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Promessas falhadas: muitos condutores que acreditaram poupar com carros elétricos sentem-se traídos, zangados e pensam abandonar a transição verde.

Carro desportivo verde metalizado em exposição, ao lado de um carregador elétrico, no interior de um salão iluminado.

Num fim de manhã cinzento, Daniel encosta o seu SUV elétrico (2 anos) numa área de serviço. Bateria a 8%. À frente, três carros na fila do “ultra-rápido”. O café arrefece, os miúdos atrasam-se e, na app, o preço final volta a ser mais alto do que ele esperava quando assinou o leasing em 2022.

Em 2021–2022, a história parecia simples: conduzir mais barato, menos manutenção, eletricidade “barata”, menos impostos e a sensação de fazer a escolha certa. Hoje, muitos veem outra mistura: seguros a subir, preços domésticos menos previsíveis, carregamento público com taxas e regras diferentes, e pequenos custos que “não contavam” - mas contam.

O que se quebra, muitas vezes, não é o carro. É a confiança na promessa.

Quando a promessa de condução barata e limpa começa a desmoronar

A frustração costuma aparecer na conta ao fim do mês, não no painel. Muita gente fez contas “de catálogo”: sem combustível, menos peças, incentivos e (em Portugal, pelo menos por agora) vantagens fiscais como isenção de IUC para 100% elétricos. Com isso, esticou-se: prestação mais alta, prazo maior, carro acima do que compraria a gasolina - com a ideia fixa de “isto paga-se com as poupanças”.

Passados 1–2 anos, a realidade depende sobretudo de como e onde carrega:

  • Se carrega em casa, especialmente em bi-horária no vazio, o custo por km muitas vezes continua competitivo.
  • Se depende de carregamento público, em particular rápido em autoestrada, o custo por kWh (e as taxas associadas) pode aproximar o custo por 100 km ao de um híbrido eficiente - com mais incerteza.

Regra prática (rápida e honesta):
Custo por 100 km ≈ consumo (kWh/100 km) × preço (€/kWh)

Na vida real, muitos VE andam entre 16–22 kWh/100 km; em autoestrada, frio, chuva, vento e SUVs pode ser mais. Dois detalhes que baralham as contas e raramente vêm no “slogan”:

  • Perdas de carregamento: do contador à bateria, é comum haver ~5–15% de perdas (varia com potência e temperatura).
  • Velocidade pesa: acima de ~110–120 km/h, o consumo tende a subir de forma visível; a autonomia “de autoestrada” pode ficar bem abaixo do valor anunciado.

O choque raramente vem de uma só fatura. Vem do acumulado: taxas por sessão/tempo/ocupação, preços a variar por operador, parqueamentos, subscrições, e a sensação de que a letra pequena cresceu mais depressa do que o cartaz.

E depois há a depreciação. Quando entram modelos novos com mais autonomia e melhor relação preço/valor, alguns usados desvalorizam mais depressa do que o proprietário esperava - sobretudo onde a autonomia real e a perceção de “saúde da bateria” pesam muito no negócio.

Muitos condutores ainda poupam face a gasolina/diesel. O problema é o desvio entre promessa (“vai poupar muito”) e um resultado que pode ser apenas “poupa pouco” - ou poupa em casa e perde no público.

A fatura escondida: do caos no carregamento ao choque da revenda

Um passo simples muda a conversa: registo honesto de custos durante 2–3 meses. Não “acho que compensa” - números:

  • kWh e preço de cada carregamento (casa e público)
  • seguro
  • revisões/consumíveis
  • pneus
  • assistências/serviços
  • e uma estimativa de depreciação (quanto pagou vs. quanto o mercado oferece hoje)

Depois compare com o seu carro anterior (ou com uma estimativa realista). Os números frios acabam com discussões abstratas - e mostram onde está a fuga: energia, pneus, seguro, ou simplesmente um carro “grande demais” para o uso.

Na prática, o cenário divide-se em dois:

1) Quem tem garagem e rotina previsível tende a ter melhor experiência: carrega devagar (AC), mais barato e com menos stress.
2) Quem vive em apartamento sem carregamento fácil sente o “imposto invisível” do público: tempo, filas e preços menos controláveis.

O erro mais comum não é “comprar um VE”. É comprar um VE com base no anúncio e não na sua vida: dizerem-lhe “carrega à noite em casa” quando afinal não há tomada/box, ou quando instalar wallbox implica obra, linha dedicada, proteção elétrica, eventualmente subir potência contratada e alinhar com regras do condomínio.

