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Guerra na Ucrânia: “Explosão” num campo de milho após suspeita de drone russo Gerbera ter entrado na Polónia.

Homem usando um drone num campo de milho, investigando uma cratera no solo, com fitas métricas ao redor.

As autoridades polacas estão agora a investigar se um drone militar, possivelmente de origem russa, causou a explosão, levantando novas questões sobre até que ponto a guerra na Ucrânia se está a estender para território da NATO.

Uma explosão misteriosa num campo de milho

O incidente ocorreu durante a noite, de terça para quarta-feira, perto da aldeia de Osiny, a leste de Varsóvia e não muito longe da fronteira da Polónia com a Ucrânia. A polícia local foi alertada de madrugada, depois de residentes terem relatado um ruído forte e um clarão num campo próximo.

Os agentes que chegaram ao local encontraram indícios de uma explosão num milharal, mas não houve vítimas. A cratera deixada no solo sugeria uma detonação limitada, compatível com um pequeno objeto aéreo e não com um míssil de grande dimensão.

As autoridades dizem que não houve feridos, mas as circunstâncias da explosão apontam fortemente para a queda de um drone militar.

As Forças Armadas polacas juntaram-se à polícia no local e localizaram um objeto que parecia ser parte de um componente do motor.

As avaliações militares iniciais descreveram-no como “um elemento de um motor de hélice antigo”, levantando a hipótese de que os destroços possam ter vindo de um drone movido a motor de pistão ou a um pequeno turbopropulsor, e não a um motor a jato.

Investigadores inclinam-se para um drone militar

O procurador regional Grzegorz Trusiewicz, sediado em Lublin, disse aos jornalistas que os primeiros dados sustentam a teoria de se tratar de um drone militar, e não de um dispositivo civil.

“De acordo com os dados preliminares, há uma probabilidade muito elevada de estarmos perante um drone militar”, disse o procurador.

Trusiewicz sublinhou, contudo, que os investigadores ainda não conseguiram determinar nem a origem do drone nem a sua rota de voo. O trabalho forense sobre o fragmento e a área circundante continua em curso, incluindo testes químicos e a análise de quaisquer componentes eletrónicos remanescentes.

O ministro da Defesa da Polónia, Władysław Kosiniak-Kamysz, admitiu inicialmente a possibilidade de os destroços poderem ter vindo de um drone civil ou de contrabando usado para comércio ilícito transfronteiriço. Essa teoria foi entretanto descartada pelo Ministério Público, que argumenta que as características técnicas não correspondem a dispositivos comerciais típicos.

Poderá ser um drone-isca russo do tipo Gerbera?

Os meios de comunicação polacos, citando fontes anónimas do Ministério da Defesa, relataram que o objeto parece ser compatível com um drone russo do tipo Gerbera. Estes drones são conhecidos por serem usados sobretudo como iscas em ataques combinados de mísseis e drones contra a Ucrânia.

Acredita-se que o Gerbera funcione como um alvo relativamente barato para saturar ou confundir radares de defesa aérea e baterias de mísseis. Ao obrigar os defensores a reagir ao que parece ser uma ameaça, os drones Gerbera podem ajudar a abrir caminho para armas mais avançadas ou mais destrutivas.

Os relatos sugerem que o dispositivo suspeito poderá corresponder a um drone-isca Gerbera, uma ferramenta que a Rússia usa para esticar as defesas aéreas ucranianas.

Um dispositivo comparável foi encontrado na Lituânia no início de agosto, gerando preocupação em toda a região báltica. Essa descoberta levou Vilnius a instar a NATO a reforçar as defesas aéreas sobre os Estados-membros que fazem fronteira com a Rússia e a Bielorrússia, bem como os que estão próximos da Ucrânia devastada pela guerra.

Porque é que os drones-isca importam

Os drones-isca podem parecer modestos quando comparados com mísseis de cruzeiro ou grandes UAV de combate. Ainda assim, desempenham um papel estratégico ao:

  • Ativar sistemas de defesa aérea e forçá-los a gastar mísseis intercetores dispendiosos
  • Criar confusão sobre a escala e a direção de um ataque
  • Ajudar a mapear a cobertura de radar e os tempos de resposta
  • Testar lacunas nas redes de defesa aérea da NATO e da Ucrânia

Se o drone encontrado na Polónia for confirmado como um Gerbera, isso sublinharia como ferramentas originalmente destinadas a pressionar as defesas da Ucrânia podem representar riscos para países vizinhos da NATO.

A Polónia diz que o seu espaço aéreo não foi violado

Num pormenor que poderá revelar-se politicamente sensível, o Exército polaco afirmou que não foi registada qualquer violação do espaço aéreo polaco durante a noite do incidente.

Isto levanta várias possibilidades técnicas: o drone pode ter tido uma assinatura radar muito baixa, ter-se aproximado numa trajetória que evitou os sensores existentes, ou ter cruzado a fronteira mais cedo e só mais tarde se ter despenhado. Outra hipótese é ter chegado fora dos principais corredores monitorizados da Polónia.

