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Stéphane Macquaire, cabeleireiro em Paris: “Este é o segredo para espaçar as marcações das madeixas”

Pessoa a pintar cabelo castanho claro num salão de cabeleireiro com pincel e pente.

Num fim de quinta-feira cinzento em Paris, entre dois aguaceiros, a porta do salão na rue de Courcelles abre-se e uma jovem entra, agarrada ao guarda-chuva como a uma bóia de salvação. As raízes estão mais escuras do que ela se lembrava. As últimas madeixas foram “mesmo antes do verão”. Estamos em fevereiro. Ela olha para o espelho, depois para o livro de marcações no balcão da receção. Lê-se na cara dela a mesma pergunta que tantos clientes trazem: “Tenho mesmo de voltar com esta frequência?”

Atrás da cadeira, Stéphane Macquaire sorri. Já viu esta cena mil vezes. A culpa, o orçamento, o tempo. E esta esperança secreta: que exista uma forma de espaçar as marcações sem deixar o cabelo amarelar ou ficar às riscas.

Há uma forma.

O colorista parisiense que odeia “cabelo às riscas”

Por fora, o salão do Stéphane não grita luxo. Nada de letreiros néon, nada de poltronas douradas. Apenas janelas grandes, luz tranquila e este zumbido constante e baixo de secadores e conversas parisienses. Lá dentro, porém, há uma obsessão que manda em tudo: cor que envelhece bem. Não apenas “bonita quando sai”, mas bonita na sexta semana, na oitava, na décima segunda.

Ele tem um fraquinho por mulheres trabalhadoras que entram a correr entre duas reuniões, com o portátil ainda aberto na mala. Sentam-se e confessam: “Não consigo continuar a vir de seis em seis semanas, não dá.” Ele não revira os olhos. Ajusta a cadeira, observa a linha do cabelo, pergunta sobre a rotina. Depois muda a estratégia. Porque a verdade é que espaçar as madeixas começa muito antes da próxima marcação. Começa no dia em que se senta e diz como é a sua vida real.

Veja-se a Léa, 36 anos, gestora de comunicação no 9.º arrondissement. Quando veio pela primeira vez, o cabelo estava em três andares: raízes brancas, meios alaranjados, pontas platinadas. Três salões diferentes num ano. Técnicas diferentes, promessas diferentes, zero continuidade. Ela achava que o “cabelo crescia demasiado depressa”. O Stéphane achou outra coisa.

Ele mudou-a de madeixas em toda a cabeça para um balayage suave, focado no contorno do rosto e na camada superior. Menos papelotes, mais nuance, um tom ligeiramente mais profundo junto à raiz. Duas horas depois, ela saiu a dizer: “Nem vejo onde começa a minha cor natural.” Passaram quatro meses até sentir que precisava de voltar. Não por vergonha, mas por vontade. Esse intervalo - quatro meses sem pânico - não foi milagre. Foi arquitetura.

Sob as luzes do salão, percebe-se a lógica. Madeixas que exigem retoque a cada seis semanas são muitas vezes demasiado contrastadas, demasiado claras, demasiado uniformes. O olho vê a “linha” onde começa a cor natural - e essa linha torna-se insuportável ao fim de um mês. Quando a cor tem sombreamento, quando a raiz fica ligeiramente esbatida, quando o tom escolhido é apenas um ou dois níveis mais claro do que a base, essa linha desaparece. Em vez de uma fronteira, vê-se um degradé.

Espaçar marcações não é aguentar mais tempo com raízes feias; é desenhar uma cor que se mantém bonita durante mais tempo. É aqui que o Stéphane trabalha como estratega, não apenas como colorista. Menos é mais. Mais suave é mais forte. E o verdadeiro luxo não é o tom de loiro - é o ritmo que respeita a sua vida.

O segredo dos bastidores: microajustes e rituais do dia a dia

O método começa logo na primeira consulta. O Stéphane faz sempre a mesma pergunta, sem rodeios: “Sinceramente, com que frequência é que consegue mesmo voltar?” Uns dizem de oito em oito semanas. Outros, de seis em seis meses. A partir daí, ele escolhe a técnica. Sombra de raiz para quem quer esticar. Menos papelotes, aplicados ligeiramente afastados do couro cabeludo. Tons mais quentes e mais “perdoadores” para quem não consegue investir em tonalizantes todos os meses.

Ele também observa como o cabelo se comporta. Cabelo fino, frágil? Madeixas mais claras e mais difusas, para que o crescimento seja menos visível. Cabelo espesso? Joga com profundidade, deixando a cor natural aparecer entre as secções. É quase como paisagismo: deixar áreas naturais intactas para que o conjunto envelheça com elegância. Este planeamento, feito em dez minutos, pode facilmente acrescentar quatro a seis semanas de paz entre marcações.

