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Após a Airbus, outra gigante francesa da aeronáutica aposta no mercado asiático em rápido crescimento com esta oferta complementar.

Técnico analisa motor a jato em laboratório com tablet, próximo a janela com vista para pista de aeroporto.

Asia tem um apetite crescente por novos aviões, e as empresas francesas estão discretamente a reformular as suas estratégias para assegurar lucros a longo prazo.

Para lá das encomendas de jatos que fazem manchetes, está a acontecer uma revolução mais silenciosa na Ásia: o negócio de manter esses aviões a voar. Depois da Airbus, outro grande interveniente francês, a Safran, está a avançar rapidamente para garantir a sua fatia deste mercado de longo prazo e de margens elevadas.

A Safran entra em cena enquanto a Airbus abre a porta

A Airbus estima que serão necessários cerca de 19.560 novos aviões na região Ásia-Pacífico nas próximas duas décadas, quase metade da procura mundial. Cada novo jato vendido também cria décadas de trabalho em manutenção, reparação e suporte.

É aqui que a Safran entra. Enquanto a Airbus vende os aviões, a Safran procura ancorar-se no lado operacional, assim que os jatos passam a integrar as frotas das companhias aéreas.

A 3 de fevereiro de 2026, à margem do Singapore Airshow, a Safran assinou um grande acordo de suporte com a Japan Airlines (JAL). O contrato, conhecido como “Support By Hour” (SBH), tem a duração de nove anos a partir de 1 de janeiro de 2026 e cobre até 35 aeronaves Airbus A350-900 e A350-1000.

O acordo de longo prazo da Safran com a Japan Airlines transforma peças sobresselentes e reparações num fluxo estável de receitas diretamente ligado às horas de voo.

O A350 é a espinha dorsal da frota de longo curso da JAL, operando rotas de elevada visibilidade onde atrasos têm custos elevados, tanto financeiros como reputacionais. A escolha da JAL em garantir os serviços da Safran por quase uma década reflete um objetivo claro: máxima disponibilidade das aeronaves, mínima perturbação.

Quatro especialistas da Safran, um contrato unificado

Em vez de um mosaico de acordos separados, a JAL assinou um único contrato guarda-chuva que reúne quatro entidades da Safran:

  • Safran Landing Systems
  • Safran Electronics & Defense
  • Safran Electrical & Power
  • Safran Ventilation Systems

Isto dá à JAL um balcão único para uma parte crítica do ecossistema de suporte do A350. Para a Safran, garante uma fatia ampla da cadeia de valor.

Em vez de esperar por pedidos de reparação individuais, a Safran passa a ter visibilidade sobre milhares de horas de voo futuras. O modelo também incentiva a empresa a manter os componentes fiáveis: menos avarias significam melhores margens no contrato.

Como o “Support By Hour” altera o modelo de negócio

O conceito SBH é relativamente simples do ponto de vista da companhia aérea. A JAL não paga separadamente por cada peça, cada inspeção ou cada intervenção de emergência. Paga uma taxa fixa com base no número de horas que os seus aviões passam no ar.

O Support By Hour transfere o risco da companhia aérea para o fornecedor: a Safran tem de manter peças disponíveis para que os aviões voem dentro do horário.

Em vez de comprar sobresselentes “para o caso”, a companhia compra disponibilidade. Se algo falhar ou mostrar sinais precoces de desgaste, a Safran tem de agir rapidamente ao abrigo dos termos contratuais.

Este modelo oferece às companhias aéreas três vantagens claras:

  • Custos previsíveis ligados ao uso real das aeronaves
  • Menos capital imobilizado em armazéns cheios de sobresselentes
  • Incentivos para os fornecedores prevenirem falhas, e não apenas repararem

Tóquio como polo operacional para a Ásia

O acordo com a JAL não é apenas comercial; é também geográfico. A Safran irá estabelecer suporte local dedicado em Tóquio, perto da base operacional da JAL.

Equipas no terreno, no Japão, tratarão da logística, do acompanhamento do equipamento e da coordenação do fluxo de componentes entre a JAL e a rede alargada de manutenção da Safran.

Para o mercado japonês, esta presença local não é um luxo. Fiabilidade e pontualidade são inegociáveis. O Shinkansen japonês, com a sua precisão famosa, define o tom das expectativas dos clientes no transporte.

Ao colocar pessoas e infraestrutura em Tóquio, a Safran sinaliza que compreende essas expectativas. Também transforma o Japão numa montra para o resto da Ásia, onde as companhias observam de perto as decisões de transportadoras líderes como a JAL.

Dados, não apenas chaves de fendas: a manutenção torna-se preditiva

O coração técnico deste acordo reside nos dados. Aviões modernos como o A350 geram fluxos de informação em cada voo: temperaturas, níveis de vibração, cargas elétricas e centenas de outros parâmetros.

A Safran utiliza estes dados em tempo real, alimentando-os em ferramentas avançadas de análise. Isso permite detetar anomalias cedo e planear intervenções antes de se transformarem em falhas reais.

O objetivo já não é reparar rapidamente depois de algo avariar, mas agendar a manutenção de forma a que a falha quase nunca aconteça.

Esta abordagem preditiva traz vários efeitos tangíveis:

  • Mais voos pontuais e menos cancelamentos de última hora
  • Menos tempo de imobilização não planeado das aeronaves
  • Melhor utilização de equipas e instalações de manutenção
  • Maior confiança dos passageiros em rotas premium de longo curso

Para as companhias, mesmo uma pequena redução em problemas técnicos inesperados pode traduzir-se em milhões poupados numa frota ao longo de vários anos.

