Saltar para o conteúdo

Entre drones e mísseis, a China aposta neste novo tanque com IA para dominar zonas de conflito extremo.

Tanque avançando na neve com drone a sobrevoar, montanhas ao fundo.

Um exercício de fogo real no inverno com uma mensagem

O carro, referido na imprensa chinesa como Type 99B, foi exibido num exercício de tiro real a 11 de dezembro de 2025, sob frio intenso, com a CCTV a registar disparos e procedimentos.

Mais do que uma prova de armamento, tratou-se de um recado político-militar: a China quer ser percebida como capaz de empregar blindados modernos em cenários onde drones, munições de precisão e vigilância contínua tornam a “força bruta” menos determinante.

A China apresenta o Type 99B como um centro digital de combate, e não apenas como um canhão sobre lagartas, sinalizando a transição para uma guerra totalmente em rede.

A sequência - presença em contexto cerimonial em setembro e, depois, “em ação” em dezembro - reforça a narrativa de combinar massa com software. O timing também conta: tensões na fronteira do Himalaia e a reavaliação global do papel dos carros de combate após perdas expressivas na Ucrânia, muitas delas ligadas a drones e a ataques pelo topo.

De monstro de aço a nó em rede

À primeira vista, corresponde ao perfil clássico de carro pesado: cerca de 50 toneladas (os números variam conforme a fonte), canhão de 125 mm de alma lisa e carregador automático, uma solução comum em projetos russos e chineses.

A diferença, a confirmar-se o que é anunciado, está na arquitetura digital: sensores, fusão de dados e ligações que o permitem atuar como “nó” de um sistema maior - útil, mas também dependente de comunicações, energia e manutenção.

Construído para a era dos drones e dos mísseis

O 99B é divulgado como resposta a uma ameaça que muitas vezes vem de cima e à distância: drones baratos, munições vagueantes e mísseis de ataque pelo topo. Em vez de apenas “aguentar”, a prioridade passa a ser detetar cedo, iludir sensores e reduzir o intervalo entre ver–decidir–disparar.

Principais elementos descritos:

  • Câmaras e sensores para cobertura a 360°
  • Aquisição de alvos com apoio de IA (triagem/priorização)
  • Ligações de dados encriptadas para partilha de alvos e do estado do veículo
  • Contramedidas eletrónicas e iscos para confundir drones e guiamento inimigo

Na prática, existem trade-offs: mais eletrónica implica maior consumo elétrico, mais pontos de falha e maior exigência logística (peças, calibração, diagnósticos). E a guerra eletrónica é um jogo de “medida–contramedida”: o jamming pode degradar sensores e comunicações, forçando o carro a recorrer a procedimentos mais tradicionais.

A filosofia de desenho passa de “sobreviver por ser mais difícil de destruir” para “sobreviver por ser mais difícil de detetar, atingir e acompanhar”.

A ideia aproxima-se do caminho seguido por vários exércitos (por exemplo, com proteção ativa, melhores óticas e integração em rede), mas com uma realidade inescapável: sem treino e doutrina para explorar a informação a tempo, a tecnologia acrescenta pouco.

Concebido especificamente para terreno extremo

Aqui, o destaque não é apenas o armamento, mas o teatro de operações: altitude, frio e acessos difíceis.

Um carro para o Himalaia

A China tem enfatizado a “capacidade em grande altitude”, com referência implícita à fronteira com a Índia: pouco oxigénio, estradas frágeis, gelo e elevado desgaste mecânico. Em altitude, motores podem perder potência de forma marcada (sobretudo sem otimização/turbo e boa gestão térmica), e baterias/eletrónica sofrem mais com o frio.

O foco alegado inclui:

Característica Objetivo em zonas extremas
Motor afinado para ar rarefeito Preservar mobilidade em altitudes elevadas (frequentemente acima dos 4.000 m)
Sensores resistentes ao frio Manter o funcionamento de câmaras, lasers e eletrónica no inverno rigoroso
Rácio blindagem/peso otimizado Evitar massa excessiva em encostas, pontes e estradas limitadas

Um erro frequente nestes cenários é assumir que “basta levar o mesmo carro”: em vales estreitos, a logística (combustível, recuperação, evacuação) e a disponibilidade efetiva do material podem ser tão decisivas quanto a proteção.

Como a IA muda o que um carro de combate faz

O exército chinês descreve o 99B como parte de um ciclo contínuo de recolha e distribuição de dados - mais do que uma plataforma isolada.

