O país está a preparar o terreno para substituir os seus envelhecidos F‑16 por uma nova geração de aeronaves de combate, num movimento que mistura estratégia de defesa, ambição industrial e política de alianças. Nos bastidores, alguns dos maiores protagonistas mundiais da indústria aeroespacial já disputam um contrato relativamente pequeno, mas simbolicamente poderoso.
Portugal pondera o salto para o poder aéreo de quinta geração
A Força Aérea Portuguesa (FAP) deixou claro que a renovação da sua frota de caça é agora uma prioridade máxima. Oficiais superiores pretendem pelo menos 14 aeronaves de combate de nova geração - e preferiam mais, se os orçamentos o permitirem.
Lisboa planeia retirar de serviço F‑16 com mais de três décadas e passar para aeronaves comercializadas como de “quinta geração” ou próximas disso.
Os caças de quinta geração combinam, em geral, formas mais furtivas, sensores potentes e software avançado capaz de fundir grandes quantidades de dados em tempo real. Para um país com a dimensão de Portugal, entrar neste clube seria uma afirmação significativa de intenção.
Alguns dos F‑16AM/BM que operam a partir de bases portuguesas entraram ao serviço há mais de 30 anos, e vários aproximam-se da marca dos 40. Os pilotos continuam a valorizar o modelo, mas a fadiga das células, o aumento dos custos de manutenção e o potencial limitado de modernização estão a encerrar o ciclo.
Como Portugal ficou para trás dos seus pares do Norte
O comando de topo da FAP admitiu que a renovação deveria ter começado há cerca de 20 anos. Aliados nórdicos chegaram a essa conclusão muito mais cedo. A Dinamarca e a Noruega abriram concursos de substituição já em 2008–2009, acabando por escolher o F‑35A.
Portugal optou antes por prolongar a vida da frota de F‑16, extraindo anos adicionais através de modernizações incrementais. Essa decisão preservou os orçamentos no curto prazo, mas adiou o planeamento do sucessor. Agora, os prazos são apertados e a pressão estratégica está a aumentar.
Geopolítica e um momento tenso na Casa Branca
Um episódio diplomático também parece ter influenciado o pensamento de Lisboa. Notícias de trocas de palavras duras em Washington entre o então presidente dos EUA Donald Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky suscitaram dúvidas, em toda a Europa, sobre a previsibilidade americana a longo prazo.
Desde então, o ministro da Defesa, Nuno Melo, tem sublinhado que o país precisa de aliados fiáveis e de retornos industriais sólidos em qualquer futuro acordo para aeronaves.
Lisboa quer um avião que reforce as operações da NATO, mas também contratos que alimentem fábricas portuguesas, engenheiros e start-ups tecnológicas.
Os concorrentes a gravitar em torno de Lisboa
Embora Portugal não tenha lançado formalmente um concurso, os principais fabricantes já se comportam como se uma competição estivesse em curso. Para eles, o contrato é relativamente modesto em dimensão, mas estrategicamente valioso: envia um sinal para outras nações de média dimensão que ainda estão indecisas.
Lockheed Martin e o F‑35A
O gigante norte-americano Lockheed Martin está a pressionar fortemente o F‑35A, a variante de descolagem convencional já em serviço em várias forças aéreas europeias. A aeronave cumpre o requisito de “quinta geração”, oferece integração profunda com as forças dos EUA e beneficia de uma ampla comunidade de utilizadores na NATO.
- Célula furtiva e assinatura radar reduzida
- Fusão avançada de sensores e suite de guerra eletrónica
- Infraestruturas e cadeias de treino já existentes e partilhadas com aliados
Para Portugal, aderir ao clube do F‑35 facilitaria a interoperabilidade com vizinhos como Espanha e Itália em exercícios e missões conjuntas, desde o policiamento aéreo no Báltico até destacamentos no Mediterrâneo.
Saab Gripen: o desafiante focado no custo
A fabricante sueca Saab também iniciou conversações com Lisboa sobre o seu JAS‑39 Gripen E/F. O Gripen é frequentemente apresentado como uma alternativa de alta tecnologia, mas consciente do orçamento, sobretudo para forças aéreas mais pequenas que procuram equilibrar ambição e acessibilidade.
A Saab tende a destacar custos de operação mais baixos, manutenção mais simples e maior ênfase em participação industrial local. Para Portugal, isso poderia significar mais trabalho para empresas aeronáuticas nacionais e uma base de competências mais ampla em aviónica e integração de sistemas.
Rafale e Eurofighter: a Europa avança
No flanco ocidental da indústria aeronáutica europeia, a francesa Dassault Aviation está a promover ativamente o Rafale. O líder da empresa, Éric Trappier, confirmou publicamente contactos próximos com responsáveis portugueses, defendendo que o caça bimotor oferece autonomia de longo prazo para a defesa europeia.
