O facto de o Reino Unido avançar com uma venda multibilionária de Eurofighter Typhoon à Turquia está a ser apresentado como um sucesso industrial gerador de emprego e um símbolo de solidariedade na NATO. No entanto, o acordo altera discretamente o equilíbrio dentro da aliança, reforça um parceiro espinhoso com ambições contestadas e deixa uma alavanca política significativa por usar.
O grande acordo de defesa de Starmer chega a Ancara
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, revelaram o acordo em Ancara a 28 de outubro, confirmando que a Turquia vai comprar 20 caças Eurofighter Typhoon, num negócio avaliado em cerca de 10 mil milhões de dólares.
Starmer enquadrou o contrato como um impulso para o fabrico britânico e um sinal de que o Reino Unido continua a moldar o panorama da defesa europeia após o Brexit. Erdogan, por seu lado, saudou um “marco” na modernização da força aérea turca e no seu percurso rumo à independência na defesa.
O anúncio foi bem recebido por ambos os líderes no plano interno, mas esconde uma aposta estratégica mais profunda para a aliança NATO.
A venda foi concluída após dois anos de negociações e exigiu o aval de todos os quatro parceiros do Eurofighter: Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha. A relutância inicial de Berlim, devido ao comportamento de Ancara no Mediterrâneo oriental, atrasou o processo até outubro, quando acabou por retirar as objeções.
Porque é que a Turquia queria tanto o Eurofighter
A força aérea turca enfrenta um problema urgente. A sua frota de F‑16, outrora a espinha dorsal do seu poder aéreo, está a envelhecer rapidamente. A tentativa de Ancara de saltar para o avançado F‑35 terminou em desastre em 2019, quando comprou à Rússia o sistema de defesa aérea S‑400, apesar de avisos veementes da NATO.
A compra do S‑400 desencadeou sanções dos EUA ao abrigo da lei CAATSA e levou à expulsão da Turquia do programa F‑35. Washington argumentou que o radar russo poderia recolher dados sensíveis sobre as características de furtividade do F‑35 se ambos os sistemas coexistissem na mesma força.
Desde então, Ancara tem procurado alternativas. Tentou assegurar novos F‑16 Block 70 aos EUA, mas o choque com os preços e o ceticismo no Congresso tornaram o progresso lento e politicamente tóxico. O Eurofighter preenche a lacuna: um caça de topo de “geração 4.5” que pode ser entregue relativamente depressa e mantém os pilotos turcos atualizados em aeronaves a jato avançadas.
Uma ponte para o caça furtivo turco
A aposta de longo prazo da Turquia é o seu caça KAAN, um avião furtivo de quinta geração em desenvolvimento. O KAAN pretende competir, pelo menos em teoria, com plataformas ocidentais como o F‑35, dando a Ancara uma aeronave de combate de primeira linha sem condicionantes externas.
Os primeiros voos de teste têm sido fonte de orgulho nacional, mas o projeto assenta em motores estrangeiros. Os primeiros protótipos usam motores F‑110 de fabrico norte‑americano, e as licenças de exportação para motores futuros já enfrentam escrutínio político em Washington.
Até a Turquia conseguir produzir os seus próprios motores em escala, o KAAN é tanto um sinal político como uma capacidade concreta.
É aqui que o Eurofighter ganha relevância. Dá tempo a Ancara, preserva as competências dos pilotos e mantém credível a sua força aérea enquanto o programa doméstico amadurece. Também prova a Erdogan que, quando Washington hesita, Londres pode intervir.
Para o Reino Unido: empregos agora, perguntas depois
Em Londres, o cálculo é simples. As exportações de defesa sustentam empregos de elevado valor e dão fôlego a um setor que suporta a base industrial britânica. Empresas como a BAE Systems e a Rolls‑Royce podem beneficiar da produção, manutenção e potenciais atualizações futuras.
Starmer pode apontar o contrato como prova de que o seu governo apoia o fabrico, sustenta aliados da NATO e continua capaz de fechar grandes negócios no exterior após a saída da UE.
