhecimento de competências.
Erros frequentes que corroem confiança:
- Prometer “os mesmos salários” sem explicar onde, quando e em que funções.
- Anunciar fundos e depois atrasar a execução (o intervalo entre anúncio e obra é onde se perde a adesão).
- Subcontratar em cascata, apertando salários, segurança e progressão.
- Tratar comunidades como estatística (“ativos encalhados”), ignorando comércio local, habitação e serviços.
E há uma dimensão prática que raramente se diz: uma central solar grande ocupa espaço. Como regra de bolso, muitos parques fotovoltaicos precisam de cerca de 1,5–2,5 hectares por MWp (depende do layout e da tecnologia). Isso aumenta a pressão para escolher bem o local, planear acessos e negociar com transparência com quem vive e trabalha no território - incluindo impactos em agricultura, paisagem e biodiversidade.
Encontrar um caminho que não seja apenas vencedores e vencidos
As abordagens mais eficazes nas renováveis têm trocado moralismo por engenharia social e económica. Na prática, tende a funcionar melhor quando combina proximidade, previsibilidade e poder local.
O que costuma resultar melhor no terreno:
Projetos perto de onde os empregos se perdem
Mapear encerramentos (centrais, refinarias, serviços associados) e atrair novos projetos para um raio compatível com deslocações diárias. A distância mata transições: obriga a mudar de casa, escola e rede familiar.Pacotes realistas, não simbólicos
Reforma antecipada para quem está perto da idade, complementos salariais temporários e requalificação paga com prática em obra/empresa. Sem rendimento durante a formação, a adesão cai.“Transição justa” como condição do licenciamento e dos incentivos
Quando há benefícios públicos (leilões, incentivos, facilitação), ligar parte disso a métricas locais: contratação na região, formação certificada, compras a fornecedores locais e participação em autoconsumo/Comunidades de Energia quando fizer sentido.
Ponto pouco glamoroso, mas decisivo: qualidade e segurança do trabalho. A solar é limpa na operação, mas o trabalho não é “leve”: alturas, eletricidade, calor, poeiras, movimentação de cargas. Pressa sem formação e fiscalização aumenta acidentes - e ressentimento. Boas práticas básicas que evitam problemas: trabalho em altura com linhas de vida, procedimentos de bloqueio/etiquetagem em eletricidade, e planeamento de cargas/levantamento para reduzir lesões.
“Chamar ‘danos colaterais’ aos trabalhadores não é apenas cruel, é uma política estúpida”, diz um economista da energia que passou 20 anos a modelar sistemas elétricos. “Se queres que a solar vença, não transformas uma classe inteira de trabalhadores qualificados em inimigos. Contratas essas pessoas, ouves essas pessoas, deixas que coautorem o futuro.”
Redirecionar competências, não apenas a retórica
Segurança industrial, manutenção, eletricidade, trabalho por procedimentos e cultura de operação transferem bem para redes, subestações, O&M de parques renováveis e armazenamento.Financiar comunidades, não só empresas
Garantir lastro local: centros de formação, contratos de aprendizagem, e projetos com benefício direto na fatura quando aplicável (por exemplo, modelos de autoconsumo partilhado).Deixar de tratar rapidez e justiça como inimigas
A urgência climática é real, mas o bloqueio político também. Ignorar o impacto social costuma atrasar licenças, obras e aceitação.
Viver com um futuro que queima menos, mas ainda dói
A escolha não é confortável: continuar a queimar fósseis e aceitar impactos crescentes, ou acelerar a eletrificação e instalar mais solar e armazenamento, aceitando que carreiras e cidades mudam depressa demais para ser indolor.
Mesmo com a direção clara, há três trade-offs que vale admitir sem slogans:
- Intermitência: o sol não brilha de noite; sem rede, armazenamento e gestão de consumo, a promessa falha nas horas críticas.
- Cadeias de fornecimento: fabricar, transportar e instalar à escala necessária exige capacidade industrial, mão de obra e planeamento - não apenas vontade política.
- Fim de vida: muitos painéis duram 25–30 anos; reciclagem e gestão de resíduos têm de ser planeadas desde o início (incluindo responsabilidades de recolha e tratamento).
Um futuro “quase só solar” não precisa de ser erguido sobre pessoas descartadas. Mas isso exige uma decisão tão séria quanto a tecnológica: tratar trabalhadores e territórios como parte do sistema energético - não como efeito colateral.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| “Só solar” não é uma ideia marginal (mas é um extremo) | Há cenários que apontam para um domínio muito alto da solar, normalmente com armazenamento, rede reforçada e outras renováveis a apoiar | Explica por que o tom ficou urgente - e por que a discussão real é mais complexa do que “painéis em todo o lado” |
| Os trabalhadores sentem-se retratados como descartáveis | O debate transforma fechos e despedimentos em números; para as localidades, é identidade, comércio e futuro dos filhos | Dá contexto à resistência e ao voto “contra” políticas climáticas, mesmo onde há consenso sobre o problema |
| Uma transição justa é uma ferramenta estratégica | Requalificação paga, investimento local e regras de contratação reduzem reação adversa e aceleram execução | Mostra como “acelerar” pode depender de tratar bem quem perde com a mudança |
FAQ:
- Pergunta 1 Os especialistas estão mesmo a dizer que a energia solar deve ser a única fonte de energia?
Alguns usam isso como objetivo-limite para cortar emissões depressa. Mas muitos cenários considerados mais executáveis apontam para a solar como pilar principal, acompanhada de outras renováveis, armazenamento, rede mais forte e medidas de flexibilidade.
- Pergunta 2 O que acontece aos trabalhadores do petróleo, do gás e do carvão num mundo “só solar”?
Sem política ativa, muitos perdem rendimento e estatuto. Com uma transição bem desenhada, parte das competências migra para redes, armazenamento, renováveis, construção industrial e manutenção - mas raramente de forma automática e quase sempre com perdas temporárias se não houver ponte (rendimento/formação/colocação).
- Pergunta 3 Não poderíamos simplesmente usar uma mistura de fontes de energia?
Na prática, é isso que quase todos os países fazem. A discussão é sobre velocidade e sobre quanto tempo os fósseis continuam “no menu” como resposta a preços, crises e ciclos eleitorais.
- Pergunta 4 Há alguma prova de que os programas de “transição justa” funcionam mesmo?
Tendem a funcionar melhor quando começam antes do fecho, têm financiamento suficiente, garantem rendimento durante a formação e criam empregos próximos. Quando são tardios, burocráticos ou subfinanciados, falham mais vezes - e deixam desconfiança para a próxima promessa.
- Pergunta 5 O que podem as pessoas comuns fazer para lá de se sentirem culpadas pelo seu consumo de energia?
Focar no que muda o sistema: eficiência (isolamento, controlo de consumos), eletrificação quando fizer sentido (ex.: bomba de calor, cozinha elétrica), autoconsumo/Comunidades de Energia quando viável, e pressão local por projetos com benefícios e emprego na região - não só megawatts no mapa.
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