O Rafale tem ganho tração nas exportações, do Egito à Índia, e já é operado pelo membro da NATO, Grécia. Entre os seus pontos fortes estão capacidades multirole robustas - da superioridade aérea ao ataque profundo e missões marítimas - alinhadas com o foco atlântico de Portugal.
Entretanto, o consórcio Eurofighter Typhoon - representado pela Airbus Defence & Space - avançou para consolidar ligações locais. Em outubro, assinou um memorando de entendimento com o cluster aeroespacial português AED Cluster Portugal.
O acordo do Eurofighter com a indústria portuguesa envia um sinal claro: qualquer venda de aeronaves seria acompanhada de empregos, formação e transferência de tecnologia.
Compensações industriais e o fator “guerra de preços”
O ministro da Defesa, Nuno Melo, tem sido direto quanto à sua estratégia: quer uma competição forte entre a Lockheed Martin e os fabricantes europeus, procurando baixar preços e garantir melhores compensações industriais.
Os pacotes de compensação podem incluir montagem local, produção de componentes, projetos de investigação ou centros de formação. Para uma economia mais pequena como a portuguesa, isto pode ter um impacto duradouro no emprego qualificado e na capacidade tecnológica.
| Fator-chave | Prioridade de Portugal |
|---|---|
| Preço de aquisição | Manter o investimento inicial politicamente aceitável |
| Custos de operação | Garantir acessibilidade a longo prazo para combustível, manutenção e modernizações |
| Retornos industriais | Assegurar contratos para empresas portuguesas e laboratórios de investigação |
| Interoperabilidade NATO | Integrar-se sem fricção em missões e treino conjuntos |
| Prazo de entrega | Evitar lacunas à medida que os F‑16 são retirados |
O que os novos aviões fariam na prática
Atualmente, a força aérea portuguesa cumpre várias missões com os F‑16: policiamento aéreo nacional, alerta rápido de reação (QRA) da NATO, apoio a operações no exterior e treino. Qualquer sucessor tem de assegurar, pelo menos, esse conjunto de tarefas - e idealmente acrescentar novas capacidades.
Os compromissos com a NATO são centrais. Aeronaves portuguesas destacam-se periodicamente para os Estados Bálticos ou para a Europa de Leste para proteger o espaço aéreo aliado. Um avião mais avançado, com melhores sensores e ligações de dados, melhoraria a consciência situacional de toda a força aliada nessas rotações.
A longo prazo, Lisboa poderá usar os novos caças para vigilância marítima e dissuasão no Atlântico, apoiando a extensa zona económica exclusiva do país e as ligações aos Açores e à Madeira.
Cenários que moldam a escolha
Analistas apontam alguns cenários práticos que os planeadores portugueses estão a ponderar:
- Uma crise na Europa de Leste que exija destacamentos rápidos de aviões portugueses lado a lado com F‑35 dos EUA e do Norte da Europa.
- Um aumento de aeronaves militares russas ou de outros países perto do espaço aéreo da NATO sobre o Atlântico, exigindo patrulhas de longo alcance.
- Operações mistas em que caças partilham dados com drones e navios, exigindo redes avançadas e comunicações seguras.
Cada cenário favorece plataformas com sensores fortes, resistência à guerra eletrónica e integração fluida nos sistemas de comando da NATO, independentemente do fabricante.
Termos-chave e desafios menos visíveis
As discussões sobre aeronaves de combate de “quinta geração” podem ser confusas, porque o rótulo é mais marketing do que ciência rigorosa. Normalmente refere-se a desenhos mais furtivos, sensores avançados de radar e infravermelhos, computadores potentes e modernizações definidas por software.
Alguns aviões que cortejam Portugal, como o Eurofighter e o Rafale, são frequentemente classificados como de geração 4.5. Não têm a furtividade extrema do F‑35, mas compensam com sistemas maduros, elevado desempenho e roteiros de modernização contínua.
Para Portugal, o risco está menos no rótulo e mais na sustentabilidade a longo prazo. Caças de topo exigem manutenção dispendiosa, suporte de software e modernização a meio da vida útil. Uma compra que parece acessível no papel pode pressionar os orçamentos de defesa uma década depois se os custos operacionais dispararem.
Do lado positivo, um contrato cuidadosamente estruturado poderá fixar, durante anos, empregos de engenharia avançada em Portugal, ligados à produção de componentes, trabalho de software e centros de manutenção. Esse tipo de ecossistema pode transbordar para a aeronáutica civil, sistemas não tripulados e setores mais amplos de alta tecnologia.
A escolha que Portugal fizer ecoará muito para além dos seus cerca de 14 aviões, moldando a sua postura de defesa, a sua indústria e o seu lugar à mesa da NATO durante décadas.
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