Estás num jantar de aniversário, a mesa está ruidosa de gargalhadas, alguém acabou de fazer um brinde em tua honra. Os copos tilintam. O teu telemóvel está virado para baixo, a comida cheira incrivelmente bem, os teus amigos estão todos aqui. Visto de fora, isto é um instantâneo dourado. Daqueles momentos que gostarias de recordar daqui a anos.
Por dentro, porém, não sentes… nada. Ou não é bem nada: é mais como se estivesses ligeiramente fora da sala, a ver tudo através de um vidro. Sorris quando é suposto, dizes “Isto é incrível”, tiras a foto para o Instagram. Mas a sensação não assenta. Escorrega por cima de ti, como água num impermeável.
Vais para casa a pensar: O que é que se passa comigo?
Quando a alegria parece pertencer a outra pessoa
Há uma vergonha estranha que se cola ao distanciamento emocional durante momentos bons. As pessoas compreendem ficar entorpecido depois de uma separação ou de um choque. Não compreendem sentires-te vazio no teu próprio casamento, nas férias de sonho, na promoção tão aguardada. Acabas por jogar um jogo silencioso de faz-de-conta emocional. Por fora: “Este é o melhor dia de sempre!” Por dentro: um espaço cinzento e plano.
Algumas pessoas descrevem isto como estarem meio segundo atrasadas em relação à própria vida. O sorriso aparece, mas a sensação não. O corpo está na festa, na praia, na celebração, mas a mente está lá em cima, nas vigas, só a tomar notas. Continuas a perguntar-te: isto é depressão, é trauma, ou sou eu que estou estragado?
Vejamos a Mia, 32 anos, finalmente na viagem para a qual poupou desde a universidade. Publica fotografias de uma varanda sobre uma baía turquesa, o sol a pôr-se em camadas perfeitas de tons pastel. Os comentários não param: “A viver o sonho!” “Tão feliz por ti!” “Mereces isto!”
Nessa noite, de volta ao quarto de hotel, senta-se na beira da cama e sente-se… em branco. Sem fogo-de-artifício interior, sem onda de gratidão, apenas uma consciência baça de que devia estar feliz. Faz scroll nas próprias fotos como se fossem provas num dossiê. Isto é o aspeto que a alegria supostamente tem. E, no entanto, mal se faz notar no peito.
A Mia diz a si própria que é ingrata. Preguiçosa. Mimada. O que não percebe é que esta experiência exata aparece em consultórios de terapia todos os dias, em todas as idades, géneros e níveis de rendimento.
Do ponto de vista psicológico, essa sensação de “ver do lado de fora” tem um nome: dissociação. É um mecanismo de proteção, não um defeito de caráter. Quando o sistema nervoso passa anos em modo de sobrevivência, pode começar a amortecer tanto a dor como o prazer. O mesmo “regulador” emocional que te impediu de ficar esmagado nos maus momentos pode continuar ligado também nos bons.
Há ainda outra coisa em jogo: um cérebro habituado a procurar perigo tem dificuldade em relaxar na segurança. A alegria parece pouco familiar, quase suspeita. Então a mente recua, observando em vez de habitar o momento. Tu não estás estragado; o teu sistema está a proteger-te em excesso. Aprendeu cedo que sentir demasiado podia magoar.
O que o teu distanciamento está, discretamente, a tentar proteger
Uma forma prática de entender o teu distanciamento é vê-lo como um pequeno guarda-costas interior. Não como uma metáfora “fofinha”, mas como algo literalmente ali para impedir que o teu sistema emocional transborde. Esse guarda não pergunta: “Isto é um casamento ou uma discussão?” Ele apenas deteta uma grande onda de sensação e diz: “Demasiado. Afasta-te.” Então ficas a pairar um pouco acima da cena. Reparas na cor das luzes, no som da tua voz, no que toda a gente está a fazer. Não reparas bem em ti.
Um método simples: da próxima vez que te sentires estranhamente “plano” num bom momento, pára durante dez segundos. Dá nome a três coisas que estás a sentir agora: a temperatura exata da tua bebida, a pressão da cadeira debaixo das tuas pernas, um pequeno som ao fundo. Isto não é para forçar alegria. É para voltares ao teu corpo, um detalhe neutro de cada vez.
Muita gente tenta a estratégia oposta. Esforça-se mais. Marca experiências maiores, fins de semana mais barulhentos, viagens mais caras. Pensa: “Talvez eu só precise de um momento melhor.” Quando isso não funciona, a autocrítica torna-se mais dura. Tenho tudo e mesmo assim não sinto nada; devo ser eu o problema.
