O vídeo é curto, granuloso e claramente concebido para causar impacto, mas levanta uma questão séria: terá a Rússia realmente colocado no terreno um laser tático, chamado Ignis, capaz de apagar minas anticarro a uma distância segura sem um único estrondo?
Desminagem silenciosa ou ferramenta de propaganda polida?
Canais russos ligados ao Estado no Telegram têm vindo a divulgar imagens do Ignis, um sistema laser montado num robot terrestre Kurier. As imagens mostram minas anticarro TM-62 da era soviética colocadas ao longo de uma margem de rio, em frente ao veículo compacto de lagartas.
Não há feixe visível, nem clarão. Em poucos segundos, cada mina parece desintegrar-se em fumo. O comentário russo afirma que o laser gera um calor tão intenso que o explosivo no interior das minas é vaporizado em vez de detonar.
A proposta de Moscovo: o Ignis pode neutralizar minas até 200 metros de distância, sem ruído, onda de choque ou estilhaços.
Um alcance de 200 metros é modesto quando comparado com artilharia de longo alcance ou sistemas de mísseis, mas para engenheiros de combate altera a equação do risco. Se for real, permite que as equipas de desminagem se mantenham afastadas de possíveis armadilhas e dispositivos secundários, enquanto um robot faz o trabalho perigoso.
Uma arma de apoio, não um destruidor de carros de combate
O Ignis é apresentado menos como uma “arma maravilhosa” de primeira linha e mais como uma ferramenta de apoio especializada. Ao contrário do mais conhecido laser russo Peresvet, associado a funções de defesa aérea e espacial, o Ignis está focado no solo: abrir corredores, “sanear” campos minados suspeitos e desativar discretamente engenhos explosivos improvisados (IED).
O conceito encaixa numa tendência mais ampla da guerra moderna: transferir tudo o que é aborrecido, sujo ou perigoso para sistemas não tripulados. Os engenheiros de combate são recursos de alto risco, sobretudo ao sondar estradas minadas, travessias de rio ou linhas defensivas abandonadas.
Pense no Ignis como um kit de ferramentas a laser para sapadores, não como um raio da morte de ficção científica para duelos de carros de combate.
Montado num veículo compacto, poderia, em teoria, acompanhar infantaria mecanizada ou colunas blindadas, avançando à frente dos comboios para “queimar” ameaças antes da chegada das tropas.
Kurier, o robot de trabalho sob os holofotes
O chassis Kurier que transporta o Ignis não é novo. Trata-se de um veículo terrestre não tripulado, de lagartas, concebido para funções modulares: reconhecimento, logística, monitorização NBQ (nuclear, biológica e química) e apoio ligeiro de fogo.
Ao adicionar uma carga útil de energia dirigida, os planeadores russos procuram transformar o Kurier numa plataforma de engenharia multiuso que possa ser:
- teleoperada a partir de um veículo protegido ou abrigo
- pré-programada para seguir um percurso através de terreno minado
- enviada para áreas contaminadas onde os humanos não conseguem permanecer muito tempo
Isto retira soldados do perigo imediato e está alinhado com a doutrina declarada da Rússia de usar robótica para assumir funções de apoio no campo de batalha, particularmente sob a pressão do desgaste na Ucrânia.
O que não sabemos sobre o Ignis
Apesar das imagens dramáticas, quase todos os detalhes técnicos permanecem obscuros. Fontes russas não especificaram a potência de saída do laser, o seu tipo (fibra, estado sólido, químico) nem a sua fonte de energia. Esses detalhes são cruciais para avaliar se o Ignis é um protótipo para filmagens encenadas ou um sistema que conseguiria realmente sobreviver a dias de operações no terreno.
Os lasers exigem energia elétrica estável e elevada, especialmente se tiverem de queimar rapidamente invólucros metálicos e compostos explosivos densos. Isso implica uma bateria substancial a bordo, um gerador de combustão ou uma ligação a uma fonte de energia externa.
| Pergunta-chave | Porque importa |
|---|---|
| Potência e tipo de laser | Determina se consegue realmente vaporizar explosivos, em vez de apenas aquecer ou danificar invólucros. |
| Fonte de energia | A capacidade da bateria ou do gerador define quanto tempo pode operar numa missão. |
| Desempenho em condições meteorológicas | Nevoeiro, chuva, fumo e poeira podem dispersar ou absorver o feixe, limitando o alcance no mundo real. |
| Reconhecimento de alvos | Precisa de sensores e software fiáveis para detetar minas e confirmar a neutralização. |
Também falta por completo verificação independente. Não há observadores estrangeiros, relatórios de testes, nem imagens de combate na Ucrânia que mostrem uso consistente. Com a Rússia sob pesadas sanções, alguns analistas questionam se a sua indústria de defesa ainda consegue produzir em massa óticas avançadas, díodos laser de alta potência e eletrónica de controlo de precisão à escala.
As ambições mais amplas da Rússia com lasers
O Ignis não surge do nada. Moscovo tem impulsionado vários programas laser há anos, alguns públicos, outros opacos. O Peresvet, o mais divulgado, alegadamente foi destacado para proteger ativos estratégicos contra satélites de reconhecimento e drones, embora o seu desempenho real seja igualmente contestado.
A Rússia também tem apresentado conceitos menores de lasers anti-drone montados em veículos blindados, destinados a cegar ou queimar sensores e estruturas de quadricópteros e munições vagueantes a baixo custo.
