Indústria automóvel regista cerca de 55 mil milhões de dólares em imparidades após travagem nos planos para elétricos
A indústria automóvel mundial contabilizou, no último ano, aproximadamente 55 mil milhões de dólares em imparidades e ajustamentos contabilísticos ligados ao recuo - ou ao adiamento - de metas para veículos 100% elétricos. Entre os principais fatores estão a desaceleração da procura nos Estados Unidos, a guerra de preços na China e a maior complexidade das gamas na Europa, onde as marcas tentam conciliar elétricos, híbridos e motores de combustão.
Stellantis lidera com 22,2 mil milhões de euros e ações afundam para mínimos de seis anos
O caso mais expressivo é o da Stellantis, que a 6 de fevereiro anunciou imparidades de cerca de 22,2 mil milhões de euros previstas para o segundo semestre de 2025. O anúncio representou o maior ajuste deste tipo entre os grandes grupos do setor e teve impacto imediato em bolsa: as ações caíram mais de 20%, atingindo mínimos de seis anos.
O CEO Antonio Filosa atribuiu a decisão ao que chamou o “custo de reavaliar o ritmo da transição energética”, sublinhando a necessidade de alinhar a oferta com a procura real e com as exigências de emissões nos EUA.
Ford, General Motors e Volkswagen também revêm estratégia e registam ajustamentos
Outros fabricantes avançaram com medidas semelhantes:
- Ford: em dezembro, comunicou imparidades de 19,5 mil milhões de dólares e a decisão de abandonar alguns modelos elétricos, dando prioridade a veículos com motor de combustão interna (ICE) e híbridos.
- General Motors: em janeiro, anunciou ajustamentos de 6 mil milhões de dólares, dos quais 4,2 mil milhões correspondem a saídas de caixa, associadas a rescisões contratuais e acordos com fornecedores.
- Volkswagen: o maior construtor europeu registou, em setembro do ano passado, um impacto de 5,1 mil milhões de euros na unidade Porsche, optando por adiar parte dos lançamentos elétricos e por reforçar híbridos e modelos com motorização tradicional.
Pressão chinesa e mudanças políticas agravam incerteza nos EUA e na Europa
Para os grupos tradicionais, o contexto tornou-se mais exigente com a entrada de novos concorrentes, em particular marcas chinesas, e com alterações na regulação e no clima político.
Nos Estados Unidos, durante a administração de Donald Trump, o mercado de elétricos enfrentou uma travagem acentuada. Já na Europa, os construtores têm sido obrigados a gerir um portefólio cada vez mais diversificado - elétricos, híbridos e combustão - num ambiente em que as preferências do consumidor e os requisitos legais nem sempre evoluem ao mesmo ritmo.
O resultado é um reajuste abrangente de expectativas, visível nos relatórios financeiros mais recentes, e a confirmação de que a passagem para a mobilidade elétrica está a revelar-se mais complexa e mais dispendiosa do que muitos fabricantes antecipavam.
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