Este produtor de energia do Norte de África está a avançar com um orçamento de defesa recorde que arrisca remodelar tanto a sua política interna como o frágil equilíbrio de poder em todo o Sahel, uma das regiões mais instáveis do mundo.
Argel aposta forte nas armas em detrimento do bem-estar
O projecto de orçamento da Argélia para 2026 reserva cerca de 25 mil milhões de dólares para despesa com defesa, de acordo com números que circulam em meios governamentais. Não se trata de um aumento marginal. Representa pouco mais de um quinto de toda a despesa pública planeada.
Por outras palavras, por cada dólar que o Estado gastar no próximo ano, pouco mais de 20 cêntimos irão para as forças armadas.
A Argélia está a preparar-se financeiramente para a possibilidade de um grande conflito regional no Sahel, enquanto a sua economia interna tem dificuldade em acompanhar.
A rubrica da defesa está prestes a ultrapassar vários ministérios civis-chave, incluindo finanças e saúde. Para um país que enfrenta desemprego elevado, infra-estruturas degradadas e frustração social crescente, essa escolha envia um sinal claro sobre as prioridades do regime.
As autoridades em Argel enquadram a decisão como uma resposta racional a um ambiente de segurança em deterioração: juntas militares em Estados vizinhos, facções jihadistas a alterar rotas, e potências estrangeiras a disputar influência. Críticos, dentro e fora do país, vêem outra coisa: uma aposta de alto risco que pode agravar a pressão social se o crescimento abrandar.
A despesa militar triplicou em apenas alguns anos
O novo orçamento não surge do nada. A Argélia segue uma trajectória militar ascendente pelo menos desde 2020.
Em 2023, a despesa com defesa já excedia 21 mil milhões de dólares, colocando a Argélia no topo dos orçamentos militares africanos e entre os maiores gastadores na bacia mediterrânica alargada. Os 25 mil milhões planeados para 2026 levariam isso ainda mais longe.
- 2020: aceleração marcada das compras de defesa e da modernização
- 2023: mais de 21 mil milhões de dólares atribuídos às forças armadas
- 2026 (planeado): cerca de 25 mil milhões de dólares, aproximadamente 20,6% de toda a despesa do Estado
Estes números reflectem aumentos anuais de dois dígitos impulsionados por contratos de armamento, programas de treino e novas bases ao longo das fronteiras permeáveis do país com o Mali e o Níger.
Em rankings regionais, a Argélia está agora ao nível de economias muito maiores - ou ligeiramente atrás delas - em termos de despesa absoluta em defesa, embora a sua população esteja abaixo dos 50 milhões e a taxa de crescimento permaneça modesta.
A instabilidade no Sahel alimenta o planeamento para o pior cenário
Os líderes argelinos argumentam que os acontecimentos recentes no Sahel lhes deixam pouca margem de escolha. Golpes militares no Mali, Burkina Faso e Níger viraram do avesso parcerias de segurança antigas com Estados ocidentais. As forças francesas recuaram em grande medida. As presenças russa e turca estão a crescer. Grupos jihadistas afiliados à al‑Qaeda e ao Estado Islâmico estão a mudar rotas e tácticas.
A leste, a Líbia continua dividida e fortemente armada. A oeste, as tensões com Marrocos por causa do Saara Ocidental congelaram os canais diplomáticos e, por vezes, transbordaram para sinais militares ao longo da fronteira.
Em Argel, os planificadores trabalham com a suposição de que o Sahel poderá deslizar de uma desordem crónica para um confronto regional em grande escala na próxima década.
Responsáveis da defesa falam cada vez mais de “ameaças assimétricas”: incursões transfronteiriças, tráfico de armas, incursões de drones e sabotagem de infra-estruturas energéticas. Uma parte significativa do novo orçamento deverá ser canalizada para sistemas de vigilância, artilharia de longo alcance, defesa antiaérea e unidades de reacção rápida estacionadas perto de zonas fronteiriças vulneráveis.
Um exército que domina a vida nacional
Dentro da Argélia, os militares sempre desempenharam um papel central na política, desde a guerra de independência até à actual geração de generais. O novo orçamento consolida essa centralidade.
Com as forças armadas a absorverem uma fatia tão grande do dinheiro público, sectores como educação, habitação pública e infra-estruturas hospitalares arriscam um crescimento mais lento. Analistas em Argel já falam abertamente de efeitos de “expulsão” (crowding out) sobre a despesa civil.
As forças armadas, pelo contrário, ganham não só equipamento, mas influência. Oficiais superiores controlam grandes contratos de aquisição, supervisionam enormes projectos de construção e estão no centro da diplomacia regional. Poucas decisões internas de grande peso contornam hoje o poder de veto informal dos militares.
Rumores de caças furtivos e bombardeiros de longo alcance
Um dos aspectos mais discutidos do orçamento envolve alegados planos para comprar aeronaves russas de nova geração. Relatos não confirmados apontam para interesse no Sukhoi Su‑57, o caça furtivo de Moscovo, e no Su‑34, uma aeronave de ataque de longo alcance.
Não existem documentos publicamente disponíveis que mostrem contratos assinados ou calendários de entrega, e nem as autoridades argelinas nem as russas ofereceram comentários detalhados. Ainda assim, os rumores alinham-se com uma tendência clara: Argel quer manter - e possivelmente alargar - a sua superioridade aérea sobre vizinhos no Norte e Oeste de África.
