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Carro chinês usado é uma armadilha: barato, mas assustador.

Carro elétrico branco num showroom, com carregadores pendurados na parede ao fundo.

Carros chineses usados tornam-se “dor de cabeça” no mercado: desvalorização rápida e incerteza travam vendas

Há dois ou três anos, parecia quase inevitável que os automóveis chineses repetissem no mercado de usados o bom desempenho que vinham a ter em novo. As vendas cresceram, os concessionários encheram stock e os consumidores começaram a reconhecer marcas e design. No entanto, a chegada em massa de viaturas de 2021 a 2023 ao mercado em segunda mão revelou um cenário bem mais duro: a procura é fraca e a rotação é lenta, segundo o especialista automóvel Dmitry Novikov, em declarações ao 32CARS.RU.

“Quando os modelos de 2021–2023 começaram a surgir em volume, ficou claro que a liquidez é extremamente baixa. Concessionários admitem que estes carros podem ficar meio ano no stand sem um único comprador real. O mercado esperava vendas rápidas e recebeu ‘âncoras’ que imobilizam dinheiro e espaço”, afirmou Novikov.

Queda acentuada de preço penaliza mais do que noutros segmentos

Um dos principais travões é a desvalorização. De acordo com Novikov, muitos modelos chineses perdem valor mais depressa do que veículos de outros segmentos, podendo cair 30% a 40% em apenas um ano, sobretudo no caso de marcas com pouca história no mercado. Essa tendência alimenta a perceção de risco: se o preço desce tão rapidamente, muitos compradores concluem que a aposta é incerta.

A imagem é ainda afetada por relatos de avarias que circulam nas redes sociais. O especialista sublinha que um episódio mediático - por exemplo, uma falha grave durante um test-drive - pode ter impacto desproporcional, anulando dezenas de avaliações positivas e reforçando a ideia de falta de fiabilidade.

Pouca experiência a longo prazo: dúvidas depois dos 60 a 100 mil quilómetros

Outro elemento decisivo para quem compra em segunda mão é a ausência de histórico de utilização prolongado. Ainda não existe, segundo Novikov, um consenso claro sobre como estes automóveis se comportam após 60 000 a 100 000 km.

Os relatos dividem-se: há quem descreva utilização sem problemas, mas também quem aponte falhas eletrónicas, dificuldades na transmissão e complicações em motores turbo. No mercado de usados, esta incerteza pesa: sem garantia, o comprador tende a evitar experiências que possam resultar em reparações caras.

Peças e assistência: rede existe, mas a espera pode ser longa

A disponibilidade de peças e a capacidade de assistência pós-venda é outro ponto crítico. Apesar de, formalmente, existir uma rede alargada de concessionários, proprietários relatam esperas de semanas ou até meses por componentes.

Em carros novos, esse atraso pode ser tolerável. Já no mercado de usados, o receio de ficar sem viatura por tempo indeterminado pode ser determinante na decisão de compra, sobretudo quando o comprador teme ficar sem apoio efetivo.

“Também não se deve subestimar o fator de imagem. A desconfiança em relação às marcas chinesas, especialmente no mercado de usados, ainda existe. Muitos compram um carro novo ‘com garantia’, mas encaram um usado como uma lotaria”, acrescentou Novikov.

Preferência por marcas conhecidas mantém a quota chinesa baixa no mercado de usados

Perante este quadro, muitos compradores na Rússia optam por automóveis japoneses ou coreanos mais antigos, mas considerados “seguros”, em vez de um modelo chinês recente e menos testado. Segundo o especialista, isso reflete-se na estatística: a presença de carros chineses no mercado de usados continua reduzida quando comparada com marcas que construíram reputação ao longo de décadas.

Promoções nos novos e importação paralela apertam ainda mais os usados

De forma paradoxal, a pressão sobre os usados vem também do próprio mercado de novos. Campanhas, descontos, retomas (trade-in) e a importação paralela têm encurtado a diferença de preço entre um carro novo e um modelo com dois anos, levando muitos consumidores a pagar mais um pouco para garantir um veículo novo com cobertura de fábrica.

Este efeito é particularmente forte nas versões pré-atualização (pré-facelift): quando surge um modelo renovado, as unidades anteriores desvalorizam rapidamente.

Concessionários reduzem ofertas de retoma e o mercado enche-se de exemplares de três anos

O resultado é um produto difícil de escoar. Muitos concessionários, segundo Novikov, ou baixam fortemente a avaliação na retoma, ou recusam mesmo aceitar estes veículos, receando novas quedas de preço. Ao mesmo tempo, o mercado está a receber muitos exemplares com cerca de três anos, com proprietários a tentarem vender antes do fim da garantia, enquanto a procura não acompanha a oferta.

Na prática, indica o especialista, em dois anos estes automóveis podem perder tanto valor quanto antes se perdia em cinco.

Risco começa a alastrar a alguns modelos de outras origens

Novikov nota ainda que nem só os carros chineses estão expostos. Alguns modelos não chineses, tradicionalmente fáceis de vender, podem ver a procura cair devido à massificação, tecnologia desatualizada ou saturação do mercado. Para o especialista, isto aponta para uma tendência mais ampla: o mercado de usados está mais seletivo e exigente.

O que muda para vendedores e compradores

Para quem vende um carro chinês usado, a orientação é clara: preparar-se para um desconto significativo e para um processo de venda mais demorado. Já para quem compra, a oportunidade existe - os preços podem ser apelativos - mas os riscos mantêm-se.

Os especialistas recomendam considerar estas viaturas apenas quando houver: - histórico transparente de manutenção e utilização; - poucos proprietários anteriores; - garantia remanescente.

Sem esses fatores, o comprador pode ficar com um automóvel que não só levanta dúvidas na manutenção, como pode revelar-se difícil de revender.

Conclusão: sucesso no novo não garante facilidade no usado

A principal lição, segundo Novikov, é que o crescimento acelerado das vendas de carros chineses novos não se traduz automaticamente em liquidez no mercado de segunda mão. Esta etapa está a revelar-se mais complexa do que o esperado - e a adaptação, ao que tudo indica, ainda está longe de concluída.

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