A rapidez engana: num dia há mar aberto; pouco depois, nas imagens de satélite, aparece uma faixa de “terra” com pista e cais.
Não é milagre. É engenharia repetida durante anos: dragas aspiram sedimentos do fundo, bombeiam-nos para zonas rasas e contêm o aterro com rocha e betão até parecer chão firme - mesmo que, por baixo, ainda esteja a consolidar.
Em áreas disputadas, uma obra destas deixa de ser “só” civil. Muda o que se consegue vigiar, patrulhar, abastecer e manter no terreno, dia após dia.
Ilhas artificiais da China: do vazio azul à fronteira de betão
Nas Spratly, vários recifes passaram de manchas de coral a plataformas com infraestrutura: pistas, hangares, radares, faróis e cais. Entre os nomes mais citados estão Fiery Cross, Mischief e Subi.
A expansão acelerou a partir de 2013, com dragas a operar quase continuamente. Por volta de 2015, análises por satélite apontavam para cerca de 13 km² (≈1.300 ha) de nova “terra” em sete locais - uma escala muito acima do habitual em obras portuárias. Em Portugal, a dragagem é sobretudo manutenção de acessos/bacias (por exemplo, portos comerciais) e, por vezes, alimentação artificial de praias; não é “criar território” em mar aberto.
O método é repetível, mas exige muito controlo:
- escolher uma formação pouco profunda com valor estratégico;
- criar um perímetro (enrocamento/blocos) para conter o enchimento;
- dragar sedimentos próximos e bombear para dentro;
- proteger margens contra agitação marítima e erosão.
O aspeto de “praia” pode iludir: o material é recente, saturado e pode continuar a assentar durante anos. Em vários casos, há pistas com cerca de 3.000 m (compatíveis com aviões de grande porte), mas isso só funciona com fundação bem consolidada, drenagem eficaz e manutenção constante (nivelamentos, reparações, reforços). Pequenos assentamentos diferenciais bastam para criar “degraus”, fissuras e problemas de drenagem - críticos numa pista.
Como se constrói uma ilha completamente nova no meio do mar
Tudo começa no que raramente aparece nas fotos: batimetria, tipo de fundo, correntes, ondas e como o recife reage. Daí saem duas decisões que mandam no orçamento e no risco: (1) onde o enchimento pode ser contido com segurança e (2) quanta proteção costeira será necessária para a ilha não “encolher” no primeiro temporal a sério.
A sequência típica é:
1) Anel de contenção (enrocamento e betão), para definir o “molde”.
2) Dragagem e bombagem: dragas (muitas vezes de sucção e corte) enviam uma mistura de água+areia por tubagem; a água escoa e a fração sólida fica.
3) Geotecnia (a parte mais difícil e cara): aterro recente é instável e pode exigir compactação, drenagem (ex.: drenos verticais) e obra faseada (encher → assentar → voltar a encher).
Dois efeitos práticos condicionam tudo o resto:
- Assentamentos (muitas vezes diferenciais): o terreno pode continuar a descer e a deformar-se; pistas e cais são especialmente sensíveis e exigem monitorização e correções recorrentes. Um erro comum é construir “como se fosse solo natural” demasiado cedo - depois paga-se em remendos e restrições operacionais.
- Erosão e galgamento: sem taludes armados, blocos e, por vezes, paredões, temporais podem comer margens em horas. Em mar aberto, a proteção tem de ser dimensionada para estados de mar extremos; caso contrário, a obra vira um ciclo de reposição de material.
Quando a base aguenta, entra o “visível”: estradas, pistas, depósitos, energia/combustível, comunicações, dessalinização e armazenamento de água. A autonomia é um limite duro: água, combustível e peças têm de chegar com regularidade, e dessalinizar implica energia e manutenção. A partir daí, engenharia e tática misturam-se: linha de vista para radares, abrigo para navios e redundância logística para manter uma ilha isolada operacional.
O que estas ilhas artificiais significam para ti, para mim e para o planeta
Em geopolítica, isto traduz-se em permanência operacional: pista + sensores + cais aumentam patrulha, resposta e presença diária numa das rotas marítimas mais movimentadas do mundo. Para Portugal, o efeito é indireto mas real: cadeias de abastecimento globais dependem de previsibilidade no transporte marítimo (bens, componentes, energia). Quando há mais fricção numa rota-chave, o custo pode aparecer em seguros, desvios e tempos de entrega.
Há também um ponto legal que baralha muita gente: estruturas artificiais não são “ilhas” como formações naturais. Em muitos casos, não geram por si novas zonas marítimas (como mar territorial ou ZEE). Ainda assim, podem ter zonas de segurança à volta - regra geral até 500 m, conforme o enquadramento aplicável e a classificação da estrutura - e não devem impedir a navegação internacional fora dessas zonas.