Custos que são frequentemente subavaliados:

  • Pneus: VE (e sobretudo SUVs) são mais pesados e têm binário imediato; é comum o desgaste acelerar e medidas grandes pagam-se bem.
  • Carregamento em casa: nem sempre é caro, mas raramente é “zero”. Uma instalação bem feita inclui proteção adequada e, em muitos casos, gestão de carga para não “mandar o quadro abaixo” quando liga forno/termoacumulador.
  • Garantia de bateria: muitas marcas anunciam 8 anos e um limite de capacidade (muitas vezes perto de 70%, com km máximos que variam). O importante é perceber o que conta como degradação, como é medido e o que fica excluído.

“Eu queria acreditar”, diz Lara, 39 anos, pendular, que trocou um diesel por um crossover elétrico em 2021. “Prometeram-me 150 € por mês. Agora, num bom mês, talvez sejam 20 €. E quando a garantia acabar, não sei quanto vale.”

Antes de assinar (ou para reavaliar), um checklist curto que evita surpresas:

  • Peça projeções de custo total de propriedade a 5–8 anos (energia, seguro, pneus, manutenção, impostos, depreciação), não só a prestação.
  • Faça a conta ao seu caso: kWh/100 km × €/kWh (e se usa público, simule com os postos onde realmente para).
  • Verifique a procura no mercado de usados do seu modelo/versão: autonomia real, equipamento, histórico e garantia de bateria transferível.
  • Ponha pneus no orçamento (e não só “um par”): VE pesado + binário + jantes grandes = custo recorrente real.
  • Leia a garantia da bateria: anos, km, limite de capacidade e processo (testes, condições de uso, prazos).

Da raiva ao “nunca mais”… ou a um tipo diferente de transição

Por baixo das contas está a confiança. Muita gente sente que “fez a parte dela” e depois viu o cenário mexer: incentivos que oscilam, preços do carregamento público pouco previsíveis, e discussão recorrente sobre novas formas de tributação no futuro. Mesmo quando ainda compensa, a instabilidade pesa.

Quem fica preso numa fila para carregar não está só irritado com tempo e dinheiro. Está a perceber que organizou a mobilidade em torno de uma rotina que pode falhar em dias críticos (viagens, inverno, imprevistos). O risco não é apenas “voltar ao diesel”. É desligar-se de qualquer promessa - e isso trava mudanças que até poderiam ser positivas.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Custos reais vs. promessas Registe despesas e compare com o carro anterior, incluindo carregamentos, seguro e depreciação. Vê o seu caso real, não médias nem marketing.
Verificação da realidade da infraestrutura Avalie disponibilidade, fiabilidade e preço dos carregadores onde vive e por onde passa. Evita frustração diária e custos que aparecem “sem aviso”.
Opções de saída e de ajuste Considere VE mais pequeno, híbrido plug-in, car-sharing ou manter o carro atual por mais tempo. Recupera controlo: não é “tudo ou nada”.

FAQ:

1) Porque é que alguns proprietários de VE se sentem agora financeiramente traídos?
Porque compraram a contar com poupanças grandes (energia barata, baixa manutenção, incentivos). Quando o carregamento público fica caro/irregular, surgem taxas e a depreciação surpreende, a diferença entre promessa e resultado parece um acordo quebrado.

2) Os carros elétricos são agora sempre mais caros de manter do que gasolina ou diesel?
Não. Quem carrega em casa, sobretudo no vazio, muitas vezes continua a poupar. O problema concentra-se em quem depende de carregamento rápido público, faz muita autoestrada, apanha consumos altos (frio/chuva/velocidade) ou escolheu um VE grande e pesado (pneus e desvalorização).

3) O que posso fazer se me sinto preso a um leasing de VE caro?
Comece pelo básico: calcule €/100 km (kWh/100 km × €/kWh) e some custos que doem (seguro, pneus). Depois procure alavancas práticas: carregar mais em AC e menos em DC, rever tarifário doméstico, comparar operadores/locais habituais e reduzir quilómetros “caros” (autoestrada rápida, desvios para carregar). Se continuar pesado, explore renegociação, transferência ou venda antecipada - aceitando que pode haver perda.

4) Voltar a um motor de combustão é mesmo a única saída?
Não necessariamente. Muitos aliviam a pressão ao descer para um VE mais pequeno (menos consumo e pneus), ou ao escolher um híbrido plug-in quando não têm carregamento fácil no dia a dia. Outros mantêm o carro atual mais algum tempo e usam aluguer para viagens longas.

5) O que devo verificar antes de comprar um VE agora?
Três coisas: (1) acesso real a carregamento fiável e a preço aceitável; (2) custo total de propriedade (incluindo pneus e depreciação), não só a prestação; (3) autonomia real no seu uso (autoestrada, frio, aquecimento). Um teste simples: faça 3–7 dias com um VE alugado, repetindo os seus percursos e carregamentos típicos, antes de se comprometer.

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