- Valor estimado do contrato: cerca de 10 mil milhões de dólares
- Número de aeronaves: 20 Eurofighter Typhoon
- Principais beneficiários no Reino Unido: BAE Systems, Rolls‑Royce, cadeia de fornecimento alargada
- Potencial adicional: aeronaves em segunda mão do Qatar e de Omã, sujeitas a aprovação do Reino Unido
No entanto, a narrativa industrial esconde uma preocupação estratégica mais ampla: a venda acelera o projeto de Erdogan de construir uma postura de defesa turca mais autónoma e menos previsível.
Um aliado a armar-se para a sua própria agenda
A Turquia continua a ser membro da NATO, mas a convergência entre os seus objetivos de segurança e os interesses dos aliados tem vindo a afrouxar há anos. A compra de defesas aéreas russas, a aproximação a blocos rivais como os BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, e a relação complexa com Moscovo ilustram esse afastamento.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Hakan Fidan, queixou-se recentemente de que a Turquia está “cercada” no Mediterrâneo oriental, apontando a Grécia, Chipre, Israel e os EUA como parte de uma constelação adversária. Sugeriu que disputas não resolvidas sobre fronteiras marítimas e campos de gás poderão um dia cair no âmbito militar.
Os aviões que a Grã‑Bretanha está a vender hoje podem acabar a patrulhar céus disputados contra Estados que o Reino Unido chama publicamente de parceiros.
Esta é a lógica desconfortável levantada por críticos em Londres e Washington: a Turquia não está apenas a modernizar-se para se integrar mais suavemente nas operações da NATO. Está a modernizar-se para ganhar margem de manobra para agir sozinha em teatros regionais tensos.
A sombra do S‑400 e uma mensagem de “o dinheiro sobrepõe-se à conduta”
A Turquia continua a ter as baterias russas S‑400 que motivaram a sua expulsão do F‑35. Ancara não avançou para as retirar, colocar em reserva ou transferir. Ao mesmo tempo, Erdogan argumenta que a Turquia merece F‑35 porque contribuiu financeiramente para o programa antes de ser afastada.
Responsáveis norte‑americanos veem isto como uma visão transacional, quase de “serviço ao cliente”, das aquisições de defesa: entra dinheiro, saem caças, independentemente de preocupações mais amplas de confiança ou de segurança tecnológica.
Ao aprovar a venda do Eurofighter sem condições firmes, Londres sinalizou - intencionalmente ou não - que o comportamento é secundário face a cheques compensados. Essa mensagem será ouvida não só em Ancara, mas também por outros governos que avaliam até onde podem pressionar normas da aliança mantendo acesso a equipamento avançado.
Alavanca deixada em cima da mesa
Starmer tinha algo que Washington muitas vezes não teve com a Turquia: uma capacidade “limpa” e desejada, que Ancara queria muito, e que apenas um pequeno grupo de governos europeus podia autorizar.
Em vez de usar essa carta, o acordo avançou sem qualquer sinal público de condições políticas relacionadas com a conduta regional da Turquia ou a sua trajetória interna.
| Questão | Potencial exigência do Reino Unido | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Tensões no Mediterrâneo oriental | Compromissos escritos para reduzir sobrevoos militares perto da Grécia e de Chipre | Não foram anunciadas condições explícitas |
| Relações com a Rússia | Aplicação mais rigorosa contra exportações de dupla utilização que ajudam a economia de guerra de Moscovo | Ancara travou alguns fluxos apenas após pressão dos EUA |
| Recuo democrático | Medidas para proteger figuras da oposição e imprensa livre | Continuaram novas campanhas de difamação contra a oposição |
| Utilização do S‑400 | Roteiro concreto para colocar o sistema em reserva ou desfazer-se dele | O sistema permanece nas mãos da Turquia |
A comparação com a abordagem dos EUA aos F‑16 é reveladora. Washington só aprovou a venda de F‑16 Block 70 modernizados depois de Erdogan ter retirado o veto à adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. Isso criou uma troca clara: aeronaves avançadas em troca de uma postura aliada mais forte no norte da Europa.
Em contraste, a decisão sobre o Eurofighter entrega hardware valioso a Ancara, concedendo a Londres pouco mais do que palavras calorosas e promessas de cooperação futura.
Política interna, sinais discretos
O clima interno turco acrescenta outra camada de preocupação. O governo de Erdogan tem um longo historial de prender jornalistas, processar críticos e apertar o cerco a partidos da oposição através dos tribunais e do controlo dos meios de comunicação.