Para países vizinhos, a consequência imediata tende a ser operacional: mais patrulhas, mais interações no mar, mais pressão sobre áreas de pesca. O que era “disputado” no papel pode tornar-se “controlado” na prática por quem consegue estar lá continuamente (e sustentar essa presença).
No ambiente, o impacto é direto e difícil de reverter:
- dragagem e aterro destroem fisicamente recife e habitat;
- plumas de sedimentos aumentam turbidez, reduzem luz e podem sufocar recifes próximos;
- perder recifes remove “infraestrutura natural” (berçários de peixe e quebra-mar), afetando capturas e proteção costeira local.
Erro comum: achar que o dano fica “dentro do perímetro”. Sedimentos e alterações de correntes propagam-se; e a recuperação de recifes, quando acontece, costuma ser lenta e incerta (muitas vezes em décadas), sobretudo se a qualidade da água piorar e a pressão humana aumentar.
Em resumo, estas ilhas tendem a:
- consolidar presença num mar disputado;
- estender alcance de vigilância e operação (ar e mar);
- aumentar pressão sobre pescas e ecossistemas;
- incentivar respostas (patrulhas, alianças, mais infraestrutura) de outros países;
- elevar o risco de incidentes por proximidade e rotinas armadas.
A história ainda não acabou - e essa é a parte inquietante
O inquietante é a normalização: rotas e voos continuam e, para muita gente, o mapa “mudou” sem alarme público.
Para outros governos, a questão prática é onde traçar a linha entre engenharia costeira e alteração estratégica do espaço marítimo. Há um efeito de demonstração: se é possível transformar recifes em bases operacionais, a tentação de replicar - sobretudo em zonas contestadas - aumenta.
No longo prazo, há ainda o pano de fundo climático: com subida do nível do mar e mais pressão sobre portos e costas, dragagem, alimentação de praias e proteção costeira tendem a ser usadas com mais frequência. Em mar aberto e sob disputa, cada metro quadrado pode ganhar peso político muito acima do custo inicial - e com um custo de manutenção que não desaparece (reposição de enrocamento, dragagens, reparação após temporais, logística).
Ponto‑chave: Ilhas do zero (reclamação de terras)
Detalhe: Dragagem e deposição de grandes volumes de sedimentos desde o início da década de 2010
Valor: Explica a rapidez e a escalaPonto‑chave: Impacto militar e ecológico ao mesmo tempo
Detalhe: Infraestrutura acima; recifes e habitats degradados abaixo
Valor: Mostra porque não é apenas “geopolítica distante”Ponto‑chave: Um modelo copiável, com custos e risco
Detalhe: Técnica conhecida, mas cara de estabilizar e manter (assentamentos, erosão, logística) e politicamente explosiva em águas disputadas
Valor: Ajuda a antecipar efeitos noutros lugares
FAQ:
Pergunta 1
Como é que a China criou exatamente estas ilhas artificiais no Mar do Sul da China?
Usou dragagem (sucção/corte) para retirar sedimentos do fundo e bombeá-los para recifes rasos dentro de um perímetro de contenção. Depois estabilizou o aterro com compactação, drenagem e obra faseada, e só então construiu pistas, portos e edifícios.
Pergunta 2
Estas novas ilhas são legais à luz do direito internacional?
É contestado. Em geral, o direito do mar distingue formações naturais de estruturas artificiais, e estas últimas tendem a não criar, por si, novas zonas marítimas (podendo existir zonas de segurança). Um processo arbitral concluído em 2016 considerou que “aumentar” certas formações não as transforma em geradoras de novas zonas; a China não aceitou essa decisão.
Pergunta 3
Que tipo de infraestrutura militar existe nestas ilhas?
Observações por satélite indicam pistas longas, hangares, radares e comunicações, helipistas, estruturas reforçadas e cais capazes de apoiar navios de patrulha e, em alguns casos, meios navais maiores.
Pergunta 4
Quão gravemente são afetados os recifes de coral por esta construção?
Muito. A dragagem destrói o recife e o aterro enterra corais vivos. Sedimentos em suspensão reduzem luz e podem afetar áreas para além do local da obra, alterando habitats e correntes locais.
Pergunta 5
Outros países poderiam começar a construir ilhas semelhantes noutros locais?
Tecnicamente, sim: a engenharia é conhecida e usada em projetos costeiros. O caso do Mar do Sul da China mostra o potencial de militarização quando aplicada a formações em águas contestadas, aumentando custos, risco de escalada e danos ambientais.
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