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A psicologia explica porque o desconforto emocional pode ser sinal de crescimento.

Jovem sentado à mesa com chá, mão no peito, expressão preocupada, com caderno aberto e telemóvel ao lado.

Estás numa sala cheia, a fazer conversa de circunstância, e as tuas bochechas estão a arder. As palmas das mãos estão húmidas, cada frase que dizes soa errada na tua própria cabeça, e estás a contar os minutos até poderes ir embora. No caminho para casa, começa a autocrítica: “Porque é que eu sou assim? Porque é que não consigo ser normal?”

E se essa sensação horrível e constrangedora não for prova de que há algo avariado em ti, mas um sinal de que algo novo está a tentar crescer?

Há anos que os psicólogos repetem uma ideia estranha: muitas vezes, as emoções de que fugimos são precisamente as que nos mostram que estamos a avançar.

O desconforto não é aleatório.
É uma mensagem.

Quando o teu cérebro grita “perigo” mas, na verdade, estás a evoluir

Pensa no que o teu corpo faz quando entras no desconhecido. O coração acelera. O estômago dá a volta. O cérebro grita-te para recuares para o familiar. À superfície, parece um “não” do corpo inteiro.

No entanto, para o cérebro humano, o que é desconhecido muitas vezes equivale a inseguro, mesmo quando nada de mau está a acontecer. Os psicólogos chamam a isto a “resposta de ameaça”, e ela ativa-se não só quando um carro vem na tua direção a alta velocidade, mas também quando falas numa reunião ou defines um novo limite.

A sensação pode ser idêntica.
O significado não é.

Uma jovem gestora que entrevistei recentemente contou-me a primeira vez que contrariou o chefe à frente da equipa. A voz tremeu-lhe, o peito apertou, e mal ouviu o resto da reunião porque estava a repetir a frase na cabeça. Nessa noite, estava convencida de que tinha arruinado a reputação.

Semanas depois, aconteceu algo inesperado. Os colegas começaram a procurá-la para pedir conselhos. O chefe pediu-lhe que liderasse um novo projeto. Aquele momento aterrador tinha mudado a forma como os outros a viam.

A emoção parecia: “Estou a estragar isto.”
A realidade era: “Estou a entrar num papel maior.”

A Psicologia explica esta diferença entre sensação e facto com um mecanismo simples: o nosso cérebro é uma máquina de previsões. Adora aquilo que já conhece e em que confia. Quando sais da zona de conforto, sobrecarregas essas previsões. O cérebro assinala isso como um erro, uma possível ameaça.

Por isso, o desconforto emocional muitas vezes não é um veredito sobre a tua capacidade.
É o teu sistema nervoso a dizer: “Nunca estivemos aqui antes.”

É por isso que o crescimento tantas vezes se parece com ansiedade, vergonha ou dúvida.
A tua identidade está a acompanhar o teu novo comportamento.

Como distinguir desconforto útil de verdadeiros sinais de alerta emocionais

Há uma forma prática que os psicólogos sugerem para navegar isto: dá um nome ao desconforto e depois pergunta o que o desencadeou. Não de forma vaga, mas como se estivesses a reconstruir uma cena. Onde estavas? Quem estava lá? O que aconteceu exatamente um minuto antes de o estômago dar um nó?

Escreve ou diz em voz alta. Frases curtas e concretas. “Senti-me pequeno quando criticaram a minha ideia.” “Entrei em pânico quando carreguei em publicar.” Este pequeno gesto leva o cérebro da reação pura para a observação.

Quando estás a descrever em vez de te afogares, algo amolece.
Ganhas um milímetro de distância.

Muitas pessoas confundem a dor do crescimento com a dor de aviso e ou forçam-se a aguentar tudo, ou evitam tudo. Um erro clássico é obrigares-te a “aguentar” situações que são, na realidade, inseguras ou re-traumatizantes, só porque alguém na internet disse que o desconforto é sinal de crescimento.

Uma regra útil que alguns terapeutas usam é esta: o desconforto de crescimento parece alongamento, não rasgão. Podes sentir-te exposto, desajeitado, até envergonhado, mas ainda assim há um fiozinho de significado ou propósito. No desconforto que é um verdadeiro sinal de alerta, o corpo parece estar a desligar-se, não a expandir-se. Ficas entorpecido ou dissocias.