A ausência de um registo de violação do espaço aéreo evidencia os limites dos sistemas de alerta precoce perto de uma zona de guerra ativa.

A questão de como um suposto drone militar poderia cair em território polaco sem ser detetado deverá levar a um novo escrutínio da cobertura radar, dos tempos de resposta e da cooperação entre os centros de comando polacos e da NATO.

Não é o primeiro incidente em solo polaco

A explosão perto de Osiny integra um padrão perturbador para a Polónia desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

Ano Incidente Resultado
2022 Míssil da defesa aérea ucraniana cai em Przewodów Dois civis mortos; a NATO excluiu um ataque deliberado russo
2023 Míssil russo atravessa o espaço aéreo polaco em direção à Ucrânia Protestos diplomáticos e apelos para reforçar a vigilância aérea
2024 Suspeito drone explode num campo de milho perto de Osiny Sem vítimas; investigação foca possível drone russo Gerbera

Em novembro de 2022, um míssil do sistema de defesa aérea da Ucrânia despenhou-se na aldeia polaca de Przewodów durante uma vaga maciça de ataques russos, matando dois trabalhadores agrícolas. Os líderes da NATO concluíram mais tarde que o incidente foi um trágico acidente, não um ataque deliberado da Rússia a território da Aliança.

Em 2023, Varsóvia confirmou que um míssil russo tinha voado através do seu espaço aéreo enquanto se dirigia a alvos no oeste da Ucrânia. Esse episódio desencadeou críticas públicas sobre a rapidez com que a informação foi partilhada com o governo polaco e com a população.

Pressão crescente para defesas aéreas mais fortes

Estes incidentes recorrentes estão a levar a Polónia a acelerar a modernização da sua defesa aérea e dos seus sistemas antidrones. O governo está em negociações sobre o que poderá tornar-se a maior rede dedicada de combate a drones da Europa, alegadamente avaliada em cerca de 2 mil milhões de euros.

Espera-se que esse sistema combine radar, guerra eletrónica, tecnologias de interferência (jamming) e intercetores de curto alcance. O objetivo é detetar, acompanhar e neutralizar drones de vários tamanhos antes de atingirem infraestruturas sensíveis ou áreas povoadas.

A Polónia está a posicionar-se como um Estado da NATO na linha da frente com um dos programas antidrones mais ambiciosos da Europa.

As autoridades argumentam que, enquanto a guerra na Ucrânia continuar, o risco de mísseis e drones errantes atravessarem para território da NATO manter-se-á. Esse risco é maior para Estados fronteiriços situados em rotas de voo comuns de ataques russos contra cidades e infraestruturas no oeste da Ucrânia.

Como um drone do tipo Gerbera pode acabar na Polónia

Analistas militares delinearam vários cenários plausíveis para explicar como um drone-isca russo poderia despenhar-se num milharal polaco:

  • O drone foi lançado em direção a alvos ucranianos perto da fronteira e desviou-se do rumo devido a falha de navegação.
  • Danos provocados pela defesa aérea ucraniana forçaram-no a alterar a trajetória e a derivar para a Polónia antes de perder potência.
  • Uma rota pré-programada calculou mal o vento ou o estado do tempo, empurrando o aparelho para além da área pretendida.
  • O dispositivo foi usado para testar a reação da NATO ao longo da fronteira, embora não exista evidência pública para este cenário mais provocatório.

Cada uma destas possibilidades tem consequências diplomáticas diferentes. Uma avaria técnica clara seria provavelmente tratada como um transbordo não intencional da guerra. Um teste deliberado da resposta da NATO, por outro lado, elevaria acentuadamente as tensões entre a Rússia e a Aliança.

Termos-chave e riscos para comunidades fronteiriças

Para os residentes que vivem perto da fronteira ucraniana, incidentes como a explosão em Osiny podem parecer distantes e, ainda assim, inquietantes. Ouvem falar de “violações do espaço aéreo” e de “drones-isca”, mas grande parte da linguagem é jargão militar.

Alguns conceitos ajudam a enquadrar o que está a acontecer:

  • Violação do espaço aéreo: quando uma aeronave militar ou controlada por um Estado atravessa a fronteira de um país sem autorização, podendo desencadear ação defensiva.
  • Drone-isca: um dispositivo relativamente barato, muitas vezes de voo lento, concebido para imitar no radar uma arma mais ameaçadora.
  • Sistema antidrones: uma combinação de sensores, software e armas usada para detetar e travar drones hostis.

Para agricultores e habitantes das aldeias, o principal risco é o impacto acidental de destroços ou de armas com avaria. Embora a probabilidade de um campo específico ser atingido permaneça baixa, cada novo incidente reforça a realidade de que um conflito de alta tecnologia do outro lado da fronteira pode transbordar de formas imprevisíveis.

Enquanto os investigadores polacos vasculham o milharal perto de Osiny, não estão apenas a tentar identificar um pedaço de metal. As suas conclusões alimentarão debates ao nível da NATO sobre como proteger o território aliado de uma guerra que é travada com cada vez mais drones, iscas e armas de longo alcance a rasar os limites das fronteiras da Aliança.

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