Uma modernização da frota encaixaria bem nessa estratégia. Novas aeronaves, combinadas com sistemas modernos de defesa antiaérea e drones, poderiam dar à Argélia uma vantagem decisiva em qualquer confronto regional em grande escala, servindo também de dissuasão contra erros de cálculo por capitais rivais.
Energia, preço do petróleo e os limites do talão de cheques
A lógica política para um exército maior pode ser clara aos olhos do regime, mas as bases financeiras parecem muito mais frágeis.
A Argélia depende fortemente dos hidrocarbonetos, que representam a maior parte das exportações e uma fatia significativa das receitas do Estado. Com os preços do petróleo a pairar na casa dos 60 e poucos dólares por barril, a receita é estável, mas longe de espectacular. As exportações de gás para a Europa acrescentam uma almofada, mas a concorrência global está a aumentar.
Um orçamento de defesa de 25 mil milhões de dólares por ano pressupõe preços de energia sustentados ou uma diversificação rápida da economia. A Argélia não tem nenhuma das duas garantida.
Documentos governamentais já apontam para um défice orçamental em alargamento e aumento da dívida pública. Para manter a despesa militar nos níveis actuais sem grandes aumentos de impostos, as autoridades terão provavelmente de cortar ou adiar alguns projectos sociais, recorrer mais a endividamento externo ou usar reservas em moeda estrangeira.
| Principais pontos de pressão | Impacto potencial |
|---|---|
| Preços voláteis do petróleo e do gás | Receita incerta para contratos de armamento plurianuais |
| Desemprego elevado entre os jovens | Maior risco de agitação social se os serviços estagnarem |
| Grande peso da defesa no orçamento | Menor margem para investimento público noutras áreas |
| Diversificação limitada | Maior vulnerabilidade a choques externos |
Parceiros estrangeiros que acompanham as contas da Argélia receiam que o país esteja a prender-se a contratos caros e de longo prazo que se tornem mais difíceis de pagar se os mercados de energia lhe virarem as costas.
Procurar um papel maior no palco africano e global
Para lá da segurança em bruto, o aumento militar da Argélia carrega uma ambição: liderança regional. Com a França a recuar e a atenção dos EUA esticada entre a Europa e a Ásia, Argel vê uma oportunidade de se apresentar como o actor estabilizador-chave no Sahel central.
O governo oferece mediação em crises regionais, acolhe conversações entre facções e sinaliza disponibilidade para coordenar operações antiterrorismo com regimes vizinhos. Ao mesmo tempo, corteja várias grandes potências: a Rússia para armamento e treino, a China para infra-estruturas e a Europa para acordos de gás.
Esta diplomacia multivectorial permite à Argélia proteger-se contra dependência excessiva de um único parceiro. O orçamento expandido dá mais peso às suas promessas. Quando um Estado consegue projectar aeronaves, drones e unidades de elite por milhares de quilómetros de deserto, as suas chamadas têm mais probabilidade de ser atendidas em capitais estrangeiras.
Como poderia ser um conflito no Sahel
Por detrás das folhas de cálculo, planificadores militares em Argel trabalham cenários que poucos políticos querem verbalizar em público. Uma possibilidade frequentemente citada envolve uma cadeia de crises: um golpe num Estado vizinho, um aumento da actividade jihadista perto das fronteiras argelinas e o colapso de uma força de segurança local.
Nesse caso, as tropas argelinas poderiam ser convidadas - ou sentir-se compelidas - a intervir mesmo fora do seu território. Isso poderia começar como uma operação transfronteiriça limitada para proteger gasodutos ou estradas. Poderia escalar se milícias locais ou mercenários estrangeiros resistissem.
O actual rearmamento torna tais intervenções mais tecnicamente viáveis. Não as torna simples. As vastas distâncias do Sahel, a complexidade étnica e o clima duro já desgastaram forças melhor equipadas, da França a coligações regionais apoiadas pela ONU.
Conceitos-chave por detrás da aposta militar da Argélia
Dois termos surgem com frequência nos debates em torno do novo orçamento argelino: “dilema de segurança” e “armas versus manteiga”. Ambos ajudam a explicar o que está em jogo.
Um dilema de segurança ocorre quando um Estado se arma para se sentir mais seguro, mas os vizinhos interpretam esse reforço como uma ameaça. Respondem com os seus próprios aumentos de despesa, e a região deriva para uma corrida ao armamento mesmo que ninguém queira verdadeiramente a guerra. Alguns analistas já vêem sinais disso entre a Argélia e Marrocos, onde cada lado observa com suspeita as compras do outro.
O compromisso “armas versus manteiga” capta a escolha entre despesa militar e bem-estar civil. Cada caça adicional significa menos fundos para hospitais, escolas ou programas de emprego. Num país jovem como a Argélia, com milhões à procura de trabalho e habitação acessível, estas trocas têm consequências políticas e sociais directas.
Um cenário levantado por economistas é uma “armadilha de segurança”: uma despesa militar elevada estabiliza as fronteiras, mas aprofunda o descontentamento interno, o que depois exige mais forças de segurança para gerir protestos e agitação. O ciclo torna-se difícil de quebrar.
Por agora, a Argélia aposta que um exército forte comprará tanto dissuasão no exterior como controlo no interior. Os próximos anos no Sahel - e nos mercados globais de energia - mostrarão até onde essa aposta pode ir antes de a factura chegar ao plano interno.
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