É aqui que entra um erro comum: confundir entorpecimento emocional com ingratidão. Podes estar profundamente grato no teu pensamento e, ainda assim, sentir-te emocionalmente desligado. Os sentimentos não são um boletim moral. São uma resposta do sistema nervoso.
Há também a comparação silenciosa: toda a gente parece radiante - porque é que eu não? Esqueces-te de que só vês os melhores momentos deles, não o atraso interior, nem os próprios instantes secretos de “sinto-me estranhamente distante”.
Por vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer num momento feliz não é aproveitá-lo mais, mas admitir baixinho a ti próprio: “Agora, não sinto isto tanto quanto esperava”, e deixar que essa verdade esteja ok por um segundo.
- Pára uma vez por dia num momento neutro, não apenas nos grandes altos ou baixos.
- Repara numa sensação corporal sem a julgares como boa ou má.
- Usa uma frase suave como “Neste momento, estou suficientemente em segurança” para te ancorar.
- Partilha a tua experiência com uma pessoa de confiança, mesmo que de forma desajeitada.
- Considera falar com um terapeuta se o distanciamento for constante ou assustador.
Deixar a alegria assentar ao seu próprio ritmo
Há uma verdade simples que ninguém te diz: os teus sentimentos não têm de corresponder à fotografia. Podes estar no piquenique perfeito para as redes sociais e sentir-te cansado, desligado, ou silenciosamente triste. Esse desfasamento não apaga o valor do momento; apenas revela onde está o teu sistema nervoso. Quando deixas de exigir “tenho de me sentir feliz agora”, algo suaviza. Abre-se espaço para sensações mais pequenas e mais quietas, que estavam bloqueadas pela pressão.
Algumas pessoas descobrem que a alegria aparece três horas depois, ou até três dias depois, quando já estão em casa de fato de treino, a lembrar-se de um olhar no rosto de alguém. A experiência ficou registada - só não em tempo real. O distanciamento nem sempre significa ausência; por vezes é apenas um atraso.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O entorpecimento pode ser protetor | O cérebro amortece emoções, incluindo as positivas, para evitar sobrecarga | Reduz a vergonha e a autoculpa, reinterpretando o distanciamento como uma resposta aprendida |
| O enraizamento ajuda-te a “reentrar” no momento | Nomear sensações simples e fazer pequenas pausas reconecta-te com o corpo | Oferece uma ferramenta concreta para te sentires um pouco mais presente durante boas experiências |
| A alegria não tem de ser instantânea ou intensa | As emoções positivas podem ser tardias, subtis e, ainda assim, muito reais | Alivia a pressão de “representar felicidade” e permite uma vida interior mais honesta |
FAQ:
- Pergunta 1: Sentir-me desligado durante momentos felizes significa que estou deprimido?
Resposta 1: Nem sempre. O distanciamento pode ser um sinal de depressão, mas também pode vir de stress crónico, burnout, trauma ou simples sobrecarga emocional. Se for constante, afetar a vida diária ou vier acompanhado de desesperança profunda, é sensato falar com um profissional de saúde mental.- Pergunta 2: Há algo de errado comigo se não me sinto entusiasmado com grandes marcos?
Resposta 2: Não. Grandes marcos muitas vezes ativam ansiedade, responsabilidade ou medo da mudança. O teu sistema pode estar ocupado a gerir esses sentimentos, e o entusiasmo fica abafado. Não és defeituoso; estás a adaptar-te, mesmo que de forma pouco elegante.- Pergunta 3: Posso “corrigir” completamente o entorpecimento emocional?
Resposta 3: Podes reduzi-lo e compreendê-lo - e isso, por si só, já muda muita coisa. Terapia, trabalho com o sistema nervoso e conversas honestas trazem muitas vezes mais cor de volta. Mas as emoções vão sempre subir e descer; o objetivo não é alegria perfeita, mas uma ligação mais honesta a ti próprio.- Pergunta 4: Devo dizer a amigos ou família que me sinto desligado durante eventos especiais?
Resposta 4: Se for seguro, sim - pelo menos a uma pessoa. Não precisas de uma explicação perfeita. Um simples “Às vezes sinto-me um pouco fora das coisas, mesmo estando feliz por estar aqui” pode criar compreensão e aliviar alguma pressão para “parecer feliz”.- Pergunta 5: Quanto tempo demora até eu começar a sentir-me mais presente outra vez?
Resposta 5: Não há um prazo padrão. Algumas pessoas notam pequenas mudanças em poucas semanas com práticas de enraizamento e descanso. Outras precisam de mais tempo, sobretudo se houver trauma ou stress prolongado. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. A consistência importa mais do que a perfeição.
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