O Ignis sugere que o Kremlin quer lasers não apenas para defesa aérea, mas também integrados em missões de engenharia tática muito práticas.
Se a Rússia conseguir colocar protótipos funcionais no terreno, ganha mais do que utilidade no campo de batalha. Envia também uma mensagem às capitais ocidentais de que as sanções não estrangularam por completo o seu ecossistema de defesa de alta tecnologia.
A NATO também está a acelerar na energia dirigida
A Rússia não está sozinha na perseguição a lasers de campo de batalha. Vários Estados da NATO já estão a testar ou a destacar os seus próprios sistemas. No Ocidente, o foco tem sido sobretudo a defesa aérea, para travar drones e foguetes baratos sem gastar mísseis caros.
Estados Unidos: do Stryker a carrinhas pick-up
O Exército dos EUA tem o DE M‑SHORAD, um laser de alta energia integrado no veículo blindado Stryker, concebido para abater drones, projéteis de artilharia e morteiros a curta distância. Ensaios mostraram que consegue queimar e destruir alvos com alguns segundos de permanência do feixe.
O HELWS (High Energy Laser Weapon System) da Raytheon é ainda mais flexível. Pode ser instalado em veículos ligeiros como HMMWV ou 4x4 táticos e usado para “fulminar” drones que ameaçam bases, colunas e posições avançadas. A ênfase está no baixo custo de operação: cada disparo usa eletricidade em vez de um míssil que custa dezenas de milhares de dólares.
Israel e França refinam os seus próprios conceitos
Israel apresentou publicamente o Iron Beam, um laser de alta energia destinado a ser uma camada de proximidade que complementa o Iron Dome. Pretende envolver foguetes de curto alcance e drones antes de chegarem a áreas urbanas ou instalações estratégicas.
A França move-se com um pouco mais de discrição, mas continua ativa. O seu programa HELMA‑P, liderado pela Cilas, foca-se num laser anti-drone de cerca de 2 kW. Testes com a agência francesa de aquisições de defesa já demonstraram a destruição de drones a distâncias de algumas centenas de metros a vários quilómetros. Em 2024, forças francesas usaram um sistema deste tipo para derrubar um drone durante um exercício no sul do país.
Paris também estuda conceitos que refletem o que a Rússia afirma que o Ignis pode fazer: ferramentas de energia dirigida para neutralização de IED e apoio à engenharia de combate no exterior.
Um laser poderia realmente desminar assim?
Do ponto de vista da física, usar lasers para desminagem não é absurdo. Um feixe poderoso e bem focado pode aquecer metal, plástico e compostos explosivos até ao ponto de decomposição. O desafio é evitar uma detonação completa, neutralizando ainda assim o dispositivo.
O objetivo é destruição controlada: calor suficiente para quebrar a química do explosivo, mas não tanto que desencadeie uma explosão.
Na prática, isto depende do tipo de mina, de como está enterrada, da estabilidade do explosivo e da existência de dispositivos anti-manipulação. Um engenho profundamente enterrado ou escondido sob detritos seria muito mais difícil de tratar do que uma mina ao ar livre numa margem de rio, como se vê no vídeo russo.
As condições ambientais também contam. Chuva, neve, nevoeiro e fumo dispersam a luz laser e reduzem a densidade de potência no alvo. Até poeira levantada por explosões próximas pode degradar a qualidade do feixe. Sistemas como o Ignis precisariam de sensores para avaliar linha de vista e ajustar potência e tempo de incidência para cada alvo.
Riscos, benefícios e os campos de batalha do futuro
Se um sistema como o Ignis funcionar de facto, as forças armadas ganham várias vantagens. Podem proteger unidades de engenharia escassas, avançar mais depressa em terreno contestado e reduzir o risco de explosões secundárias catastróficas. Os lasers também contornam um problema da desminagem tradicional: o ruído. A limpeza silenciosa torna mais difícil ao inimigo acompanhar o progresso.
Há riscos também. Um adversário pode conceber minas resistentes ao calor, adicionar superfícies refletoras ou integrar sensores que disparem a detonação quando expostos a radiação sustentada. A guerra de energia dirigida tende a gerar um ciclo de medida e contramedida, tal como acontece com blindagem e armas anticarro.
Existem aplicações civis. Agências de desminagem pós-conflito poderão um dia usar robots com lasers para limpar antigos campos de batalha sem enviar humanos para terrenos perigosos. O custo, a complexidade e o peso da manutenção são atualmente elevados, mas essas barreiras tendem a baixar quando os militares investem fortemente.
Termos e cenários que vale a pena explicar
A expressão “arma de energia dirigida” refere-se simplesmente a sistemas que entregam energia a um alvo sem um projétil físico. Os lasers concentram luz, enquanto outros conceitos usam micro-ondas ou feixes de partículas. A ideia-chave é perturbar ou destruir usando potência em vez de força explosiva.
Num cenário realista, uma coluna de combate futura poderá incluir vários veículos robóticos: um a procurar minas com radar de penetração no solo, outro a transportar um laser como o Ignis para neutralização, e um terceiro com interferidores para suprimir drones. Operadores humanos permaneceriam dentro de viaturas blindadas, a gerir o “enxame” com tablets em vez de sondar o solo com detetores de metal.
Se o Ignis russo está realmente pronto para estas funções ou é sobretudo uma ferramenta de mensagem continua por esclarecer. O que é claro é que a corrida para transformar lasers de diapositivos de PowerPoint em equipamento quotidiano para soldados e sapadores está bem em marcha.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário