Começa muitas vezes com uma cena inofensiva. Uma mulher a meio dos 50 anos está numa prateleira de supermercado, a olhar fixamente para 12 marcas de molho de tomate, paralisada. O telemóvel vibra, alguém passa por ela com um carrinho e, por um segundo, ela volta a ter 8 anos, sabendo que vai levar na cabeça se escolher mal. À sua volta, as pessoas brincam com a “fadiga de decisão” e fins de semana de autocuidado. Ela limita-se a dizer a si própria para despachar e escolher um. Cresceu nos anos 60 e 70. Foi treinada para aguentar, não para sentir.
Mais tarde, nessa noite, a fazer scroll nas redes sociais, vê uma publicação sobre “respostas de apaziguamento (fawn)” e “hiperindependência como trauma”. As palavras magoam porque encaixam demasiado bem. Durante décadas, a geração dela chamou força a estes traços. Hoje, a psicologia chama-lhes outra coisa.
E é aí que o desconforto começa a sério.
Sete “superpoderes” que pareciam força e se sentiam como sobrevivência
Quem cresceu nas décadas de 1960 e 1970 foi educado com duas mensagens: não te queixes e segue em frente. As emoções eram como os sapatos à porta - deixavam-se do lado de fora e entrava-se descalço, por mais frias que estivessem as ladrilhas. Os pais estavam muitas vezes stressados, distraídos, ou presentes fisicamente mas ausentes emocionalmente. As crianças aprenderam depressa que a forma mais segura de existir era adaptar-se.
Daquele clima nasceu um conjunto de forças psicológicas que ainda hoje as molda. Uma grande tolerância ao desconforto. Uma ética de trabalho que roça a obsessão. A capacidade de “ler a sala” em segundos. Na altura, estes traços eram elogiados como maturidade e fibra. Ninguém lhe chamava trauma. Ninguém tinha linguagem para isso. Chamava-se apenas “crescer”.
Pensa numa tarde típica dos anos 70. Uma criança de nove anos vai sozinha para casa depois da escola, com a chave ao pescoço num cordel, e entra numa casa vazia. Sem mensagens, sem check-ins, sem GPS. Talvez um dos pais chegue às 19h, cansado, com a frase: “Já tens idade para lidar com isso.” Essa criança torna-se o adolescente que toma conta dos irmãos mais novos, faz o jantar e esconde os próprios medos por trás de sarcasmo e piadas. Quando chega aos 30, as pessoas dizem: “És tão forte, nunca precisas de ajuda.”
Parece um elogio. Também parece alguém que nunca teve, à partida, a opção de ser frágil. Estudos sobre “crianças com chave ao pescoço” (latchkey kids) e estilos parentais autoritários dessas décadas descrevem hoje níveis mais elevados de ansiedade, hipervigilância e supressão emocional na idade adulta. Traços que antes se confundiam com o papel de parede da vida familiar são agora sinais de alerta nas notas de terapia.
Hoje, os psicólogos falam de sete padrões recorrentes em pessoas criadas naquela altura: hiperindependência, necessidade de agradar, anestesia emocional, autocrítica crónica, sobreadaptação, evitamento de conflito e a capacidade de continuar a funcionar aconteça o que acontecer. Por fora, parecem medalhas de resiliência. Por dentro, são muitas vezes as cicatrizes de sistemas nervosos que nunca puderam relaxar.
Esta mudança não se trata de culpar os pais ou reescrever todas as infâncias como uma tragédia. Trata-se de finalmente ter palavras para aquilo que muitos sentiram mas nunca nomearam: “Sobrevivi, sim. Mas a que custo para o meu corpo, as minhas relações, o meu sentido de quem sou?”
De lidar a curar: ver estes traços com outros olhos
Um passo prático - por estranho que pareça - é listar os teus “melhores” traços e perguntar, em silêncio: eu escolhi isto, ou aprendi isto para me manter em segurança? Pega na hiperindependência. Podes começar por observar pequenos momentos. Estás com dificuldades numa tarefa no trabalho e, ainda assim, recusas-te a enviar um e-mail a um colega a pedir ajuda. Repara naquele pequeno pico de pânico só de imaginar seres visto como “carente”. Isto não é apenas personalidade; pode ser a tua história a falar.
Outro exemplo: a necessidade automática de agradar. Em vez de te forçares a parar de um dia para o outro, experimenta um microteste por semana. Diz “Vou pensar nisso” em vez de “Claro, na boa” quando alguém te pede um favor. Observa o que acontece no teu corpo. Coração acelerado? Culpa? Medo de rejeição? Essas reações trazem a história de uma criança que, em tempos, acreditou que o amor era condicionado a ser útil e agradável.
Uma armadilha comum é julgares-te por estes padrões assim que os reconheces. “Estou todo/a estragado/a”, “Porque é que não consigo simplesmente pôr limites como toda a gente?” Esse ataque interno faz parte do guião antigo. Adultos criados nos anos 60 e 70 interiorizaram muitas vezes a crença de que ter dificuldades era um fracasso pessoal, não um sinal de necessidades por satisfazer. Por isso, quando a terapia, as redes sociais ou um livro rotulam a “força” deles como trauma, a vergonha pode entrar a correr.
É aqui que um pouco de gentileza faz muita diferença. Não acordaste um dia e decidiste: “Vou ficar emocionalmente anestesiado/a, parece divertido.” O teu sistema nervoso organizou-se em torno do que te mantinha aceite e fora de sarilhos. Foste inteligente. Adaptaste-te. O trabalho agora não é apagar esse “eu” do passado, mas atualizar lentamente um sistema de sobrevivência antigo que ainda está a correr com dados desatualizados.