Sejamos honestos: ninguém faz este “check-in” emocional todos os dias.
Mas fazê-lo às vezes pode mudar o rumo de um ano.

“O desconforto é o preço de entrada para uma vida com significado”, escreve a psicóloga Susan David, que estuda a agilidade emocional. Ela não glorifica a dor, mas insiste que tentar evitar qualquer sensação desconfortável nos deixa presos em vidas que são pequenas demais para nós.

  • Pergunta ao teu corpo
    Esta sensação é apertada e colapsante, ou instável mas expansiva?
  • Observa o contexto
    Há perigo real aqui, ou apenas o risco de seres visto, julgado ou mudado?
  • Acompanha o efeito depois
    Quando a onda passa, sentes um toque de orgulho ou clareza, ou apenas te sentes esgotado e diminuído?
  • Reduz a dose
    Se for desconforto de crescimento, podes encolher o desafio em passos mais pequenos em vez de fugires por completo.
  • Pede um “segundo cérebro”
    Fala com alguém com os pés assentes na terra: um amigo, terapeuta ou mentor que não tenha interesse em que continues igual.

Deixar o desconforto orientar-te em vez de governar-te

Olha para o último ano da tua vida e assinala os momentos que foram emocionalmente difíceis, mas que, em segredo, te expandiram. A primeira conversa honesta sobre dinheiro com o teu parceiro. A entrevista de emprego de que saíste certo de que tinhas estragado tudo. O fim de semana que passaste sozinho pela primeira vez em anos, sem saber quem eras sem o ruído constante.

Geralmente há um padrão.
O desconforto concentra-se à volta das margens da vida que dizes querer.

Quando reparas nisso, a dor emocional deixa de ser apenas um alarme para desligar tudo. Torna-se uma espécie de bússola irregular e aos soluços.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O desconforto marca muitas vezes a fronteira da tua zona de conforto O cérebro rotula ações desconhecidas como ameaças, mesmo quando estão alinhadas com os teus objetivos Ajuda-te a reenquadrar a ansiedade ou o embaraço como um possível sinal de progresso
Nem toda a dor emocional é “dor boa” O desconforto de crescimento alonga-te, enquanto o desconforto de sinal de alerta desliga-te Dá-te uma forma de te protegeres, mantendo ainda assim a coragem de crescer
Observar as tuas reações muda a tua relação com elas Nomear e descrever o que sentes ativa partes mais reflexivas do cérebro Faz com que emoções grandes pareçam mais geríveis e menos uma prova de que estás a falhar

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se o meu desconforto é um sinal de crescimento ou um sinal de que devo desistir?
    Repara no que acontece ao longo do tempo. Se, depois do desconforto, te sentes um pouco mais capaz, mais claro ou mais alinhado com os teus valores, é provável que seja crescimento. Se consistentemente te sentes menor, confuso ou inseguro, isso é uma pista de que talvez precises de recuar ou procurar apoio.
  • Pergunta 2 Não há o risco de romantizar o sofrimento em nome do crescimento?
    Sim, e os psicólogos alertam contra isso. O objetivo não é perseguir a dor. É deixar de fugir automaticamente a qualquer emoção desconfortável e, em vez disso, perguntar: “Esta dor está a mover-me na direção de uma vida que me importa, ou só me está a manter preso?”
  • Pergunta 3 E se o desconforto significar apenas que não sou bom em alguma coisa?
    Às vezes significa. A incompetência inicial muitas vezes é horrível. Isso não quer dizer que devas abandonar imediatamente. Desconforto mais curiosidade é onde nascem as competências. Se ainda te importares depois de a vergonha passar, vale a pena tentar outra vez.
  • Pergunta 4 O desconforto emocional pode ser sinal de um trauma mais profundo?
    Pode. Se as tuas reações forem intensas, persistentes ou desproporcionadas à situação, ou se te sentires entorpecido, desligado ou inundado, é sensato falar com um profissional de saúde mental. O crescimento não exige reabrir feridas antigas sozinho.
  • Pergunta 5 Como posso trabalhar com o desconforto sem entrar em burnout?
    Pensa como um halterofilista: doses pequenas e regulares. Escolhe uma área em que o desconforto aponte para crescimento, define desafios minúsculos aí e equilibra-os com descanso, prazer e ligação. Tu não és um projeto. És uma pessoa a aprender a viver com uma amplitude emocional maior.

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