Pouco depois da assinatura em Ancara, órgãos pró‑governo acusaram o presidente da câmara da oposição em Istambul, Ekrem Imamoglu, de atuar como agente britânico ligado ao MI6. Estas alegações foram amplamente vistas como uma tentativa de descredibilizar o rival mais viável de Erdogan antes de futuras eleições.
Quando o Reino Unido assina um contrato emblemático de defesa ignorando campanhas de difamação ostensivas contra um líder da oposição, envia o seu próprio tipo de mensagem sobre prioridades.
Aliados e dissidentes interpretam esse silêncio. Para muitos na oposição turca, o acordo parece menos um abraço a um povo e mais um pacto com uma presidência reforçada.
O que isto significa para a estratégia da NATO
A venda do Eurofighter quase certamente reforçará a capacidade militar de curto prazo da Turquia. Os pilotos turcos irão operar um avião já familiar em várias forças aéreas da NATO, com bom desempenho em missões ar‑ar e sensores e armas modernos.
Mas a capacidade é apenas uma parte da segurança da aliança. O alinhamento de interesses, a previsibilidade e um terreno político comum também contam. Nesses indicadores, o acordo poderá alargar uma fratura.
Os planificadores da NATO já lidam com contradições na posição de Ancara: um Estado-membro que controla o acesso ao Mar Negro, vende drones à Ucrânia, mas também acolhe turistas russos, resiste a sanções totais e flerta com blocos não ocidentais. Caças avançados em tais mãos levantam questões embaraçosas de planeamento.
Um cenário que responsáveis ocidentais discretamente equacionam: uma futura crise no Mediterrâneo oriental em que aeronaves turcas e gregas - ambas, em teoria, NATO - se vigiam sobre águas disputadas, desta vez com sistemas mais capazes e maior alcance. Nesse quadro, Eurofighters vendidos pela Grã‑Bretanha poderiam encontrar-se em confrontos tensos com aviões aliados.
Termos e conceitos-chave que vale a pena destrinçar
Várias expressões neste debate são frequentemente usadas sem detalhe, mas orientam os argumentos à porta fechada.
Caça de geração 4.5: Este rótulo refere-se a aeronaves como o Eurofighter Typhoon e F‑16 modernizados. Não têm o formato totalmente furtivo das plataformas de quinta geração como o F‑35, mas incluem radares avançados, suites de guerra eletrónica e armamento de precisão. Em muitas missões reais, continuam a ser formidáveis.
Interoperabilidade: A NATO enfatiza regularmente a necessidade de forças que consigam comunicar, reabastecer, partilhar dados de alvos e planear missões em conjunto. Quando um membro opera simultaneamente sistemas ocidentais e russos, ou constrói uma arquitetura própria e fechada, integrar essa força em operações de coligação torna-se muito mais complexo.
Riscos e cenários futuros
Olhando para o futuro, vários caminhos são plausíveis:
- Parceria gerida: A Turquia continua a jogar em ambos os tabuleiros, mas com cautela suficiente para evitar confronto aberto, usando Eurofighters para modernizar e introduzindo gradualmente o KAAN em serviço limitado.
- Divergência mais acentuada: A política interna endurece, Ancara aprofunda a aproximação a Moscovo e Pequim, e hardware ocidental avançado fica dentro de uma força cujos objetivos estratégicos divergem cada vez mais dos da NATO.
- Reajuste condicionado: A pressão dos EUA e da UE liga futuras transferências tecnológicas - como qualquer conversa sobre reentrada no programa F‑35 - a passos mensuráveis em sanções, reformas democráticas ou direitos de basing.
Em cada caso, o acordo do Eurofighter funciona como um sinal inicial. Introduz capacidade hoje e molda ligações industriais por décadas, desde contratos de manutenção a uma potencial co‑evolução de atualizações.
Para Washington, a lição que paira sobre qualquer debate sobre permitir que a Turquia volte ao programa F‑35 é clara: quando o hardware começa a fluir, a alavanca diminui. Se os EUA ou o Reino Unido querem concessões - seja em sanções à Rússia, apoio ao alargamento da NATO ou liberdades internas - o momento de pressionar é antes de os aviões estarem estacionados na pista, não depois.
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