A psicóloga Lindsay C. Gibson resume-o sem rodeios: “O que parecia maturidade numa criança parentificada era, muitas vezes, apenas uma forma mais sofisticada de solidão.”
- Hiperindependência – Nasceu de não haver ninguém fiável em quem te apoiar. Valor: és desenrascado/a, mas aprender a pedir ajuda pode aprofundar a ligação.
- Necessidade de agradar – Veio da necessidade de manter os adultos calmos. Valor: lês bem as emoções, mas as tuas próprias necessidades também merecem lugar à mesa.
- Distanciamento emocional – Desenvolveu-se quando expressar sentimentos levava a gozo ou castigo. Valor: manténs a compostura em crises, mas relações seguras hoje conseguem acolher toda a tua amplitude emocional.
- Hiperrendimento – Nasceu da crença de que desempenho é igual a valor. Valor: fazes as coisas acontecer, mas o teu valor não é um relatório de produtividade.
- Evitamento de conflito – Formou-se em casas onde as discussões eram explosivas ou silenciosas e geladas. Valor: detetas tensão cedo, mas nem todo o desacordo é um desastre.
Viver entre dois mundos: resiliência, trauma e o direito à suavidade
Muitas pessoas criadas nos anos 60 e 70 sentem-se agora presas entre duas narrativas. De um lado: o orgulho de terem “aguentado” sem terapia, aplicações de mindfulness ou dias de saúde mental. Do outro: uma consciência crescente de que os mesmos traços que as ajudaram a subir na carreira e a manter famílias à tona podem estar ligados à insónia, dores crónicas ou àquela sensação de zumbido de nunca estar totalmente à vontade. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com consciência perfeita e equilíbrio impecável.
Alguns resistem por completo à linguagem psicológica moderna. Ouvem “trauma” e pensam apenas em guerra ou abuso severo. Dizem: “Tive comida, um teto, escola. Outros tiveram pior.” Isto não é tanto negação; é lealdade aos seus “eus” de então e às lutas dos pais. Ainda assim, a negligência emocional crónica e de baixo grau também deixa marcas. Não te sentires visto/a, ouvido/a ou consolado/a molda uma pessoa com a mesma certeza com que a agressão explícita o faz. A ciência confirma agora aquilo que muitos, a meio da vida, só conseguiam descrever como “um vazio, mesmo numa vida boa”.
O convite real não é rebatizar a tua infância inteira como uma cena de crime. É permitir que duas verdades coexistam: tornaste-te forte, e parte dessa força veio de lugares que doeram. Podes continuar orgulhoso/a da tua resiliência e, ao mesmo tempo, fazer luto pelo que não recebeste. Alguns leitores sentirão um alívio silencioso nessa frase. Outros sentirão raiva ou ceticismo. Tudo isso é válido.
O que tende a desbloquear movimento é a curiosidade. Como reage o teu corpo quando alguém é gentil sem condições? Quando um amigo diz “Eu estou aqui contigo”, tu expiras ou ficas tenso/a? Essas reações são fósseis vivos de uma era emocional diferente. Tu podes decidir quais queres manter, quais queres reformar e quais, finalmente, merecem uma história mais suave.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| A resiliência pode esconder trauma por resolver | Traços como independência, hiperrendimento e controlo emocional começaram muitas vezes como estratégias de sobrevivência na infância | Ajuda a reformular hábitos e sintomas antigos sem auto-culpa |
| Pequenas experiências revelam padrões antigos | Experimentar mudanças mínimas - pedir ajuda, adiar um “sim”, nomear um sentimento - expõe onde o medo e a vergonha ainda vivem | Dá pontos de entrada práticos para a cura sem mudanças avassaladoras |
| Dupla verdade: orgulho e luto | Podes honrar a tua força passada reconhecendo perdas, como segurança emocional ou cuidado incondicional | Oferece permissão emocional para crescer sem trair a tua história ou os teus pais |
FAQ:
- É “exagero” chamar traumática à minha infância dos anos 60/70 se não aconteceu nada extremo? Não necessariamente. Trauma não é apenas sobre grandes eventos dramáticos. Anos e anos a sentires-te invisível, com medo de falar, ou constantemente responsável pelos outros podem treinar silenciosamente o teu sistema nervoso a ficar em alerta. Dar nome a isso não é exagero; é clareza.
- Como sei se a minha resiliência é, na verdade, um mecanismo de coping? Pergunta o que acontece quando deixas de a “fazer”. Se descansar, pedir ajuda ou dizer “não” te parece inseguro, carregado de culpa ou quase impossível, então essa “força” pode ser uma resposta de sobrevivência, e não uma escolha livre.
- Focar-me no trauma não me vai fazer sentir mais fraco/a? Quando é feito com cuidado, costuma fazer o contrário. Compreender as raízes dos teus padrões pode transformar autocrítica vaga em compaixão e opções. Não estás mais fraco/a; estás finalmente a trabalhar com a história completa.
- Consigo mudar estes padrões mais tarde na vida, ou já é tarde demais? O cérebro mantém plasticidade bem dentro da idade adulta. Pessoas nos 50, 60 e até 70 relatam com frequência relações mais suaves, limites mais claros e menos ansiedade quando começam a experimentar novas formas de se relacionar.
- E se os meus pais fizeram o melhor que podiam e eu não os quero culpar? Podes segurar duas verdades ao mesmo tempo: eles fizeram o que sabiam, e algumas coisas ainda te magoaram. Reconhecer o impacto não exige vilificar a intenção. Trata-se de dar ao teu “eu” mais novo a compreensão que nunca teve.
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