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“Sinto-me tenso mesmo sem motivos para preocupação”: o que diz a psicologia sobre esta reação

Mulher de óculos meditando à mesa, com uma caneca e livro aberto, mãos sobre o peito.

Você acorda, verifica o telemóvel, percorre as mensagens. Nada de alarmante. Nenhum e-mail furioso, nenhuma chamada perdida a meio da noite, nenhuma crise à sua espera no trabalho. A agenda parece quase… leve. O dia devia sentir-se fácil. E, no entanto, a mandíbula está contraída, os ombros estão tensos e o peito carrega aquela tensão baixa, zumbida, que costuma vir com más notícias.

Continua a vasculhar o que o rodeia, os seus pensamentos, as suas listas de tarefas, à procura do problema que deve ter esquecido.

Não há problema.

E é isso mesmo que o deixa nervoso.

Quando o seu cérebro entra em pânico nos momentos de silêncio

Algumas pessoas sentem ansiedade quando a vida fica caótica. Outras enrijecem precisamente quando tudo parece acalmar. Esse desconforto estranho quando “não há nada com que se preocupar” não é preguiça nem drama. É um cérebro que aprendeu a viver em alerta máximo e, de repente, fica privado das ameaças habituais.

O seu sistema nervoso é como um detetor de fumo que tocou tantas vezes que agora fica a zumbir mesmo quando a cozinha está fria. Adaptou-se ao stress como linha de base, por isso a paz parece suspeita.

O silêncio não é lido como segurança. É lido como “algo aí vem”.

Imagine isto: uma mulher que cresceu numa casa onde as discussões explodiam do nada finalmente muda-se para um apartamento calmo, sozinha. Sem gritos, sem portas a bater, sem passos para decifrar no corredor. Senta-se no sofá num domingo, café na mão, a Netflix a perguntar se ainda está a ver.

O estômago dá um nó. Começa a verificar mentalmente tudo: contas, trabalho, mensagens, saúde. Não encontra um problema claro.

Ao fim da tarde, está exausta de uma luta invisível. Diz a uma amiga: “Fico mais ansiosa quando a vida está boa. Estou à espera do desastre.” E diz isso a sério.

Os psicólogos chamam a este tipo de reação hipervigilância. Quando passou anos à espera do pior, o cérebro liga-se a um modo de varrer perigos sem parar. Esse sistema não se desliga só porque a agenda está vazia ou a relação é estável.

Por isso, quando o mundo exterior fica silencioso, o mundo interior preenche o vazio. Os pensamentos desenterram preocupações antigas, inventam novas, ou fixam-se em detalhes minúsculos - só para manter viva aquela tensão familiar.

O calmo parece inseguro porque o seu corpo nunca aprendeu que o calmo pode durar.

O que a psicologia diz: ansiedade sem um gatilho claro

De um ponto de vista clínico, essa sensação de tensão “sem motivo” muitas vezes aponta para ansiedade generalizada, trauma antigo ou stress crónico que nunca terminou de facto. O cérebro e o corpo habituam-se a funcionar a adrenalina. Desejam-na como um mau hábito.

Por isso, no momento em que a vida abranda, o seu sistema não reconhece o novo ritmo. Interpreta mal o silêncio como sinal de que está a falhar alguma coisa, de que deixou cair alguma bola algures.

A preocupação não é sobre um evento específico. É sobre uma sensação profunda e vaga de que a segurança não é de confiar.

Isto também aparece em investigação sobre pessoas que cresceram em ambientes imprevisíveis. Crianças criadas no meio do caos tornam-se muitas vezes adultos com sistemas nervosos afinados para a mais pequena mudança: um tom de voz, uma pausa, um pequeno atraso numa resposta.

Anos depois, podem ter empregos estáveis, relações decentes, uma casa tranquila. No papel, tudo parece bem. Ainda assim, o corpo continua a preparar-se para o impacto.

Então, quando nada de mau está a acontecer, o velho programa de sobrevivência ativa-se: “Isto é estranho. Deve haver algo errado. Mantém-te pronto.” Não é lógica. É condicionamento.

Há também uma componente cognitiva. A nossa mente detesta espaços vazios. Um cérebro programado para a ansiedade preenche o vazio com “e se…” e cenários imaginários. Não é que goste de drama. É que o seu cérebro praticou preocupar-se muito mais do que praticou descansar.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas os terapeutas veem frequentemente pessoas que, inconscientemente, sabotam a própria calma. Comprometem-se em excesso, provocam discussões ou criam novos projetos só para sentirem aquele zumbido familiar de urgência.

Com o tempo, a tensão começa a parecer identidade. Relaxar parece perder o controlo.