Ásia-Pacífico: um mercado colossal de serviços

Por trás deste acordo específico com a JAL está um cálculo estratégico. A Airbus estima que o mercado de serviços de aviação na Ásia-Pacífico poderá atingir cerca de 117,6 mil milhões de euros até 2044.

Ao detalhar, percebe-se para onde o dinheiro pode fluir:

Segmento Valor estimado até 2044 (Ásia-Pacífico)
Manutenção “off-wing” (componentes, sistemas) ≈ 84,7 mil milhões €
Suporte às operações de manutenção ≈ 39,3 mil milhões €

Estes valores abrangem muito mais do que revisões de motores ou simples substituições de peças. Incluem ferramentas digitais, formação, logística e ofertas integradas de suporte como o SBH.

O Japão ocupa uma posição especial neste panorama. É um mercado maduro e altamente exigente. Decisões tomadas por transportadoras de referência como a Japan Airlines muitas vezes repercutem-se por toda a região, influenciando rivais na Coreia do Sul, no Sudeste Asiático e até na Austrália.

Seguindo a Airbus, a Safran aposta em receitas de longo prazo

Na última década, a Airbus reforçou de forma consistente a sua presença na Ásia através de fábricas, parcerias e grandes campanhas de vendas. Uma vez que esses jatos entram ao serviço, começa uma segunda fase: apoiar as companhias durante décadas.

A Safran está a alinhar-se com essa segunda fase. Em vez de perseguir apenas vendas pontuais de componentes, o grupo francês visa receitas recorrentes distribuídas ao longo de anos de operação.

O contrato com a JAL ilustra uma mudança de vendas esporádicas para fluxos de serviços de longa duração, ligados a cada voo lançado por um A350.

Para a Safran, a lógica é clara: as frotas asiáticas estão a crescer rapidamente e irão envelhecer com a mesma rapidez. Essa combinação cria uma necessidade crescente de manutenção inteligente e de fornecimento fiável de peças.

Para a Airbus, ter um parceiro de confiança como a Safran associado às suas aeronaves também pode reforçar a sua posição competitiva face a rivais norte-americanos na região, ao oferecer às companhias um ecossistema de suporte mais integrado.

O que isto significa para passageiros e companhias aéreas

Para os passageiros, contratos como este são invisíveis. No entanto, têm efeitos muito concretos:

  • Menos atrasos técnicos de última hora na porta de embarque
  • Maior probabilidade de apanhar voos de ligação
  • Horários mais estáveis em rotas-chave de longo curso

Para as companhias, o principal benefício está na fiabilidade e no planeamento. Taxas horárias fixas ajudam no orçamento, e ferramentas de dados preditivos tornam as janelas de manutenção mais eficientes.

Existem, porém, contrapartidas. Ao aderirem a acordos de serviço de longo prazo, as companhias tornam-se mais dependentes de um número reduzido de fornecedores. Negociar flexibilidade mais tarde pode ser mais difícil, sobretudo se a companhia tiver adaptado as suas operações às ferramentas e aos sistemas de dados de um parceiro específico.

Conceitos-chave por trás do acordo

O que significa manutenção “off-wing”

Quando analistas falam de manutenção “off-wing”, referem-se a trabalhos realizados em peças que podem ser removidas da aeronave e assistidas separadamente: trem de aterragem, aviónica, sistemas elétricos, unidades de ventilação e muitos outros.

Isto é distinto de trabalhos executados diretamente na estrutura do avião ou nos motores enquanto permanecem montados. A manutenção off-wing é muitas vezes adequada a contratos de longo prazo e a instalações centralizadas - precisamente o espaço que a Safran procura ocupar.

Cenário: como a manutenção preditiva pode funcionar

Imagine um A350 a partir de Tóquio para um voo de 12 horas rumo à Europa. Durante a subida, sensores detetam uma ligeira alteração na vibração de um componente ligado ao trem de aterragem.

O desvio é pequeno demais para causar um problema de segurança, mas os dados assinalam um padrão que, em casos anteriores, levou a uma falha semanas depois. O sistema da Safran agenda automaticamente uma inspeção na próxima paragem longa da aeronave em terra e garante que a peça sobresselente correta é enviada com antecedência.

A aeronave completa a rotação sem perturbações, a peça é trocada durante a noite numa janela de manutenção planeada e os passageiros nem se apercebem. Num modelo tradicional, essa peça enfraquecida poderia falhar inesperadamente, desencadeando um evento AOG (aircraft on ground) e um reagendamento caótico.

Implicações mais amplas para a aviação asiática

À medida que mais transportadoras asiáticas adotam este tipo de suporte de longo prazo, é provável que surjam algumas tendências:

  • Procura crescente por competências de análise de dados dentro das companhias
  • Maior pressão sobre pequenos prestadores de manutenção para se especializarem ou estabelecerem parcerias
  • Maior poder de negociação para grandes grupos como a Safran e a Airbus

Para as indústrias locais, há também oportunidades. Centros regionais de manutenção, joint ventures com fornecedores globais e polos de formação de técnicos podem crescer em paralelo com estes contratos.

O acordo JAL–Safran pode parecer uma nota técnica ao lado de encomendas gigantes de aeronaves, mas sinaliza como o valor na aviação está gradualmente a deslocar-se do chão de fábrica para a longa vida operacional, orientada por dados, de uma aeronave em serviço.

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