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O Pentágono afirma que a Marinha chinesa terá seis porta-aviões até 2035.

Oficial naval analisa mapa numa base militar marítima com porta-aviões e aviões ao fundo.

Pequim está a produzir navios a uma velocidade que alarma estrategas militares e volta a colocar a pergunta no centro do debate: de que forma isto pode mexer no equilíbrio de poder na Ásia até meados da próxima década?

O Departamento de Defesa dos EUA calcula que a China possa ter pelo menos seis porta-aviões operacionais até 2035. O número, por si só, diz pouco sem enquadramento: capacidade industrial, maturidade tecnológica (catapultas e aviação embarcada) e, acima de tudo, a aptidão para sustentar grupos de ataque completos, bem treinados e prontos para uma crise.

De frota costeira a potência de porta-aviões

Nas últimas duas décadas, a marinha chinesa expandiu-se mais rapidamente do que qualquer outra grande frota. De uma orientação maioritariamente costeira, passou a actuar mais longe: escoltas no Golfo de Áden, presença no Pacífico e exercícios com maior alcance.

Os porta-aviões são o símbolo mais visível dessa mudança - e revelam uma evolução por “degraus”:

  • Liaoning: casco soviético modernizado, usado sobretudo para treino e desenvolvimento de doutrina.
  • Shandong: o primeiro construído na China, ainda com rampa (ski-jump), o que tende a limitar carga útil/combustível na descolagem.
  • Fujian: salto industrial e tecnológico, pensado para operações mais intensas.

O Fujian é o primeiro porta-aviões chinês concebido desde a quilha para operar com catapultas electromagnéticas.

O essencial não é “mais um navio”, mas a transição de uma capacidade parcialmente experimental para um modelo que pode ser repetido. A leitura do Pentágono apoia-se no que se observa em estaleiros como Dalian e Jiangnan (perto de Xangai): infraestrutura, cadência e sinais de continuidade.

Porque é que o Pentágono considera realista chegar aos seis

Os analistas não começam do nada. Imagens de satélite e padrões de actividade industrial têm mostrado movimentação de grandes secções de casco, gruas de grande capacidade e docas secas ajustadas a navios de combate de grande porte.

A cronologia do Fujian - lançamento em 2022, início de provas de mar em 2024 e possível entrada ao serviço por volta de 2025 - aponta para uma China a aproximar construção, integração e testes de um ritmo mais “normalizado”. Ainda assim, “lançar” não é “operar”: a prontidão efectiva depende de testes, manutenção e treino, e pode derrapar vários anos.

A projecção de seis porta-aviões até 2035 baseia-se numa ideia: a China pode passar de protótipos feitos à medida para um desenho padronizado e repetível.

O cenário subjacente sugere um novo porta-aviões a cada 4–5 anos. É ambicioso, mas compatível com a escala da construção naval chinesa. O mais difícil costuma surgir depois da entrega: integrar sistemas, treinar equipas e mantê-las em operações longas sem que a disponibilidade se degrade.

Três camadas por detrás do número de manchete

Falar em “seis porta-aviões” só faz sentido se separarmos três camadas:

  • Base industrial: Dalian e Jiangnan conseguem cumprir prazos e preservar qualidade em cascos grandes?
  • Tecnologias‑chave: catapultas, cabos de paragem, elevadores, sensores e a própria aviação embarcada amadurecem sem atrasos?
  • Emprego operacional: existem escoltas, logística e tripulações suficientes para grupos de ataque completos e sustentados?

A primeira camada tende a ser a mais robusta: construção modular e aprestamento em paralelo encurtam ciclos.

As outras duas é que determinam se “seis cascos” correspondem a seis plataformas credíveis. Uma regra prática comum em marinhas com porta-aviões: para manter 1 continuamente disponível, muitas vezes são necessários 2–3 (um em missão, um a preparar/treinar, um em manutenção). Além disso, manutenções profundas podem retirar um navio de linha por muitos meses, pesando mais do que o total nominal.

Fujian: um caso de teste decisivo

O Fujian é determinante porque reúne, de uma só vez, tecnologias que a China ainda não consolidou no mar a esta escala. As catapultas electromagnéticas e um convés maior podem:

  • lançar aeronaves mais pesadas (mais combustível, sensores ou armamento);
  • aumentar a cadência de operações, se a fiabilidade for elevada;
  • permitir certos tipos de aeronaves (por exemplo, alerta antecipado de asa fixa), difíceis de operar com ski‑jump.

O desafio está na fiabilidade e na integração. A experiência dos EUA com sistemas electromagnéticos indica que a afinação pode levar tempo (software, gestão de energia, desgaste, compatibilidade com diferentes aeronaves), afectando disponibilidade e custos. Com propulsão convencional, a gestão de energia e a redundância eléctrica tornam-se ainda mais críticas.

Se a China estabilizar os sistemas do Fujian em poucos anos, os porta-aviões seguintes tendem a acelerar graças à repetição e à padronização.

Em paralelo, a China testa aeronaves embarcadas como o caça furtivo J‑35 e plataformas de alerta antecipado. O “gargalo” menos visível é humano: qualificar pilotos e equipas de convés exige tempo e repetição (centenas de ciclos de descolagem/aterragem ao longo da formação), além de uma cadeia de manutenção capaz de aguentar mar aberto. Muitas marinhas aprendem isto da forma mais dispendiosa: o navio pode estar pronto antes de a asa aérea estar realmente madura.