Depois vem a parte que ninguém quer ouvir: cuidados em casa. A água dura de Paris, apartamentos sobreaquecidos, escovações com secador todos os dias - tudo isto vai, silenciosamente, gastando a cor. Os amarelos aparecem mais depressa. O brilho desaparece. A mesma madeixa, sem cuidado, parece “velha” ao fim de quatro semanas. Com uma rotina pequena, mantém-se “fresca” o dobro do tempo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A rotina perfeita, a máscara deixada dez minutos, o enxaguamento frio… isso é vida de Pinterest. A vida real é lavar o cabelo à meia-noite porque há uma reunião às nove. Por isso o Stéphane simplifica: um bom champô sem sulfatos, uma máscara nutritiva uma vez por semana, um champô roxo ou azul a cada 10–15 dias, não mais. Sem sermão, sem culpas. Apenas hábitos mínimos que protegem o tempo entre visitas.

Quando ele fala disto, as palavras soam menos a instruções e mais a alguém que sabe como são as manhãs apressadas.

“As mulheres estão exaustas”, diz ele, em voz baixa. “Não quero um cabelo que exija uma assistente pessoal. Quero um cabelo que lhe perdoe quando salta um tratamento. Por isso, construo esse perdão dentro da cor.”

Ele escreve muitas vezes o “kit de sobrevivência” num papel simples e enfia-o na mala da cliente:

  • Um champô suave, seguro para cabelo pintado, para abrandar o desvanecimento
  • Uma máscara nutritiva, 5 minutos uma vez por semana, não mais
  • Um champô roxo suave a cada 10–15 dias para arrefecer os tons alaranjados
  • Protetor térmico antes de qualquer secador ou prancha
  • Um tonalizante no salão a cada 8–10 semanas para quem gosta de loiros ultrafrios

Nada de extremo. Nada que exija uma prateleira nova na casa de banho. Apenas o suficiente para prolongar as madeixas mais um ou dois meses, sem transformar o duche num laboratório.

Aprender a viver com um cabelo que muda devagar

O que fica consigo, quando sai da cadeira do Stéphane, não é apenas a cor. É esta permissão nova e estranha: aceitar que o cabelo pode ter fases “intermédias” sem que se sinta desarrumada ou negligente. Na primeira semana, está ultra-brilhante. Na quarta, fica mais suave, mais vivido. Na oitava, é quase como ter madeixas naturais beijadas pelo sol. E só por volta da décima segunda começa a pensar: “Ok, está na hora.”

Há algo discretamente libertador nisto. O seu calendário deixa de ser governado pelo crescimento. Deixa de marcar urgências “por causa de um jantar” ou de uma reunião inesperada. Aprende a apanhar o cabelo num coque baixo nos dias em que parece mais sem vida, a brincar com a risca, a aceitar que, em algumas manhãs, o espelho não lhe devolve exatamente a mesma pessoa que as luzes do salão devolviam. E está tudo bem.

Para muitas clientes regulares do Stéphane, o verdadeiro segredo não é um produto milagroso nem a mão de um colorista. É alinhar expectativas com a realidade. O cabelo cresce. A cor muda. A sua vida não pára por causa das madeixas. Quando aceita isso, espaçar marcações deixa de ser um sacrifício e passa a ser uma estratégia. Escolhe um ritmo que respeita o seu orçamento, a sua energia, o seu tempo. Escolhe um colorista que ouve as suas limitações antes de sugerir uma técnica. O resto é nuance e paciência - duas coisas que, em Paris, muitas vezes envelhecem melhor do que um loiro demasiado brilhante.

Ponto-chave Detalhe Valor para a leitora/o leitor
Adaptar a técnica ao ritmo Balayage, sombra de raiz, contraste mais suave para quem vem menos vezes Menos marcações “urgentes”, cor que cresce de forma elegante
Cuidados em casa simplificados Champô suave, máscara semanal, champô roxo ocasional, proteção térmica Madeixas brilhantes e frescas por mais tempo, menos tons alaranjados, mais controlo
Aceitar a fase intermédia Cor pensada para ficar bonita às 4, 8, 12 semanas, não apenas no primeiro dia Menos stress com as raízes, mais liberdade na agenda e no orçamento

FAQ:

  • Quantas semanas consigo, realisticamente, esticar entre marcações de madeixas? Para a maioria das clientes do Stéphane, o ponto ideal é 10–14 semanas com um balayage bem planeado ou madeixas suaves e cuidados básicos em casa.
  • Tenho de usar champô roxo todas as semanas? Não. A cada 10–15 dias costuma ser suficiente; caso contrário, o cabelo pode ficar baço ou ligeiramente arroxeado, sobretudo se for poroso.
  • Consigo espaçar marcações se eu gostar de um loiro muito frio, “gélido”? Sim, mas poderá precisar de um tonalizante ou gloss rápido a cada 8–10 semanas para refrescar o tom sem refazer todas as madeixas.
  • As minhas raízes incomodam-me ao fim de apenas quatro semanas; o que posso fazer? Peça ao seu colorista uma sombra de raiz mais suave, menos contraste ou um loiro ligeiramente mais profundo, para que a linha de demarcação seja menos visível.
  • É melhor fazer menos madeixas, mas mais fortes, para durarem mais? Não. Madeixas pesadas e muito claras crescem com uma linha marcada. Uma cor mais suave e mais difusa normalmente envelhece melhor e permite esperar mais tempo entre visitas.

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