Como reagir quando o seu corpo fica tenso sem motivo

Uma das sugestões mais concretas dos psicólogos é trabalhar diretamente com o corpo, não apenas com os pensamentos. O seu sistema nervoso responde mais à respiração, postura e músculos do que às explicações racionais.

Comece pequeno. Quando notar essa tensão vaga, não corra a procurar uma causa. Em vez disso, faça uma pausa. Baixe os ombros. Expire mais devagar do que inspira. Pressione os pés contra o chão e diga em voz alta três coisas que consegue ver neste momento.

Está a ensinar o seu corpo, em pequenas doses, que nada de mau acontece quando deixa de procurar perigo.

Outra mudança útil é parar de discutir com a tensão. Muitas pessoas ficam presas numa segunda vaga de ansiedade: “Não há nada de errado, porque é que sou assim, qual é o meu problema?” Essa luta interna mantém o stress vivo.

Pode reconhecer a sensação como falaria com uma criança assustada: “Claro que estás tenso, estás habituado a esperar por alguma coisa. Não tens de resolver nada agora.”

O objetivo não é forçar o relaxamento sob comando. É construir tolerância ao calmo, poucos minutos de cada vez, sem acrescentar culpa por cima.

Às vezes, os terapeutas descrevem este padrão de forma simples: “O teu sistema de alarme esteve a fazer o trabalho dele durante anos. Agora estamos a ajudá-lo a perceber que o incêndio acabou.”

  • Diga-o com suavidade – “Isto é o meu cérebro em alerta, não uma emergência real.”
  • Mude para a sensação – Repare onde a tensão está: mandíbula, peito, estômago, mãos.
  • Enraíze-se no presente – Olhe em volta, toque em objetos, ouça sons do quotidiano.
  • Permita algum silêncio
  • Procure apoio se for constante – Um psicólogo pode ajudar a desembaraçar passado e presente.

Aprender a viver com calma real, não apenas com a ausência de crise

Essa tensão inquietante quando não há nada de errado pode ser uma mensagem silenciosa do seu passado. Talvez de uma infância em que nunca sabia quando o ambiente ia mudar. Talvez de anos de correria, de cuidar dos outros, de sobreviver com pouco sono e pressão a mais.

Não tem de se diagnosticar a partir de alguns parágrafos num ecrã. Pode simplesmente ficar curioso: quando a vida amolece, que parte de si se contrai? Que regras antigas é que o seu corpo ainda obedece, mesmo que a sua vida atual já não as exija?

Pode começar a notar padrões. Dias calmos parecem mais pesados. Férias são estranhamente stressantes. Fins de semana deixam-no inquieto. Ao início, vai sentir-se tentado a preencher o espaço com ruído: scroll sem fim, novas obrigações, objetivos frescos.

Mas há outro caminho: praticar ficar com o silêncio, mesmo que pareça errado, e deixar o corpo aprender um novo normal - a tensão não é necessária para que as coisas estejam bem.

Com o tempo, aquele zumbido estranho em momentos de paz pode passar de alerta vermelho a eco distante. Não desaparece por completo. Apenas deixa de mandar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Hipervigilância Um sistema nervoso preso em “procurar perigo”, mesmo em momentos seguros Ajuda a explicar por que a tensão aparece quando a vida está calma
Ferramentas centradas no corpo Respiração, postura, técnicas de grounding antes do raciocínio Oferece formas práticas de aliviar a ansiedade sem pensar demais
Nova relação com a calma Construir gradualmente tolerância ao silêncio e à paz Abre a porta a sentir segurança sem preocupação constante

FAQ:

  • Porque é que me sinto ansioso quando tudo está a correr bem? Porque o seu cérebro pode estar habituado ao stress como padrão; a calma parece suspeita, por isso o sistema nervoso mantém-se em guarda mesmo sem uma ameaça clara.
  • Isto é sinal de uma perturbação de ansiedade? Pode fazer parte de ansiedade generalizada ou de uma resposta ao trauma, mas só um profissional de saúde mental pode dar um diagnóstico.
  • Experiências de infância podem causar isto? Sim; crescer no meio de imprevisibilidade ou conflito muitas vezes ensina o corpo a esperar perigo, mesmo décadas depois.
  • O que posso fazer no momento em que a tensão aparece? Repare nela, respire mais devagar, enraíze-se na divisão e lembre-se de que a sensação é “circuito antigo”, não prova de uma crise atual.
  • Quando devo procurar ajuda profissional? Se a tensão é frequente, interfere com o sono, o trabalho ou as relações, ou se se sente preso numa preocupação constante, falar com um terapeuta é um próximo passo forte.

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