Para além do porta-aviões: escoltas, submarinos e logística

Um porta-aviões eficaz é um sistema de sistemas. Um grupo de ataque precisa de defesa aérea, guerra anti‑submarina, submarinos de protecção, reabastecimento no mar e comando/controlo bem treinado. Precisa também de rotação de tripulações e manutenção em terra; sem isso, a fadiga e as falhas acumulam-se.

A China reforçou escoltas (Type 052D e Type 055) e navios de reabastecimento (Type 901), mas juntar tudo em operações longas e repetíveis é o “teste de realidade”. É comum observar avanços em exercícios e, ao mesmo tempo, dificuldades em coordenação multi‑navio, disciplina de comunicações e sustentação logística longe de bases.

Componente Função num grupo de porta-aviões chinês
Contratorpedeiros (Type 052D/055) Defesa aérea/antimíssil e comando
Fragatas Guerra anti-submarina e escolta próxima
Submarinos de ataque Protecção avançada e negação de área
Navios reabastecedores Sustentar operações (combustível, munições, mantimentos)
Aeronaves de patrulha marítima Vigilância e apoio à designação de alvos

Mesmo com seis porta-aviões, o número verdadeiramente projectável “longe de casa” pode ser bastante menor se faltarem escoltas, navios logísticos suficientes ou treino ao nível de grupo.

Impacto estratégico na Ásia e além

Seis porta-aviões chineses não equivalem aos 11 porta-aviões nucleares dos EUA, mas podem alterar cálculos regionais. O efeito vem menos da comparação directa e mais da capacidade de manter presença em vários pontos ao mesmo tempo (por exemplo, Taiwan, Mar do Sul da China e linhas para o Índico) e de forçar adversários a dispersar meios.

Os vizinhos ajustam planos: o Japão adapta navios da classe Izumo para operar F‑35B; a Coreia do Sul debate um porta-aviões ligeiro; a Índia considera um terceiro porta-aviões. Para Portugal, o impacto é sobretudo indirecto: maior competição naval em rotas críticas pode aumentar o risco de interrupções comerciais, pressionar compromissos em alianças (NATO/UE) e alimentar debates sobre investimento em vigilância marítima, ciberdefesa e protecção de infra‑estruturas portuárias e cabos submarinos.

A expansão do poder de porta-aviões chinês tende a empurrar Estados asiáticos para mais investimento em defesa e parcerias de segurança mais apertadas.

Para Washington, a questão central é “como serão usados”. Patrulhas mais regulares e mais distantes (por exemplo, Pacífico ocidental e Índico) aumentam custos e complexidade para EUA e aliados, mesmo sem confronto directo.

Cenários para 2035

Existem vários caminhos plausíveis até 2035:

  • Expansão de alto nível: seis ao serviço; quatro com elevada prontidão e asas aéreas modernas; dois mais focados em treino/segunda linha.
  • Sucesso misto: quatro a cinco navios, mas limitações técnicas (catapultas, aeronaves, manutenção) a reduzir cadência e disponibilidade.
  • Expansão abrandada: economia, sanções ou problemas técnicos atrasam calendários, ficando a China com três a quatro operacionais e outros em construção.

A diferença entre cenários não é “prestígio”: é tempo de reacção numa crise. Mais prontidão e rotação significam menos aviso para adversários e mais opções para Pequim.

Termos-chave e enquadramento para não especialistas

Um porta-aviões é uma “base aérea flutuante”: transporta aeronaves e permite operar sem depender de pistas em terra, aumentando alcance e flexibilidade - mas também exige uma bolha de protecção e uma logística pesada.

Dois termos ajudam a ler notícias sem cair em números vazios. “Grupo de ataque de porta-aviões” (carrier strike group) é o conjunto que acompanha o navio (escoltas, submarinos, logística e, muitas vezes, apoio aéreo). “Cadência de surtidas” (sortie rate) é quantas missões consegue lançar e recuperar num período - frequentemente mais decisivo do que o número total de aviões “em catálogo”.

Também importa a propulsão. Em geral, assume-se que os porta-aviões chineses actuais são convencionais (não nucleares): dependem mais de reabastecimento de combustível e de uma cadeia logística consistente, sobretudo longe de bases. Os nucleares oferecem maior autonomia energética e podem sustentar sistemas intensivos, mas são mais complexos, caros e exigentes em construção, manutenção e segurança.

Riscos, limites e potenciais erros de cálculo

Crescer depressa traz riscos para Pequim e para rivais. Um erro comum é confundir entrada ao serviço com maturidade operacional: um navio novo pode passar anos a corrigir falhas e a treinar equipas antes de ser plenamente utilizável. O inverso também acontece: adversários podem subestimar a rapidez com que uma marinha aprende quando tem escala industrial e prática constante.

Há ainda custo de oportunidade: porta-aviões exigem investimento contínuo (navio, aviões, treino, manutenção, escoltas e combustível). Se a economia abrandar, a marinha terá de equilibrar porta-aviões com alternativas como submarinos, mísseis antinavio e capacidades cibernéticas, muitas vezes mais baratas e com efeito dissuasor imediato.

O maior perigo continua a ser a má interpretação. Mais navios e mais operações em espaços disputados aumentam a probabilidade de incidentes e escaladas por erro humano, falhas de comunicação ou leitura errada de intenções.

Por agora, a previsão do Pentágono é sobretudo uma hipótese de planeamento, não um número “fechado”. Mesmo que a China não chegue aos seis, a trajectória é clara: os porta-aviões tendem a pesar mais no equilíbrio marítimo asiático - e, por arrasto, na segurança e no comércio globais - durante muitos anos.

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