De caçador solitário a jogador de equipa

Em carros mais antigos, o atraso entre deteção e ação podia ser significativo: visibilidade limitada, rádios com pouca largura de banda, pouca partilha de imagem. A promessa agora é a fusão de sensores (ópticos/termográficos, possivelmente radar e alertas) para acelerar decisões e reduzir a carga mental da tripulação.

Em teoria, a IA pode:

  • Detetar mais cedo ameaças rápidas (incluindo drones) e ordenar por prioridade
  • Sugerir manobras com base em terreno/ameaça (sem substituir o julgamento humano)
  • Enviar coordenadas para apoio (artilharia, drones, outras viaturas) para engajar além da linha de vista

O carro passa a ser um posto de comando móvel, transmitindo coordenadas de alvos para mísseis ou drones, em vez de apenas disparar o seu próprio canhão.

A parte difícil é o “mundo real”: dados incompletos, falsos positivos e interferência. A regra prática é simples: quanto mais automatizado, mais importantes são limites claros (quando confiar, quando confirmar) e treino para operar em modo degradado.

Uma peça-chave no roteiro militar da China para 2035–2050

Pequim tem metas públicas: modernização até 2035 e capacidades de topo a meio do século. Um carro como o 99B encaixa como símbolo e instrumento: operar sob vigilância constante, com fogos de precisão e ameaça aérea de baixa cota.

A corrida é global. Programas europeus como o MGCS pretendem também integrar IA, sensores e conectividade na década de 2030, embora com calendários dependentes de decisões políticas e industriais.

O que ainda não sabemos

Muitos detalhes críticos continuam pouco claros: grau real de autonomia, robustez das comunicações sob jamming, maturidade da proteção ativa, integração com drones e níveis de cibersegurança.

Há especulação sobre interfaces avançadas (por exemplo, comandos por voz em funções não críticas) e encriptação “de nova geração”, mas sem confirmação pública fiável é prudente tratar como hipótese.

A opacidade deliberada faz parte do efeito da arma: a incerteza obriga potenciais adversários a assumir que o sistema pode ser mais capaz do que aparenta.

O mais plausível é a lógica de evolução incremental: manter um casco/arquitetura conhecidos e acelerar a entrada em serviço com um pacote de sensores, software e ligações de dados - com ganhos mais rápidos, mas sem eliminar vulnerabilidades estruturais.

Riscos, limites e cenários possíveis

Blindados “orientados por IA” trazem riscos evidentes:

  • Dependência de eletrónica e rede: sem comunicações, a consciência situacional degrada-se e a coordenação diminui; por isso, modos de operação degradados (procedimentos “analógicos”) continuam a ser essenciais.
  • Guerra eletrónica e ciber: jamming pode cegar sensores e cortar ligações; ataques à cadeia logística/atualizações podem ser tão perigosos quanto um míssil.
  • Proteção ativa e fricção no terreno: sistemas “hard-kill” podem aumentar a sobrevivência, mas podem criar perigos para infantaria muito próxima e exigem regras de emprego bem treinadas.
  • Fator humano: automação ajuda, mas não substitui identificação correta; erros de classificação e excesso de confiança no sistema são falhas recorrentes em ambientes complexos.

Num cenário de grande altitude, um confronto entre unidades com carros modernos e apoio de drones dependeria muitas vezes de quem integra melhor informação, fogos e manobra - e de quem mantém mais viaturas operacionais apesar do frio, da altitude e do desgaste.

Conceitos-chave por trás do Type 99B

Para leitores que não dominam o jargão de defesa, alguns termos ajudam a enquadrar.

  • Guerra centrada em rede: ligar unidades (viaturas, infantaria, sensores, comando) para partilhar dados e reduzir tempos de reação.
  • Consciência situacional (situational awareness): compreender o que acontece agora e o que pode acontecer a seguir, com base em sensores e contexto.
  • Sistemas de proteção ativa: sensores e lançadores que tentam detetar e neutralizar ameaças antes do impacto (não são “escudos mágicos”; podem falhar e exigem integração).
  • Munições vagueantes: drones armados que patrulham uma área e atacam quando surge um alvo.

Em conjunto, a aposta do 99B parece menos “mais blindagem” e mais “melhor informação, melhor coordenação e maior sobrevivência” - sobretudo em terreno extremo, onde falhar comunicações, energia ou manutenção pode ser tão decisivo quanto falhar um disparo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário